Geddy Lee, Alex Lifeson e a nova baterista Anika Nilles contam tudo sobre a maior e mais improvável turnê do rock: “Estou nessa idade agora. Será que ainda consigo fazer isso?”.
Em sua longa jornada para voltar a ser o Rush, Geddy Lee e Alex Lifeson superaram a morte, doenças, a idade, a insegurança e, no caso de um deles, um hábito de fumar maconha que remontava a 1966.
No início de junho de 2026, a banda ressuscitada estava prestes a fazer seu primeiro show em 11 anos, dando início à turnê Fifty Something. Nos bastidores do Kia Forum, em Los Angeles, naquela noite de domingo, Lee estava tenso; Lifeson, nem tanto.
Lifeson colocou o pé no pedal de volume, pronto para liberar as notas crescentes que dão início a “Xanadu”, de 1977.
À medida que mais fumaça se espalhava, ele conseguia sentir o peso de 5,4 quilos de sua guitarra sobre a coluna, mas não enxergava um único traste. Por um instante, pelo menos, o “não estava tão nervoso” se transformou em quase pânico.
A poucos metros dali, Lee olhou para um pequeno espelho que deveria permitir que ele acompanhasse a baterista Anika Nilles. Naquela névoa, seu retrovisor havia desaparecido.
Quase cegos, mas sem se deixar abalar, começaram a música. Nos primeiros momentos de seu primeiro show com o Rush, Nilles passou freneticamente pela longa sequência de viradas de bateria exclamativas da introdução de “Xanadu”.
Um minuto depois, ela martelava o acompanhamento pesado nos tons de uma longa passagem instrumental. “Não erre essa virada”, lembra ela de ter dito a si mesma, justamente quando sua mão esquerda perdeu a pegada: “Vi essa baqueta voando por cima dos tons”.
Ela perdeu uma única batida, o suficiente para provocar um olhar preocupado de Lee, antes de continuar tocando com uma só mão. No mesmo milésimo de segundo, de alguma forma, ela agarrou a baqueta perdida no ar, virou-a e continuou.
Aos 43 anos, Nilles, natural de Aschaffenburg, na Alemanha, é três décadas mais jovem que seus novos companheiros de banda. Quando ela nasceu, o Rush estava prestes a gravar seu décimo álbum, Grace Under Pressure.
Ela já sofreu com medo de palco no passado, mas, na noite de maior responsabilidade de sua carreira, estava tranquila o suficiente para abrir um sorriso logo depois de recuperar a baqueta.
Ajudou o fato de ela ter meditado por 45 minutos inteiros antes do show, como parte de uma “rotina para se acalmar”. “Em cada parte de cada música”, diz ela, “precisava me orientar um pouco, especialmente no primeiro show, para não sair voando.” Ela tentou não pensar no panorama geral.
O lugar que ela ocupa, é claro, sempre pertencerá a Neil Peart, que morreu de câncer no cérebro em 2020. Aquela noite em Los Angeles foi o primeiro show do Rush sem ele desde sua estreia, em 14 de agosto de 1974.
Peart era um virtuose único, um dos maiores bateristas que o rock já conheceu, e suas partes monstruosamente complexas eram tão intrínsecas ao som do Rush que a ideia de substituí-lo durante muito tempo pareceu inimaginável.
Ele também era o letrista da banda, dando ao maior power trio do Canadá uma ambição intelectual e uma alma poética, após algumas adoráveis incursões pela ficção científica e fantasia em seus primeiros anos.
Para esta turnê, porém, ele estava determinado a provar o contrário. O frontman, baixista e responsável por manter a banda na linha do Rush não apenas estava ressuscitando um grupo que havia desaparecido, como também tinha ambições exageradas, quase masoquistas, para sua nova encarnação.
Há quatro setlists alternativos, cada um recheado com o material mais difícil de tocar do catálogo notoriamente complicado da banda — tocar o primeiro lado completo de 2112 (1976) era apenas o começo.
A presença de Gold pelo menos livrou Lee de tocar os pedais do baixo com os pés durante cada parte de teclado, mas ele ainda assume para si alguns dos riffs característicos de sintetizador.
Para Lifeson, essa luta foi real e visceral. “No último mês de ensaios”, diz ele, “houve momentos em que eu estava sentado na beirada da cama, às duas da manhã, pensando: ‘Será que tomei a decisão certa.
Será que consigo fazer isso? Será que consigo tocar? Será que sou bom o suficiente?’ Foi só no domingo, quando fizemos aquele show, que tudo meio que desceu por esse funil e transbordou.
Foi naquele momento que pensei: ‘É, tudo isso valeu a pena. É aqui que eu realmente estou feliz de estar’. Estou cansado esta semana. Mas estou realmente, sinceramente feliz.”.
Lee queria voltar aos palcos desde o momento em que a banda se despediu, em agosto de 2015, mas confirmar a turnê significou muitos meses de trabalho árduo. Sua filha, Kyla, disse que mal viu um sorriso de verdade no rosto dele durante um ano e meio.
No último mês e meio, acho que em determinado momento fizemos o show 24 vezes em 27 dias. Faz muito tempo que não estávamos em um palco, e colocamos tanto do nosso coração e da nossa alma em moldar o show e aperfeiçoar nossas partes.
E quando a cortina sobe, você simplesmente nunca sabe qual versão de si mesmo vai aparecer.”.
Deixando de lado o nervosismo da estreia, o primeiro show acabou sendo um triunfo, com o público abraçando Nilles imediatamente e até com gratidão. Na terceira e quarta noites, qualquer nervosismo restante já havia desaparecido.
Lifeson percorria o palco, tentando fazer a nova baterista rir. “Estamos muito mais soltos do que já fomos”, diz Lee. “Mais bobos.”.
Mais de uma vez, Lee não conseguiu evitar dar um salto no ar enquanto tocava, por exemplo, os riffs de “Red Barchetta” ou o clímax de “La Villa Strangiato”. Alguém chegou a sugerir que, para um septuagenário com muitos meses de shows pela frente ao redor do mundo, incluindo duas séries de apresentações de volta ao lar no Canadá, talvez deixar o chão não fosse a melhor ideia.
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Há apenas dois anos, Lifeson me disse que sua decisão estava tomada. “Não há chance de que vamos arrumar um baterista e voltar à estrada como o renascimento do Rush ou algo assim”, disse ele em maio de 2024.
Ele e Lee haviam acabado de voltar a tocar músicas do Rush em particular, mas Lifeson insistia que era apenas por diversão. Ele estava gravando com uma banda chamada Envy of None, mas, fora isso, parecia um homem em paz com a semiaposentadoria.
Em setembro de 2022, durante dois shows-tributo ao falecido baterista do Foo Fighters, Taylor Hawkins, Lee e Lifeson tocaram juntos pela primeira vez desde a morte de Peart, acompanhados por uma formação rotativa de bateristas.
Antes disso, eles haviam deixado claro que o Rush tinha acabado: “Terminou, certo? Acabou”, Lee me disse no fim de 2020. Depois de sentirem novamente suas músicas sob os dedos, já não tinham tanta certeza — e não atrapalhou o fato de Paul McCartney tê-los incentivado a voltar à estrada nos bastidores, depois do primeiro show, no estádio de Wembley.
Na sequência, Lifeson ficou brevemente empolgado com a ideia, mas depois pareceu mudar de opinião. Lee continuou insistindo e, ao longo do caminho, começou a achar cada vez mais intrigantes os comentários de Lifeson em entrevistas.
Lifeson dá de ombros. “É, eu meio que faço isso mesmo.” Eles estão sentados lado a lado no estúdio escuro no porão do Sunset Marquis, em West Hollywood, seu hotel de referência desde os anos 1970.
Lee tem um carinho ilimitado pelo melhor amigo, mas havia uma parte dos comentários públicos de Lifeson que ele considerava intolerável. “Eu sei como ele se sente e como se sente há muito tempo”, diz Lee.
E elas fazem parte de nós. Fazem parte da sua alma. Fazem parte do seu coração. E, quando começamos a tocá-las juntos novamente, isso meio que despertou algo nele.”.
Lifeson acha que estava tentando enviar mensagens por meio da imprensa que não tinha coragem de dizer pessoalmente a Lee. “Talvez eu estivesse tentando dar uma espécie de sinal”, diz ele.
Como Lifeson me contou em 2024, sua relutância era tanto física quanto emocional. Após duas cirurgias malsucedidas, ele sofreu de paralisia do estômago, a gastroparesia, que o deixava constantemente nauseado.
Também enfrentava um problema contínuo de artrite nas mãos, embora medicamentos mantivessem a condição em grande parte sob controle. Ele também percebeu que tinha pavor de pegar a estrada.
Ele começou a ceder em 2025, durante uma temporada na VivaMayr, uma renomada clínica de bem-estar às margens de um lago no interior da Áustria, onde a equipe cria programas personalizados de alimentação com baixas calorias, massageia seu estômago diariamente e ensina você a mastigar o pão 40 vezes.
Lee decidiu acompanhá-lo, “para dar apoio moral”, e acabou gostando da experiência, apesar da proibição de álcool e cafeína. Lifeson perdeu 13,6 quilos ao longo de duas visitas e aprendeu a lidar com seus problemas digestivos.
Enquanto estavam lá, a dupla montou um estúdio no quarto de Lifeson, com equipamentos enviados de casa e instrumentos conseguidos em uma loja de música local. Todos os dias, depois dos tratamentos, começavam a fazer música.
Lee havia acabado de terminar seu terceiro livro, e a inquietação começou a tomar conta. “Não gosto de ficar sem um projeto. Não fico feliz se não tenho algo que me envolva”, diz ele.
Algumas das letras que estava escrevendo pareciam pessoais demais para o Rush — sem contar que não cantava suas próprias letras com a banda desde o primeiro álbum, antes da entrada de Peart.
Lifeson teve de admitir. “Quando nos sentamos, não era para fazer parte de uma banda cover do Rush”, diz ele. “Era para ser o Rush. Em uma de suas melhores formas.
E isso era uma coisa completamente diferente.”.
Lifeson ainda tinha uma mudança de vida pela frente. Ele fumou maconha pela primeira vez aos 13 anos e, embora tenha passado por períodos de abstinência, ela foi uma companhia relativamente constante nos últimos 20 anos.
Quando ficava chapado à noite e pegava a guitarra, como era seu ritual, ele “não estava tocando tão bem. E comecei a ter esses sentimentos negativos sobre minha confiança e sobre o que estava por vir.
Estávamos na metade do processo. Era tarde demais para abandonar esse navio que avançava em disparada pelo mar. E pensei: isso está interferindo na maneira como meu cérebro deveria funcionar e no tipo de foco e disciplina que, de repente, eu realmente queria ter na minha vida”.
Ele iniciou uma verdadeira operação de eliminação do THC. “Levantei, fui ao banheiro, peguei todos os meus potinhos de maconha e os cachimbos e joguei tudo em um saco de lixo”, conta.
Talvez eu fique com eles’. E pensei: ‘Al, essa não é a ideia’. Então joguei aquilo também. Fui a todos os lugares onde tinha pequenos esconderijos. Era um saco de lixo cheio de cachimbos, bongs e maconha, maconha, maconha, maconha.
Todos os meus amigos disseram: ‘Por que você jogou tudo fora? Devia ter me ligado. Eu teria ficado feliz em pegar’.”.
Inicialmente, ele planejava ficar sem fumar por uma semana, depois por um mês. “O THC permanece no seu organismo por, normalmente, 30 dias”, diz ele. “Cheguei a um mês e pensei: ‘Meu Deus, talvez eu simplesmente tente ficar dois anos sem, durante toda a turnê’.” Ele não se arrepende.
É tudo aquilo que dizem sobre a cannabis. Eu nunca acreditei.” Ele também praticamente parou de beber. “Foi realmente uma experiência positiva. Eu não esperava por isso e torcia para que não fosse.”.
A atenção de Lifeson aos detalhes pode facilmente rivalizar com a de seu companheiro de banda. Para esta turnê, decidiu abandonar os amplificadores físicos de guitarra em favor de uma emulação digital, com sons configurados para reproduzir com precisão os amplificadores e efeitos usados em estúdio em cada música.
Lifeson ajustava esses sons durante todos os ensaios, e Lee nem sempre gostava dos atrasos de 30 minutos que isso podia provocar. Mesmo com a turnê já em pleno andamento, ele continua ajustando essas predefinições.
Lee ri. “Ele é um guitarrista do caralho. Existe uma velha piada de estúdio sobre um guitarrista tentando encontrar um som. O produtor diz: ‘É isso. Está perfeito!’ E o guitarrista responde: ‘Tá bom, vou mudar’.”.
No outono de 2022, o técnico de baixo de longa data de Lee, John “Scully” McIntosh, saiu em turnê com Jeff Beck. Beck havia recrutado uma nova baterista com um número expressivo de seguidores na internet, uma tal de Anika Nilles, e Scully imediatamente prestou atenção.
Ele entrou em contato com Lee, que acabara de se apresentar nos shows-tributo a Hawkins, sugerindo-a como uma possível colaboradora.
Lee, devidamente, foi procurá-la no YouTube. Nos vídeos da turnê de Beck, Nilles, de óculos escuros, toca com um groove à la John Bonham, passando tranquilamente pelo material mais complexo de Beck e pelos chimbais ligeiros de “Stratus”, de Billy Cobham, disparando uma sucessão de viradas monstruosas.
Em vídeos de músicas solo como “Alter Ego”, sua técnica é mais explicitamente elaborada, com partes em constante transformação e um notável senso de melodia percussiva, enquanto brinca com polirritmos e compassos incomuns.
Há até um vídeo didático em que ela mostra aos bateristas como pensar em quiálteras de cinco.
Lee, que entende um pouco de grandeza na bateria e de compassos estranhos, ficou impressionado. “Eu fiquei tipo: ‘Meu Deus, ela é muito boa’”, elogia Lee. “Ela é muito interessante.
Tem muito carisma, carisma pessoal, e presença.” Ele guardou o nome na memória, mas, durante três anos, diz, “simplesmente guardei isso para mim”.
Quando Lifeson estava totalmente a bordo, o guitarrista sugeriu “alguns outros caras que talvez estivesse pensando que poderiam funcionar para o show”, lembra Lee.
Mas pediu a Lifeson que fosse conhecer Nilles, e o guitarrista voltou convertido. “Entendo o que você gosta nela”, analisou Lifeson. “Ela é muito boa.” Scully fez o contato, uma apresentação por Zoom correu bem e Lee fez o convite: “Você gostaria de vir a Toronto para simplesmente tocar juntos e mandar ver?”.
Apesar de todo o domínio técnico de Nilles, Lee e Lifeson não estavam completamente convencidos até o quinto dia daquela audição informal. Ela era tão conhecida em seu meio que já havia estampado a capa da Modern Drummer em 2017, mas a turnê com Beck era seu único trabalho de grande visibilidade no mainstream.
Beck nunca dizia a Nilles o que tocar ou como tocar, o que a deixou com ideias preconcebidas pouco adequadas ao Rush. “Eu não tinha certeza se deveria preparar cada pequeno detalhe”, diz ela, “ou se deveria dominar as partes principais, mas deixar alguma liberdade aqui e ali.”.
Naqueles primeiros dias, a sensação de “Tom Sawyer” inicialmente lhe escapava, embora não as viradas, e, em “Subdivisions”, ela continuava acrescentando complexidade às partes que Peart já havia elaborado minuciosamente.
Chegar lá significou desmontar rapidamente algumas das habilidades que ela havia conquistado com muito esforço. Seu método elegante de tocar “aquelas semicolcheias sorrateiras” no chimbal, uma das marcas de “Tom Sawyer”, simplesmente soava errado.
Para alcançar o som assustadoramente robótico de Peart, ela precisou bater com mais força, usando o mesmo impacto em cada nota, empregando o antebraço em vez do pulso.
Em entrevistas antigas, ela falava sobre usar a técnica para compensar o que acreditava ser uma maior força física dos bateristas homens. Para o Rush, decidiu simplesmente ficar mais forte — e isso pode ser ouvido em cada batida na caixa.
Seu kit de bateria também continuou crescendo, e ela se apaixonou pelo som brutal dos primeiros discos do Rush. “Gosto de ser baterista de rock!”, disse ela à banda logo no início.
O processo exigiu um nível quase assustador de imersão. “Agora, tenho um pouquinho de Neil dentro de mim”, diz ela. “O que aprendi para mim mesma, acima de tudo, foi a parte composicional.
Ele era brilhante nisso, de verdade. Ele constrói, constrói e constrói constantemente a parte de bateria até chegar a um ponto em que você pensa: ‘Que diabos está acontecendo?’”.
Para Nilles, é simples. “Não tenho ego, então toco o que é necessário”, pontua. Ainda assim, ela não busca uma replicação minuciosa, à maneira de um clone, das partes de Peart, e continua inserindo algumas reviravoltas extras.
Enquanto tentavam ajudar Nilles a se adaptar, Lee e Lifeson ganharam uma nova percepção de como sua abordagem musical podia ser peculiar e fechada em si mesma. “Às vezes, Anika escrevia para mim e perguntava: ‘Em que compasso está essa parte?’ E eu respondia: ‘Porra, não sei’”, confessa Lee.
Conhecíamos tão intimamente as nuances das partes uns dos outros que tínhamos deixas na maneira de tocar. Mas ela ainda não tinha familiaridade suficiente. Não poderia ter tocado seguindo essas deixas ainda.
Nilles cresceu cercada de bateristas e começou a tocar aos seis anos. Seus pais reconheceram seu talento, mas temiam a instabilidade da vida de músico. Por isso, ela passou cinco anos estudando serviço social e conseguiu um emprego trabalhando com crianças em uma pré-escola.
Continuou tocando à noite e nos fins de semana, enquanto outra vida continuava a chamá-la. Aos 26 anos, recomeçou, matriculando-se na Popakademie Baden-Württemberg, em Mannheim, onde estava convencida de que havia ficado para trás em relação aos colegas mais jovens.
Vídeos dela tocando acabaram viralizando, e seu sucesso no YouTube finalmente levou Beck até ela. “Nunca pensei que algo grande assim realmente fosse acontecer”, diz ela.
Após a morte de Peart, mais de um baterista se ofereceu ativamente ao Rush, algo que Lee considerou ofensivo. Nilles nunca desejou o trabalho, nem sequer imaginou que poderia consegui-lo; antes da audição, ela nem conhecia tão bem a música da banda.
Para os fãs, todos esses parecem ser pontos a favor dela. É difícil imaginar os exigentes fanáticos do Rush comemorando com tanta euforia um músico de estúdio ou um baterista superstar emprestado de outra banda.
Antes do primeiro show, ela recebeu uma mensagem da viúva de Peart, Carrie Nuttall. “Recebi uma mensagem muito bonita dela, realmente muito carinhosa”, diz Nilles.
Com os primeiros shows já para trás, Nilles finalmente está se permitindo sentir o impacto de tudo isso. “Estou me sentindo realmente energizada”, diz ela. “E aliviada.” Mas isso já era evidente no sorriso largo que ela abria depois de acertar as viradas de bateria de “Tom Sawyer”.
Instada a lembrar o que passava por sua cabeça naqueles momentos, ela cai na gargalhada: “Consegui!”.
Antes de reconstruir a banda, Lee precisou fazer o mesmo consigo. “Não toquei baixo regularmente em nível profissional por dez anos”, confessa. “Achava que estava em forma, porque ia ao estúdio, pegava um dos meus zilhões de baixos e pensava: ‘Ah, estou mandando muito bem no baixo!’.
Você acha que está em forma. Não está. Isso não é estar em forma para tocar. Não é estar em forma para fazer turnê. Só quando você ganha calos sobre calos sobre calos e seus dedos ficam latejando à noite é que está entrando em forma.
Então eu já havia tomado a decisão, antes mesmo de Al concordar em fazer qualquer turnê, de colocar meus dedos novamente em forma.”.
Sua outra tarefa era mais assustadora e pessoal. Como a voz de Geddy Lee havia chegado a um tom tão agudo? Ele não fazia ideia, mas finalmente teria de descobrir.
Nos anos 1970, Lee cantava em um grito que derretia alto-falantes, que soltava sem orientação vocal ou técnica consciente, de alguma forma fazendo tudo certo (ou errado, se você acreditasse em certos críticos mal-humorados) por puro instinto.
A partir dos anos 1980, reduziu as notas mais agudas, embora ainda chegasse a um território capaz de estilhaçar vidros no verso final de “Freewill”. Com o passar dos anos, percebeu que seu antigo uivo de banshee estava cada vez mais difícil de alcançar, particularmente neste século.
Ele encarou isso como uma parte natural do envelhecimento e simplesmente fazia o melhor que podia, ocasionalmente baixando os tons para se ajudar.
Desta vez, depois de mais de cinco décadas cantando profissionalmente, Lee decidiu fazer suas primeiras aulas. Começou reuniões por Zoom com o experiente preparador vocal Mitch Seekins, que trabalha remotamente a partir da pequena cidade de Ilderton, em Ontário.
Fã de longa data do Rush, Seekins percebeu imediatamente que Lee estava muito longe de estar preparado. “Foi chocante”, diz Seekins. “Quer dizer, ele estava completamente fora de forma.
Os músculos já não respondiam na região mais aguda.”.
Mas o treinador ainda tinha uma ótima notícia para seu cliente: “Eu conseguia ouvir que aquilo ainda estava lá, ele simplesmente não conseguia fazer. Ele não tinha certeza se algum dia seria capaz de fazer o que fazia quando era muito mais jovem.
Mas não havia degradação alguma, nem mesmo por causa da idade.” As notas agudas inevitavelmente teriam menos da potência inconsequente dos velhos tempos, mas estavam todas ao alcance.
O verdadeiro desafio era convencer Lee de que ele conseguia. “A parte mais difícil da recuperação é o aspecto psicológico”, diz Seekins, cujas técnicas podem parecer saídas de um ensinamento de Yoda.
Lee, que já se exercita quatro vezes por semana, começou a entender. “Não é diferente de ir à academia e ficar forte”, compara. “Você precisa fortalecer esse músculo, e foi nisso que trabalhei — além de observar de maneira mais forense como uma voz produz um som e aplicar isso.” Ainda assim, acrescenta: “Eu estava nervoso para tentar algumas daquelas músicas”.
Rapidamente ficou evidente que ele estava conseguindo. “Nós simplesmente olhávamos um para o outro, tipo: ‘Caramba’”, diz o colaborador de longa data do Rush, Dale Heslip, que dirigiu o filme de abertura da turnê e projetou o palco.
À medida que Lee ganhou confiança, novas possibilidades se abriram, incluindo a volta ao show da faixa-título de A Farewell to Kings, de 1977, que não era tocada havia muito tempo.
Ela continua sendo a música mais difícil da turnê tanto para Lee quanto para Lifeson. A ambição juvenil deixou para eles compassos que mudam de maneira imprevisível, uma introdução intimidadora de violão de cordas de nylon, algumas mudanças musicais estranhas durante a seção do solo de guitarra e uma longa lista de outras complexidades.
Quando você está nessa idade, as pessoas esperam que você seja uma versão inferior de si mesmo, e isso simplesmente não é aceitável para mim.”.
Eles tinham a opção de baixar os tons, como fazem com 2112 e “Anthem”, sob o argumento de que ambas soam mais pesadas dessa maneira. “É em parte uma desculpa e em parte a verdade”, diz Lee.
Mas eles analisaram “Freewill” de perto e decidiram mantê-la como está. “Não há como eu fazer essa música se não conseguir alcançar o terceiro verso”, diz Lee. “Que é realmente o verso mais agudo que canto durante toda a noite.”.
De alguma forma, noite após noite, ele consegue chegar lá. “Os gatos estão miando,” diz Lee.
Ainda há momentos no palco em que Lee olha para trás e se surpreende ao ver uma mulher loira e sorridente na bateria. “Continuo esperando ver o rosto intenso de Neil ali atrás”, diz ele.
Na verdade, Peart ainda está muito presente no show. Os momentos mais intensos de cada noite são “Time Stand Still” e “Bravado”, ambas apresentadas como tributos explícitos, com seu rosto nas telas de vídeo e sua voz ouvida antes das músicas, refletindo sobre sua abordagem intransigente à vida e à arte.
Mesmo sem as homenagens explícitas, a presença de Peart seria inevitável. Como ele me enfatizou em 2015, a longa trajetória do Rush devia tudo ao profundo nível de colaboração do trio, com cada integrante sendo essencial para o triângulo que formavam.
The Police. Talking Heads. Quando alguém é a banda em todos os aspectos quantificáveis, isso realmente não consegue perdurar.”.
Se Rush tivesse saído em turnê mais próximo da morte de Peart, poderia ter sido mais complicado incluir alguns dos momentos mais leves incorporados ao show, do filme de abertura cômico à tradição de Cartman, de South Park, contar “Tom Sawyer” antes de “Lil’ Rush”.
Quando você decide sair em turnê, decide que vai se divertir novamente.”.
Nuttall e Olivia, filha de Peart, estiveram nos dois primeiros shows em Los Angeles. “É muito difícil para elas”, diz Lee. “Elas ainda estão sofrendo muito. Para elas, sentar em um show em que estamos fazendo tudo isso novamente é difícil.
Até o pôster da turnê, criado por Hugh Syme, que há muito tempo desenha as capas dos álbuns do Rush, faz referência à situação. Ele mostra dois pequenos pássaros em um fio e um terceiro voando para longe.
Por coincidência, diz Lee, “tive recentemente um incidente com um pássaro”.
Na manhã seguinte ao primeiro show, Lee entrou na sala de estar da casa onde estava hospedado e encontrou um pássaro no chão, olhando para ele. Ele jura que era exatamente igual ao pássaro do pôster.
O animal deu voltas ao redor de sua cama, pousou, virou-se para olhá-lo novamente e saiu pela janela. “Foi superestranho”, recorda Lee, que não conseguiu deixar de pensar naquilo como uma visita de Peart.
Olhou para ele mais uma vez antes de voar para longe de vez.
Dada a quantidade de material escrito por Peart, parece seguro presumir que pode haver letras inéditas suficientes em algum lugar para servir de base a novas músicas do Rush.
Mas Lee é cauteloso, e talvez um pouco desconfortável, quando menciono essa possibilidade. “Não pensei nisso nem um pouco”, confessa. “É uma boa pergunta.” Sobre músicas novas em geral, “sempre existe uma faísca”, antecipa Lee.
Não consigo dar uma resposta melhor do que essa.”.
Há um volume enorme de lágrimas nas arquibancadas durante a turnê Fifty Something. Mesmo enquanto lamentam Peart, os fãs também se emocionam com a improvável e temporária reversão da entropia promovida por sua banda.
O século XX e seus músicos continuam desaparecendo — mas o Rush voltou. “É uma turnê milagrosa”, diz Weinrib.
Lee concorda com a cabeça. “As pessoas estão reagindo a essa turnê porque precisam de algo que esteja acontecendo aqui”, diz. “E talvez não haja o suficiente disso no mundo neste momento.” Ou talvez seja mais simples do que isso.
+++LEIA MAIS: A 1ª música do Rush tocada por Geddy Lee e Alex Lifeson em jams de reunião.
Fontes
Informação baseada em material público de Rolling Stone Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.