Conheça a técnica que busca aproximar atores de seus personagens por meio de uma preparação intensa.
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva).
A atuação do método é uma técnica associada a performances intensas e a atores dispostos a transformar radicalmente seus processos de preparação, a abordagem procura fazer com que o intérprete não apenas represente um personagem, mas encontre maneiras de compreender profundamente suas motivações, emoções e comportamentos.
Um dos exemplos mais recentes da discussão sobre o método é Jeremy Strong, especialmente por sua preparação para interpretar Mark Zuckerberg em O Outro Lado das Redes, sequência de A Rede Social.
Para viver Zuckerberg, Strong estudou entrevistas, depoimentos e aparições públicas do empresário, além de assistir repetidamente às suas audiências no Congresso.
Também criou uma conta no Facebook para acompanhar as publicações antigas de Zuckerberg e compreender sua evolução ao longo dos anos.
Durante as filmagens, o ator chegou a permanecer falando como Zuckerberg, mantendo a voz e a postura do personagem mesmo fora das cenas. Strong também escreveu para o próprio empresário para dizer que trataria a representação com responsabilidade e preocupação com a veracidade dos acontecimentos.
O chamado Method Acting surgiu a partir de uma interpretação americana do sistema de Stanislavski. O diretor russo defendia que o ator deveria buscar uma relação mais verdadeira com aquilo que estava acontecendo em cena, trabalhando aspectos como objetivos, circunstâncias, emoções e experiências do personagem.
Nos Estados Unidos, essas ideias foram desenvolvidas por professores como Lee Strasberg, Stella Adler e Sanford Meisner, que seguiram caminhos diferentes. Strasberg ficou especialmente associado ao desenvolvimento do método no Actors Studio, em Nova York, incentivando atores a utilizar memórias e experiências pessoais como ferramentas para acessar emoções necessárias à atuação.
Na prática, isso pode envolver pesquisas extensas sobre o personagem, observação de pessoas reais, mudanças na aparência, preparação física, aprendizado de novas habilidades e exercícios emocionais.
O objetivo é criar uma conexão que permita ao ator reagir de maneira mais espontânea e convincente às situações apresentadas pelo roteiro.
É importante, porém, não confundir o método com uma única técnica rígida. O termo é usado atualmente para descrever uma série de abordagens diferentes, e muitos atores considerados “method actors” utilizam apenas determinados elementos desse processo.
Um dos nomes mais associados à popularização do método é Marlon Brando. O ator estudou com Stella Adler e ajudou a transformar a atuação cinematográfica americana a partir dos anos 1950.
Seus trabalhos em Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões são frequentemente apontados como exemplos de uma atuação mais naturalista e emocionalmente complexa.
James Dean também se tornou um dos grandes símbolos dessa transformação. Em filmes como Juventude Transviada, o ator ajudou a consolidar uma forma de interpretação marcada por conflitos internos, espontaneidade e vulnerabilidade, características que se distanciavam da teatralidade predominante em parte do cinema clássico de Hollywood.
Outro nome fundamental é Robert De Niro. Para Touro Indomável, o ator ganhou cerca de 27 quilos para interpretar o boxeador Jake LaMotta em diferentes momentos de sua vida.
Em Taxi Driver, De Niro também mergulhou profundamente na preparação para Travis Bickle, incluindo o trabalho de construção de sua personalidade e comportamento.
Daniel Day-Lewis talvez seja o exemplo contemporâneo mais famoso quando se fala em dedicação extrema. Para Meu Pé Esquerdo, aprendeu a permanecer fisicamente limitado como o personagem Christy Brown, que tinha paralisia cerebral.
Em Sangue Negro, estudou técnicas e referências relacionadas à exploração petrolífera e criou uma presença física radical para Daniel Plainview.
Christian Bale também ficou conhecido por transformações físicas impressionantes. Para O Operário, perdeu uma quantidade significativa de peso para representar Trevor Reznik, enquanto posteriormente ganhou massa muscular para interpretar Batman em Batman Begins.
Embora mudanças físicas não sejam sinônimo de atuação do método, elas podem fazer parte de um processo de imersão.
Atuação do método significa ficar no personagem o tempo todo.
Não necessariamente. Essa talvez seja uma das maiores confusões envolvendo o termo. Permanecer caracterizado, falar como o personagem fora das filmagens ou manter determinados comportamentos durante toda a produção é uma possibilidade dentro de alguns processos de preparação, mas não é uma exigência da atuação do método.
Muitos atores considerados representantes da técnica não trabalham dessa maneira.
O método pode ser muito mais simples: entender profundamente a psicologia do personagem, buscar experiências emocionais semelhantes às dele, pesquisar seu contexto histórico ou social e utilizar essas informações para construir uma atuação convincente.
Por isso, uma interpretação naturalista não é automaticamente “atuação do método”, assim como uma transformação física extrema também não significa necessariamente que o ator esteja seguindo a técnica.
Recentemente, a atriz Kristen Stewart (Crepúsculo) agitou o debate sobre o “método”. Em entrevista ao New York Times, a diretora de A Cronologia da Água afirmou que muitos homens adotam o método como maneira de “proteger a masculinidade” dentro de um ofício que, segundo ela, exige submissão e exposição emocional.
A fala surgiu em uma conversa mais ampla sobre Marlon Brando e seu famoso descaso durante a gravação de Superman (1978), quando pronunciou “Kripton” de forma deliberadamente errada.
Stewart comentou que, ao contrário do que aconteceria com uma atriz, o comportamento de Brando foi romantizado e até visto como prova de integridade artística. “Brando soa como um herói, não é.
Se uma mulher fizesse aquilo, seria diferente.”.
Stewart lembrou ainda uma conversa com um colega que reforçou sua percepção sobre a desigualdade de tratamento entre homens e mulheres no set. “Perguntei a um ator: ‘Você já conheceu uma atriz que fosse do método e precisasse gritar e fazer todo aquele ritual?’ Assim que mencionei ‘ator homem, atriz mulher’, ele reagiu como quem diz ‘não toque no elefante na sala’.
E respondeu: ‘Ah, atrizes são loucas’.”.
Para Stewart, a resposta sintetiza um padrão persistente em Hollywood: “Quando homens fazem isso, viram lendas. Quando mulheres fazem, viram um problema.”.
Fontes
Informação baseada em material público de Rolling Stone Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.