O show acontece dois anos após o músico se tornar o primeiro sanfoneiro a realizar um show completo no festival. Vencedor do Grammy Latino de 2025 com Dominguinho, projeto ao lado de João Gomes e Jota.pê, o músico sergipano conversou com o TMDQA.
sobre a convivência com Gilberto Gil, os encontros com Stevie Wonder e Quincy Jones e os planos de levar sua música para além do Brasil.
A extraordinariedade da música é fazer com que a imaginação e a realidade não guardem distância alguma entre si. No sentido cristão, essa suspensão da gravidade cotidiana ganha o nome de milagre.
No Candomblé, poderíamos dizer Àlàáfíà: o “sim” absoluto do jogo de búzios, a resposta de paz sem margem para dúvida.
Mestrinho, sanfoneiro nascido no sertão de Itabaiana, Sergipe, viveu esses encontros improváveis na pele. Criado entre os oito baixos do avô Manezinho do Carira e a sanfona do pai Erivaldo, ele começou a manejar o fole aos 6 anos e já fazia shows pela região aos 12.
Hoje, o artista acumula prêmios, turnês globais e histórias de bastidores que parecem ficção.
O que eu já vivi já me mostrou que eu posso.”.
Em 2024, Mestrinho fez história ao se tornar o primeiro sanfoneiro a comandar um show solo na trajetória do Rock in Rio. Em 2026, ele retorna ao palco Global Village, dividindo a programação com nomes como Hamilton de Holanda, com quem tem um álbum lançado, e a violonista e cantora Badi Assad.
Mestrinho não pensa a sanfona apenas a partir do forró. Ao tocar outros gêneros, diz buscar referências na maneira como baixistas, saxofonistas e outros músicos constroem seus caminhos dentro de uma canção.
Essa abertura aparece tanto no R&B de Grito de Amor (2019) quanto na relação com o pop e o jazz, entre referências como Chick Corea, Herbie Hancock e John Coltrane.
O instrumento já o levou até as passarelas do São Paulo Fashion Week, onde tocou uma versão de “Under Pressure”, de Queen e David Bowie.
Durante o isolamento da pandemia, Mestrinho levou essa liberdade ao extremo: concebeu, gravou e mixou sozinho, no próprio quarto, o álbum Solitude (2021), construído apenas com voz e sanfona.
Anos depois, ao lado de João Gomes e Jota.pê, ampliou ainda mais esse alcance com o projeto Dominguinho, que reuniu 50 mil pessoas no Allianz Parque e conquistou o Grammy Latino.
Eu sou um sanfoneiro do Nordeste, das quebradas do sertão, e, acima de tudo, sou um visionário da música. Eu não enxergo a música através do meu instrumento. Enxergo a música através de todos os instrumentos, de uma forma geral.
Então, quando vou tocar acordeão em uma música que não é forró, não vou tocar como um acordeonista, vou tocar como um músico, com a visão de como um baixista tocaria, de como um saxofonista tocaria.”.
Histórias inacreditáveis e totalmente reais com Gilberto Gil, Quincy Jones e Stevie Wonder.
A trajetória de Mestrinho passou por uma virada decisiva ao cruzar o caminho de Gilberto Gil. A parceria começou no estúdio, com a participação de Gil na faixa “Superar”, do álbum Opinião (2014).
Dali em diante, a convivência se estendeu para a estrada: integrou a turnê Refavela 40 em 2018 e voltou a viajar o mundo na turnê de despedida do baiano em 2025.
Estar ao lado de Gil proporcionou momentos incríveis. Em um dos aniversários do compositor baiano, Mestrinho presenciou o telefone tocar e viu Stevie Wonder do outro lado da tela, em uma chamada de vídeo para dar parabéns ao amigo.
Outro episódio marcante aconteceu durante uma passagem por Los Angeles. Após um show com Gil, a equipe descobriu que Quincy Jones — o lendário produtor por trás de Thriller — estava na plateia.
Após o show, o encontro rendeu um convite para jantar na casa do produtor americano. Naquela noite, Mestrinho teve seus discos autografados pelo maestro e terminou a reunião segurando, com as próprias mãos, uma das estatuetas do Oscar de Quincy.
Eu vi o Gil em chamada de vídeo com o Stevie Wonder. Segurei o Oscar do Quincy Jones, jantei na casa dele… Quando eu vejo essas coisas, entendo que não é impossível.
É o combustível para eu saber que também posso chegar lá”.
Apesar dos olhos voltados para o futuro, a ancestralidade permanece como pilar inegociável na obra de Mestrinho. Dominguinhos foi e continua sendo seu grande mestre, parceiro de palco e presença ilustre em seu segundo disco solo com a faixa “O inverno é você”, gravada antes de o pernambucano nos deixar.
Mestrinho enxerga seu próprio futuro como uma linha de continuidade direta desse trabalho colossal. Ocorre que Dominguinhos nutria um pavor célebre de voar de avião — uma restrição puramente física e geográfica que o impediu de espalhar presencialmente sua música pelos palcos de outros continentes.
É exatamente essa fronteira territorial que o sergipano quer atravessar agora, inspirando-se também nos caminhos abertos por Sivuca e Tom Jobim.
Tudo o que o mestre Dominguinhos começou, eu quero continuar. Ele contribuiu muito para a música nordestina e brasileira, mas tinha algumas questões: ele não andava de avião e não podia ir para fora do país mostrar presencialmente toda a sua genialidade.
E eu quero muito fazer isso. Pretendo morar fora, gravar discos e fazer colaborações mundiais para dar uma visibilidade ainda maior para a nossa música”.
Para entrar no clima do show de Mestrinho no Rock in Rio, ouça.
Liz Sacramento é jornalista há mais de 10 anos e cantora. No TMDQA!, entrevista artistas e cobre shows, festivais e lançamentos, com foco em R&B, MPB, pop e música preta brasileira.
Em números
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