Após anos de perdas, crises e mudanças, banda de Dave Grohl faz show seguro, catártico e sustentado por hits no Palco Mundo.
O Foo Fighters, que nasceu do luto da morte de Kurt Cobain em 1994, sofreu em seus anos iniciais, mas gozou de certo conforto por um bom tempo. Merecido, é claro.
Dave Grohl e companhia trabalharam bastante para se consolidarem como uma das maiores bandas de rock dos últimos 30 anos. Praticamente toda a década passada se baseou na colheita desses louros.
Sucesso não apenas de vendas, como também de imagem midiática, já que o vocalista e guitarrista adquiriu o rótulo de “maior gente boa do rock”.
Daí veio a pandemia. A pausa atrapalhou os planos de divulgação do álbum Medicine at Midnight. A banda retomou as atividades na estrada e… morreu Taylor Hawkins, baterista e um dos principais responsáveis pela assinatura sonora do grupo.
Quatro meses depois, faleceu Virginia Grohl, mãe de Dave. O frontman se recompôs junto dos colegas, lançando But Here We Are, seu melhor álbum desde Wasting Light.
O experiente Josh Freese foi trazido para a vaga de Hawkins. Nova turnê mundial. Um ano após o novo disco sair, um escândalo pessoal: Grohl revela ter tido uma filha fora de seu casamento.
Novo hiato, acompanhado da demissão quase misteriosa de Freese.
Talvez por sentir que precisaria colocar sua raiva para fora, Dave fez de Your Favorite Toy um álbum mais furioso, meio hardcore. Ilan Rubin passou a ocupar a vaga de Josh e a ser descrito pelo patrão como “o melhor baterista da atualidade”.
Caminho não muito confortável até aqui. Mas nada disso se transpareceu no palco Mundo na última sexta, 4, quando o Foo Fighters fechou uma noite antecedida por Rise Against, The Hives e Nova Twins — grupos que, qualidades a parte, não conseguiram atrair público nem mesmo similar ao headliner.
Em comparação ao The Town 2023, última passagem do Foo Fighters pelo Brasil, pouco mudou além da presença de Ilan. Exceção feita à parte final, a execução está mais direta, sem tantas interações e enrolações típicas de Grohl.
Um dos curiosos destaques do atual set é “Marigold”, lançada pelo Nirvana. Originalmente, a música saiu em Pocketwatch, álbum que Grohl lançou sob o pseudônimo Late!, e, depois, acabou regravada pela banda de Cobain, em 1993, como lado B do single “Heart-Shaped Box”.
Também chama atenção as entradas das antigas “Stacked Actors”, que vai da bossa nova ao riff dropado, e “Exhausted”, entregue à plateia brasileira pela primeira vez entre tantas outras visitas.
Aliás, é um repertório que recupera mais material antigo, já que But Here We Are tem zero inserções e Your Favorite Toy, uma, com a razoável “Window”. E gira em torno dos muitos hits.
Da abertura catártica “All My Life” (já com rodas na plateia) ao encerramento melódico com “Everlong”, passando por.
Dave é um caso curioso de baterista que se transformou em frontman — e em um dos melhores dos últimos tempos. Sabe conduzir uma plateia como ninguém. E faz isso, na maior parte do tempo, com sorriso na cara.
Seu desgaste vocal, aparente já nos primeiros minutos, é compensado com os backing vocals — tendo Ilan Rubin na linha de frente ainda que sem o brilho de Taylor Hawkins — e, em especial, o apoio do público.
A parede de guitarras e baixo continua forte. Maleável, Rubin é mais fiel ao estilo de Hawkins (homenageado com a incrível “Aurora”), fechando parte (eu disse “parte”) de uma lacuna aberta desde 2023.
O conforto que marcou boa parcela da história recente do Foo Fighters já não existe fora dos palcos. Dentro deles, porém, a situação é diferente. Como visto no Rock in Rio, Grohl ainda comanda multidões com uma naturalidade reservada a poucos, os grandes refrães continuam funcionando e a banda encontrou em Rubin um caminho possível para seguir adiante — ainda que com parte de uma lacuna que jamais será preenchida.
Depois de tantos acontecimentos capazes de desmontar um grupo, talvez seja esse o principal mérito do Foo Fighters: quando as luzes se acendem e “All My Life” começa, o caos fica do lado de fora.
1 “Toda Minha Vida” 2 “O Pretendente” 3 “Tempos Como Estes” 4 “Corda” 5 “Atores Empilhados” 6 “Meu Herói” 7 “Aprender a Voar” 8 “Esses Dias” 9 “Caminhar” 10 “Rodas” (acústica) 11 “Marigold” (Nirvana; acústica) 12 “Chave de Macaco” 13 “Escapada” 14 “Janela” 15 “O Céu é um Bairro” 16 “Aurora” 17 “O Melhor de Você” 18 “Exausto” 19 “Sempre Longo”.
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