Com os olhos marejados, Javier Monteverde se ajoelhou diante da cruz que leva o nome de Ashley Pino, uma das mais de 6. 500 vítimas do terremoto duplo que devastou a Venezuela, sepultada no Cemitério da Esperança, em Carayaca, no Estado de La Guaira.
Em silêncio, ele amarrou um bichinho de pelúcia na lápide da mulher desconhecida.
Monteverde, por alguma razão, sente-se atraído por aquela sepultura. No cemitério onde repousam centenas de pessoas não identificadas, o simples fato de encontrar um nome já é significativo.
As lápides, porém, não trazem outras informações além da data da morte. “Me disseram que ela tinha 36 anos”, diz, sem ter certeza. Ele não tem qualquer pista sobre como eram seus traços físicos, sobre sua história, nem sobre o paradeiro de sua família.
Ele diz que chegou ao cemitério em 26 de junho, dois dias após o início da tragédia. Desde então, os mortos levados ao enterro se tornaram sua principal companhia, ao lado dos outros três colegas com quem divide uma barraca transformada em casa temporária, montada em frente às covas.
O operador de máquinas que virou coveiro da noite para o dia foi um dos responsáveis por abrir, na semana passada, o espaço onde agora repousam 40 crianças e adolescentes não identificadas, que, durante quase dois meses, permaneceram no necrotério improvisado no porto de La Guaira à espera de algum familiar que pudesse fazer o reconhecimento dos corpos.
Ao menos 800 pessoas foram enterradas no Cemitério da Esperança sem terem sido reconhecidas, afirmou um rapaz que se apresentou como um dos coordenadores do local.
Ele pediu para não ter o nome divulgado. O número equivale a mais de 10% do total de vítimas da tragédia. Segundo ele, não há valas comuns no cemitério, e cada pessoa é sepultada com o máximo de dignidade possível.
Em cada lápide, há um número associado aos dados do falecido registrados no Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamecf), órgão vinculado ao Ministério do Interior, Justiça e Paz.
Posteriormente, familiares que procuram pessoas desaparecidas podem fazer exames de DNA para verificar se há compatibilidade com alguma das vítimas sem identificação.
No cemitério, há lotes distintos para as pessoas reconhecidas e para aquelas que foram enterradas sem identificação. Nas sepulturas das vítimas sem nome, foram colocados pedaços de grama, algumas pedras e um pequeno arranjo de flores.
Entre as dezenas de cruzes marcadas apenas por números e códigos, raríssimas são as que receberam decorações que revelam sinais de uma história: um retrato e um nome.
Trata-se de casos em que os familiares conseguiram fazer o reconhecimento das vítimas após o sepultamento.
As 40 crianças, por outro lado, estão enterradas, por ora, em uma extensa área de terra recém-remexida. As sepulturas ainda não têm grama, flores ou qualquer identificação.
Segundo os funcionários, as lápides devem ser instaladas em breve. Por enquanto, cada sepultura é marcada apenas por uma fina haste metálica fincada no chão. Desde o final de semana, brinquedos infantis, levados por uma voluntária, foram colocados diante de cada uma delas.
Uma semana depois do sepultamento coletivo, os funcionários dizem que nenhum familiar foi ao local para reconhecer ou reclamar os corpos.
Passados mais de dois meses da tragédia, vítimas ainda chegam ao cemitério. Ao redor das crianças sem nome, há dezenas de outras covas abertas, à espera de novos corpos.
O governo venezuelano não divulga o número total de pessoas que ainda estão desaparecidas. Fora do cemitério, as operações para recuperação dos corpos acontecem sem data para serem encerradas.
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