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Trump tenta interferir na eleição brasileira e o preocupante é que muitas vezes isso funciona, diz

O governo de Donald Trump tenta influenciar a eleição presidencial brasileira, e a história recente da América Latina mostra que pressões externas desse tipo po

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O governo de Donald Trump está tentando interferir na eleição presidencial brasileira, e a história recente da América Latina mostra que esse tipo de pressão externa costuma dar certo.

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  34. BBC News, Vá para o conteúdo Seções Trump tenta interferir na eleição brasileira e o preocupante é que muitas vezes isso funciona, diz cientista político alemãoCrédito, Arquivo pessoalLegenda da foto, Birle acompanha o Brasil desde o início dos anos 2000Article Information.

O diagnóstico é de Peter Birle, um dos principais especialistas europeus em assuntos brasileiros, em entrevista à BBC News Brasil.

Diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no BTI, o índice de democracia da Fundação Bertelsmann, Birle compara o momento atual a um episódio de 1946, quando os Estados Unidos tentaram barrar a ascensão de Juan Perón na Argentina e acabaram ajudando a elegê-lo.

Com Trump, diz Birle, o resultado tem sido o oposto: na Argentina de hoje, a interferência funcionou; no Brasil, ainda é cedo para saber.

Birle, que acompanha o Brasil desde o início dos anos 2000, e fala português com desenvoltura, aqui e ali salpicado de espanhol, fruto de décadas dedicadas a toda a região, conversou com a BBC News Brasil de Berlim, poucos dias antes de embarcar para São Paulo.

Para o cientista político alemão, a ofensiva de Washington, tarifas, sanções e revogação de vistos, "não é uma política muito inteligente", porque tende a gerar mais resistência do que resultado.

Mas vê uma América Latina que virou "um campo muito à direita", um Brasil que não conseguiu retomar a liderança regional dos anos 2000, e uma eleição em que a democracia, ao contrário de 2022, deixou de ser o tema central, substituída pela economia e pela segurança pública.

Sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), faz um alerta: a experiência internacional mostra que "é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais.

BBC News Brasil – Como a Alemanha e a Europa estão encarando esta eleição presidencial brasileira.

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas.

Peter Birle – Infelizmente, muito pouco do que se passa no Brasil é levado em consideração. O público em geral não sabe quase nada. No mundo político, depende da posição ideológica de cada um.

A Fundação Friedrich Ebert, mais à esquerda, organizou vários eventos e, claro, ali se quer a reeleição de Lula. Já a Fundação Adenauer, mais à direita, mas não uma direita nos moldes do bolsonarismo, gostaria de uma política mais conservadora, sobretudo na economia e na segurança.

Mas conseguiria conviver muito bem com um novo governo Lula.

BBC News Brasil – Há um temor maior em relação a um governo de Flávio Bolsonaro.

Birle – Uns meses atrás, diria que sim. Agora, acho que eles se adaptariam. A situação é muito diferente da de quatro ou oito anos atrás, porque a forma de Flávio se apresentar é distinta da do pai.

Ele se apresenta como conservador, mas não tão extremo, e não tem o carisma do pai.

No mundo conservador alemão, acho que conviveriam bem com ele, se eleito. Da extrema-direita, da AfD, não sei se têm posição pública sobre o Brasil. Mas, se tomarem posição, estarão claramente a favor de Bolsonaro.

BBC News Brasil – As relações entre Brasília e Washington estão no pior momento em décadas: tarifas, sanções, vistos, ataques políticos. O que isso revela sobre a visão que o governo Trump tem do Brasil.

Birle – Acho que Trump está tentando influir na eleição, porque eles querem um governo Bolsonaro e fazem tudo para que isso aconteça. Talvez ainda não de forma tão aberta quanto na Argentina, mas é uma política muito agressiva contra o governo Lula.

E não sabemos o que ainda pode acontecer nos próximos meses.

BBC News Brasil – Há o receio de que essa interferência aumente.

Birle – Sim. Antes das eleições na Argentina, no ano passado [as legislativas de outubro de 2025, nas quais Trump condicionou abertamente uma ajuda financeira a uma vitória de Javier Milei], eles deixaram claro que, se os argentinos não votassem nos partidos próximos de Milei, não haveria ajuda.

Agora, a política em relação ao Brasil é muito agressiva. Felizmente, o governo brasileiro está tentando não aceitar tudo, mas também não pôr lenha na fogueira.

É muito difícil. Com um governo Bolsonaro, isso mudaria completamente: eles desejam outra relação com Washington.

BBC News Brasil – Esse tipo de interferência não se via de forma tão aberta desde os tempos do regime militar, do apoio aos golpes no Chile e no Brasil.

Birle – Sim, é muito preocupante. E mais ainda porque muitas vezes funciona. Conheço bem a história da Argentina. Na eleição de 1946, os Estados Unidos tentaram interferir por meio do embaixador americano, Spruille Braden, notório por sua atuação contra Perón.

O lema do peronismo virou "Braden ou Perón", em defesa da soberania nacional, e Perón ganhou. Agora, com Milei e Trump, essa interferência não encontrou resistência.

Os argentinos votaram como Trump queria.

BBC News Brasil – E no caso brasileiro, essa pressão pode ter efeito reverso.

Birle – Sim. Não é uma política inteligente da parte de Trump, porque cria mais resistência do que uma postura construtiva geraria. O Brasil não é só o governo Lula.

O país tem uma ideia do seu próprio lugar no mundo, do tratamento que merece. Mas muitas coisas que esse governo americano faz não são muito inteligentes.

BBC News Brasil – Vocês avaliam a democracia no índice BTI. Como o Brasil aparece hoje, depois do 8 de Janeiro e às vésperas de uma eleição tão polarizada.

Birle – Posso falar da última avaliação publicada, do início do terceiro ano do governo Lula. Comparando os dois primeiros anos de Lula com os dois últimos de Bolsonaro, a situação melhorou muito: uma democracia mais estável, sem um governo atacando as instituições, e com desenvolvimento positivo também na área socioeconômica.

Agora se vê o clima de campanha. Ainda há forte polarização, mas a situação não é a de 2022. Naquele ano, tratava-se da continuidade do bolsonarismo, com um risco grande para a democracia.

Lula se apresentou, digamos, não com a camiseta amarela, mas com a branca, para mostrar que não era o Lula da esquerda, e sim o que defendia a democracia.

Hoje, com Alckmin de novo como vice, as perguntas que dominam a campanha não são a democracia ou o risco de autoritarismo, mas a economia, a segurança pública, o crime organizado.

BBC News Brasil – Há uma percepção de que houve avanço democrático nos últimos quatro anos, e a economia tem tido um desempenho razoável, mas boa parte do eleitorado não reconhece isso.

Birle – Isso tem a ver com a figura de Lula e não é novo. Há muita gente que gosta dele, mas quase 45% dizem que nunca votariam nele. Nos últimos quatro anos, o desenvolvimento econômico foi positivo, ainda que com juros muito altos, a Selic em 14%, e com a vida de muita gente ainda difícil.

Ao mesmo tempo, houve queda da pobreza e da pobreza extrema.

Os números macroeconômicos não são ruins, mas a percepção da população, sobretudo neste ano, é outra. Por isso, a pergunta é como será o desempenho nas próximas semanas.

Lula tem certa vantagem sobre Flávio, mas não vai ganhar no primeiro turno. E há mais candidatos à direita do que à esquerda, o que pode ser um problema para ele.

BBC News Brasil – O resultado está em aberto.

Birle – As pesquisas indicam um provável segundo turno entre Lula e Flávio, com certa vantagem de Lula, mas sem garantia. Fica muito em aberto.

BBC News Brasil – Vários países da América do Sul foram para a direita: Chile, Argentina, Colômbia e Equador. Se houver uma interferência americana mais agressiva no Brasil, dado o seu peso no continente, a Europa pode reagir.

Birle – Acho que não. A Europa não vai intervir dessa maneira, porque, apesar de tudo, quer preservar uma boa relação com o governo americano. Mas a América Latina hoje é um campo muito à direita, e por isso é difícil para o governo Lula voltar a ter o papel que teve nos governos Lula 1 e 2.

Lula restabeleceu o Brasil como ator internacional de perfil sólido, mas não conseguiu o que queria: recriar o regionalismo latino-americano da primeira década do século 21.

Trump não se interessa por relações estáveis com a América Latina. Ele quer acordos, quer gente que concorde com ele em tudo, como Milei. É uma política muito transacional, um ambiente muito difícil para um governo como o de Lula.

BBC News Brasil – Muito se dizia que o Brasil era o país do futuro, mas que esse futuro nunca chegou. Você vê um caminho para o país superar, no médio e longo prazo, os problemas de renda, infraestrutura, investimento e educação.

Birle – Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se compararmos o Brasil de hoje com o de trinta anos atrás, há muitas conquistas. Continua sendo um país com muitos problemas, mas isso é normal, porque o Brasil é um continente.

Depende de para onde se olha: o Sul e o Sudeste, ou o Oeste e o Noroeste, são mundos distintos.

Um caminho seria mais cooperação latino-americana, não nos moldes da integração europeia, porque a história da região é outra, mas uma cooperação que hoje não existe.

Não se deve superestimar nem subestimar o país. O Brasil tem muitas conquistas, e as instituições democráticas sobreviveram ao governo Bolsonaro.

O que não sabemos é o que aconteceria num segundo governo da ultradireita. A experiência mostra, com a Hungria, e muitas vezes com o próprio Trump, que é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais.

BBC News Brasil – Isso seria um risco caso Flávio Bolsonaro vença e retome a agenda do pai.

Birle – É um risco. Flávio pode fazer muitas coisas das quais agora não fala, porque tenta aparecer como mais moderado. Com ele na Presidência, haveria uma anistia, e não só para ele.

Não sabemos o que pode acontecer depois.

BBC News Brasil – A atuação do Supremo Tribunal Federal tem causado polêmica. Houve um momento em que foi importante na defesa da democracia, mas há quem ache que agora extrapola.

Birle – É verdade que o Supremo foi muito importante para defender a democracia durante o governo Bolsonaro. Não tenho a impressão de que tenha passado das suas competências, mas entendo a discussão de que uma politização forte do tribunal também traz riscos.

Parte da crítica é pelo menos compreensível. Talvez fosse aconselhável uma postura menos política, mais moderação.

Luiz Inácio Lula da SilvaBrasilDonald TrumpAmérica LatinaEstados UnidosPular Assista e continuarAssista Fim de Assista.

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Fontes consultadas

  • BBC Brasillink

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