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Trump e Netanyahu transformam urnas em um jogo decisivo para a democracia

Sob Bibi, que integra coalizão com supremacistas judeus, Israel corre risco de corrosão de instituições

7 min de leitura
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Vinte e sete de outubro e 3 de novembro de 2026 estão se configurando como duas das datas mais importantes da história de duas das mais importantes democracias —Israel e Estados Unidos.

Esses países realizarão, nessas datas, eleições de consequências enormes, com apenas uma semana de intervalo.

Por que tão decisivas? Porque o que estará em jogo nas urnas nos dois lugares não será apenas o futuro político do presidente Donald Trump e do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.

Será o futuro da democracia em ambos os países.

Comecemos pela eleição de Israel, que ocorrerá primeiro. Netanyahu integra uma coalizão com supremacistas judeus que um ex-chefe do Mossad israelense certa vez descrito como pior do que a Ku Klux Klan.

Se forem reeleitos, é muito provável que concluam seu projeto de minar a procuradora-geral independente e a Suprema Corte do país. Em seguida virão a anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e a limpeza étnica dos palestinos nos dois territórios.

Há vários anos, Moshe Ya’alon, um ponderado ex-ministro da Defesa de centro-direita que serviu sob Netanyahu, vem manifestando preocupação com os rumos do governo israelense.

Como relataram meus colegas do The New York Times em Tel Aviv, Ya’alon elevou seus alertas a um novo e impressionante patamar, comparando, em declarações à imprensa local, a ideologia dos colonos extremistas israelenses na Cisjordânia à da Alemanha nazista.

O que é a supremacia judaica?", perguntou Ya’alon recentemente ao site de notícias israelense Ynet. "Oitenta anos depois do Holocausto, é o ‘Mein Kampf’ às avessas.

Esse é um estridente sinal de alarme. A sociedade israelense ainda está traumatizada demais pela guerra em Gaza para mergulhar diretamente em novas negociações de paz com os palestinos.

Mas não tenho dúvida de que, se a oposição a Netanyahu —agora liderada com maior destaque por Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, um homem muito digno e com muito em comum com Yitzhak Rabin— conseguir vencer em 27 de outubro, pelo menos o vergonhoso pogrom que Netanyahu viabilizou que colonos judeus cometessem na Cisjordânia será interrompido.

Dessa forma, Trump terá um parceiro israelense disposto a fazer um esforço de boa-fé para implementar seu plano de paz para Gaza.

O presidente seria um completo tolo se apoiasse Bibi, que fez tudo ao seu alcance para frustrar sua iniciativa para Gaza.

Para manter seus parceiros de coalizão, permanecer no poder e protelar seu julgamento por várias acusações de corrupção, Netanyahu tem se mostrado disposto a trair qualquer valor fundamental de Tel Aviv e a sabotar qualquer plano de paz de Washington.

Mais recentemente, empenhou-se para isentar milhares de jovens ultraortodoxos do serviço militar e destinou milhões de shekels às escolas deles, que não ensinam conteúdos necessários à vida moderna nem competências profissionais —tudo isso em um momento em que o Exército israelense enfrenta falta de soldados.

Embora eu me importe com as eleições em Israel, importo-me muito mais com as do meu próprio país. Trump é o presidente mais antiamericano que vi em toda a minha vida.

Nenhum presidente fez mais —e continua fazendo mais— para desmantelar as instituições e alianças do pós-Segunda Guerra Mundial, construídas e sustentadas por seus antecessores.

Estamos falando da Otan, da ONU, da OMS, da OMC, do FMI, do Banco Mundial, da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, do NAFTA, de nossas relações estreitas com Canadá e México e de nossas alianças militares com Coreia do Sul e Japão —para citar apenas algumas.

Juntas, essas relações e instituições produziram prosperidade mundial e americana e preservaram a paz entre as grandes potências por gerações.

Ainda assim, Trump e seus cúmplices as vêm desmantelando sistematicamente em nome do "EUA em primeiro lugar", mas o resultado é a Casa Branca isolada e, por fim, em declínio.

O que considero particularmente repugnante, porém, é a bajulação de Trump ao ditador russo Vladimir Putin, que não só vem tentando destruir a Ucrânia como Estado soberano, como também tem sabotado a Otan e a União Europeia, dois pilares vitais da segurança e da prosperidade ocidentais.

Recentemente, Putin vangloriou-se de ajudar o Irã em sua guerra contra os EUA no Golfo Pérsico, fornecendo ativamente a Teerã equipamentos "necessários" e bens essenciais.

Putin não para de cuspir na Casa Branca, e Trump continua dizendo aos americanos: "Ei, pessoal, é só chuva.

Trump nunca apresentou a guerra na Ucrânia com honestidade. Estamos testemunhando a tentativa de Putin de destruir uma democracia europeia vital. Por quê? O que explica o inabalável chamego de Trump com Putin.

A verdade sempre esteve à vista de todos: O presidente, ao contrário de todos os seus antecessores, não considera a democracia um valor fundamental. Ele prefere a companhia de gente como Putin e Kim Jong-Un.

Se o Partido Republicano prevalecer em novembro, seu esforço em várias frentes para enfraquecer as instituições democráticas americanas e o Estado de Direito quase certamente entrará em uma marcha inteiramente nova.

Neste momento, Trump é impopular e, portanto, está enfraquecido", disse Ian Bassin, diretor-executivo da Protect Democracy, organização sem fins lucrativos que luta pela integridade eleitoral.

Parte-se do pressuposto de que seu projeto fracassou politicamente —de que ele é notícia velha.

Mas, se os republicanos vencerem, "isso mudará a estrutura de incentivos para todos", disse Bassin, dos parlamentares republicanos a patotinha do Vale do Silício.

Todos se mostrarão ainda mais submissos, permitindo que o presidente aja com ainda menos limites. "Para mim, esse é o perigo mais grave.

Em outras palavras, com uma vitória nas eleições de meio de mandato, Trump se sentirá mais encorajado e fortalecido do que nunca —justamente quando está em claro declínio mental e físico.

Isso enqunato estamos em meio àquela que talvez seja a maior transformação tecnológica da história humana— o nascimento de agentes e robôs dotados de inteligência artificial capazes de se aperfeiçoar sozinhos.

Quando a mudança climática, que ele nega, está evidentemente tornando nosso clima mais quente e instável. Quando se tornar antagônico a todos os aliados de Washington no mundo, até mesmo o Canadá.

Quando está atolado em uma guerra que esgota nossos recursos militares e é comandada por um palhaço, Pete Hegseth, que talvez tenha demitido ou impedido a promoção de mais generais americanos do que matou generais iranianos.

e quando a China está dominando o mercado mundial de veículos elétricos enquanto o presidente tenta abocanhar o petróleo da Venezuela.

Há um ano, ouvi em caráter reservado um de nossos ex-presidentes observar que poderíamos sobreviver ao segundo mandato de Trump desde que nossas instituições permanecessem intactas.

Bem, infelizmente, elas não permaneceram.

Quem defenderia hoje que o Departamento de Justiça, transformado em arma jurídica pessoal do presidente, está intacto? Que o Departamento de Saúde e Serviços Humanos está intacto.

Ou que a Comissão Federal de Comunicações, agora dirigida por um incompetente que atua ao mesmo tempo como censor governamental e ministro da Propaganda, está intacta.

Recuperar essas instituições e devolver-lhes algum grau de independência, para que sejam administradas por verdadeiros especialistas, será mais difícil do que as pessoas imaginam.

O mesmo vale para Tel Aviv, onde Netanyahu nomeou seus colegas e capachos para postos em todos os níveis da burocracia israelense e até mesmo em instituições de segurança nacional.

Todos os americanos e israelenses precisam refletir sobre essas questões ao entrar na cabine de votação. Nenhum inimigo estrangeiro é poderoso o bastante para destruir qualquer uma dessas duas democracias —nem Teerã, nem Moscou, nem ninguém.

Somente forças internas podem fazer isso.

Somente a autodestruição pode fazer isso. E não tenham dúvida: a autodestruição estará em jogo nas urnas dos dois países.

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