No fim da semana passada, Donald Trump anunciou um acordo para tomar controle de parte generosa das imensas reservas de petróleo da Venezuela. Por vários motivos não foi um pacto qualquer, falaremos mais disso abaixo.
- Controvérsia: Betancourt ficou famoso por obter contratos com o governo de Hugo Chávez e o regime de Nicolás Maduro para operar no setor energético apesar da então falta de experiência na área. Ele é alvo há anos de investigações na Suíça e na Espanha (nunca foi acusado formalmente).
- Betancourt é parte dos conhecidos "bolichicos", um grupo de empresários que enriqueceu pela proximidade com o regime ("boli", de bolivarianos, e "chicos", meninos).
- Em perspectiva: os EUA têm estimados 81 bilhões de barris de reservas. A Venezuela tem cerca de 300 bilhões, a maior do planeta —e agora Washington terá controle de 65 bilhões desses cerca de 300 bilhões.
- Preços de cocaína permanecem em patamares semelhantes aos anteriores aos ataques.
- As apreensões nas fronteiras não diminuíram.
Já nesta semana, o governo do republicano completou um ano de ataques a embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico no hemisfério Ocidental, outro vetor importante de sua política para a região.
E também nesta semana o presidente americano continuou com seu morde e assopra ao Brasil, dizendo que mantém uma "boa relação" com o país (não citou Lula). Elogiou também países amigos da região, que "estão todos indo para a direita", como Colômbia e Argentina.
Esses três vetores —energia, narcotráfico, influência política— se entrelaçam para formar a base da relação de Trump com a América Latina neste segundo mandato, e têm sido cada vez mais mobilizados pelo republicano para dar algum sinal de vitória em meio a fiascos no Oriente Médio e na Ásia.
O acordo pegou de surpresa até as petroleiras americanas, várias das quais já operam, e muito, na Venezuela.
Isso porque o governo americano vai ter controle direto de mais de 65 bilhões de barris de reservas do país sul-americano, por meio de uma parceria com uma empresa privada.
Os EUA terão participação de 35% na Nabep (North American Blue Energy Partners), do empresário venezuelano Alejandro Betancourt.
Depois do anúncio, a americana Chevron, a maior produtora de petróleo na Venezuela, afirmou que vai expandir suas operações no país sul-americano.
Não à toa, a líder interina do regime de Caracas, Delcy Rodríguez, chamou o acordo de histórico. Ela diz que também que o pacto envolve exploração em 17 campos de petróleo e terá um "impacto significativo no renascimento da nossa nação.
O governo Trump mesmo admite, contudo, que não é um pacto que vai mudar profundamente o preço na bomba de gasolina do americano médio —o foco político do presidente, que continua atolado no estreito de Hormuz.
A produção na Venezuela está crescendo todo mês, mas, para massivamente reduzir os preços do petróleo, é uma perspectiva de alguns anos", afirmou o secretário de Energia americano, durante visita a Caracas para finalizar o pacto.
Na outra ponta do espectro da relação Trump e América Latina estão os ataques a embarcações supostamente ligadas a narcotraficantes no Caribe e no Pacífico.
Após cerca de dois meses de trégua nos ataques, Washington voltou a realizar bombardeios no fim de agosto.
Faz um ano que o governo republicano iniciou a ofensiva, que, além de bastante duvidosa do ponto de vista legal, não mostrou ainda qualquer evidência de que está surtindo efeito (ao menos para os objetivos explícitos do governo Trump).
Autoridades militares reconhecem ainda que traficantes adaptam rotas e meios de transporte para escapar das forças americanas, usando caminhos via Venezuela e Guiana até o Suriname, por exemplo.
A Wola (Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos) afirma que algumas das pessoas identificadas nos ataques não pareciam ter envolvimento conhecido com o narcotráfico.
Outras atuavam nos níveis inferiores da cadeia, muitas vezes como tripulantes recrutados em comunidades costeiras pobres. Há também pessoas com envolvimento mais claro com o crime organizado.
Não sabemos. Isso é parte do problema", afirmou à Folha Wells Dixon, advogado do CCR (Centro para Direitos Constitucionais) ao ser questionado sobre quem são os mortos.
Os dois pontos anteriores se conectam no nível mais mundano da política. Trump tem apoiado candidatos a governos latino-americanos que têm vencido e empurrado o hemisfério à direita —e uma direita bem à la Trump.
Argentina, Colômbia, Chile, Equador, Bolívia, Paraguai, Peru e o regime tutelado da Venezuela. Falta só o geralmente bastante equilibrado Uruguai, hoje à esquerda.
O Brasil tem uma posição mais complexa (para nós e para os EUA). Lembrando que a Casa Branca já considera PCC e Comando Vermelho grupos terroristas.
O maior país da região tem recursos naturais abundantes, incluindo minerais críticos que podem ajudar Washington a contrabalancear a influência chinesa neste mercado crítico (o Senado aprovou o projeto de lei sobre o tema).
Mas também tem sido metralhado por tarifas e tem vivido uma crise diplomática com o governo Trump em relação à aprovação do novo embaixador americano em Brasília e às ameaças de intervenção eleitoral.
Nada indica que essa "boa relação" que o americano diz ter com o Brasil vai se traduzir em avanços nas negociações e atritos ora em curso.
Em números
- Isso porque o governo americano vai ter controle direto de mais de 65 bilhões de barris de reservas do país sul-americano, por
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