Um El Niño atípico e mais intenso que antes, guerra e ruína econômica agravam a situação no Sudão do Sul. Para o Programa Mundial de Alimentos, PMA, trata-se de um conjunto de condições perfeitas que tendem a aparecer quando a ajuda humanitária internacional está prestes a esgotar-se.
O alerta foi dado nesta terça-feira, em Genebra, pelo vice-diretor-executivo de Operações de Programas da agência da ONU. Matthew Hollingworth retorna de uma avaliação no terreno com mais da metade da população tentando sobreviver.
Segundo ele, o cenário de mais de 7,8 milhões de pessoas tentando encontrar comida é desolador.
O déficit nutricional atinge gravemente 2,2 milhões de crianças e 1,2 milhão de gestantes e mulheres amamentando. Sem fundos doados com urgência, mais de 1 milhão de pessoas vulneráveis perderão a assistência vital a partir de outubro.
À profunda crise sul-sudanesa soma-se a propagação do conflito no vizinho Sudão. A cada semana, cerca de 3 mil refugiados e repatriados cruzam a fronteira em busca de abrigo e alimento.
Em Renk, no norte do país, famílias chegam exaustas após caminharem durante dias ou semanas. Hollingworth contou o caso de Hapsa Hassan, mãe de quatro filhos, que fugiu do estado do Nilo Azul e percorreu quase 200 km a pé.
Após receber comida do PMA e deficiência de apoio nutricional do Unicef, Hapsa depende da generosidade de vizinhos que também nada têm para comer. O maior medo é a segurança da filha adolescente, forçada a arriscar a vida fora dos acampamentos para buscar sustento.
A falta de fundos reduziu de forma drástica a capacidade de resposta das agências internacionais. Em Malakal, antigo centro logístico para a região do Alto Nilo, vive-se um grande contraste.
O armazém que no ano passado mantinha 10 mil toneladas de alimentos em reserva hoje guarda menos de 300 toneladas. A questão logística piora com a insegurança nas rotas fluviais.
Barcos de transporte comercial e humanitário ao longo do Rio Nilo enfrentam postos de controle ilegais e extorsão armada.
A cobrança de taxas arbitrárias por soldados encareceu o transporte de tal forma que muitos comerciantes abandonaram as rotas. Em Malakal, praticamente todos os alimentos que não sejam tomates, quiabos, pimentas e cebolas cultivados localmente têm de ser transportados por via aérea, uma alternativa insustentável.
A água acumulada está agora estagnada e imprópria para consumo em meio à seca severa motivada pelo fenômeno Super El Niño. A insegurança alimentar alastra-se por toda a região, atingindo os vizinhos Sudão, Eritreia, Etiópia, Uganda e Quênia.
Diante do colapso iminente, a ONU fez um apelo direto às autoridades do país. Hollingworth disse que o fardo não pode recair apenas sobre os trabalhadores humanitários.
Ao Governo do Sudão do Sul, ele destacou que é preciso mobilizar recursos próprios para proteger seus cidadãos e agir com firmeza para erradicar os bloqueios e a extorsão nas estradas.
O Sudão do Sul está à beira do maior desastre humanitário de seus 13 anos de independência. A crise exige uma resposta internacional imediata para evitar uma tragédia em larga escala.
Em números
- Segundo ele, o cenário de mais de 7,8 milhões de pessoas tentando encontrar comida é desolador
- O déficit nutricional atinge gravemente 2,2 milhões de crianças e 1,2 milhão de gestantes e mulheres
- Sem fundos doados com urgência, mais de 1 milhão de pessoas vulneráveis perderão a assistência vit
- A cada semana, cerca de 3 mil refugiados e repatriados cruzam a fronteira em bu
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