Décadas depois de viver sob o domínio de Paul Schäfer na Colônia Dignidad, Anne Schnellenkamp ainda sente algo estranho quando entra numa loja, escolhe uma blusa e paga com seu próprio dinheiro.
Durante boa parte da vida, trabalhou sem salário e não conheceu o significado de possuir algo.
Anne é uma das personagens de "Los Sobrevivientes: Colonia Dignidad", minissérie documental chilena disponível na Amazon Prime Video. Seu mérito é contar uma história que não termina com a descoberta dos crimes cometidos naquele enclave alemão no sul do Chile.
Trata do que veio depois: como reconstruir uma vida após alguém passar décadas decidindo até quem você poderia ser.
A monstruosidade do antes, porém, precisa ser lembrada. Schäfer chegou ao Chile em 1961 fugindo de acusações de abuso sexual de menores na Alemanha. Fundou uma comunidade religiosa fechada e submetida à sua autoridade absoluta, na qual famílias eram separadas, crianças eram afastadas dos pais, o trabalho não era remunerado e meninos eram vítimas de abusos sexuais.
A ditadura de Augusto Pinochet acrescentou outra camada de horror. Ligada à Dina, a polícia política do regime, a colônia serviu como centro clandestino de detenção, tortura e desaparecimento de opositores.
Mas não sobreviveu durante décadas apenas porque Schäfer controlava quem vivia dentro dela. Sobreviveu também pelas relações que construiu do lado de fora.
O hospital da Colônia Dignidad atendia uma população rural pobre e ajudava a alimentar sua imagem de instituição beneficente. E a rede de proteção atravessou a redemocratização.
O governo democrático de Patricio Aylwin retirou a personalidade jurídica da organização em 1991, mas não conseguiu desmontar o enclave. Entre os defensores públicos da colônia nos anos 1990 estava Hernán Larraín, que décadas depois se tornaria ministro da Justiça e dos Direitos Humanos.
Até a estrutura econômica sobreviveu. A antiga colônia funciona hoje como uma holding pertencente a 128 colonos-acionistas, com negócios em agricultura, alimentos e turismo.
O patrimônio construído por uma comunidade em que durante décadas se trabalhou sem salário continua sendo motivo de disputas.
Schäfer fugiu do Chile em 1997 e só foi localizado e preso em 2005, escondido na Argentina. Morreu numa prisão chilena cinco anos depois. Sua saída de cena, entretanto, não libertou quem havia vivido sob seu domínio.
Werner Schmidtke conta que Schäfer os convencera de que era o mediador entre eles e Deus. Sexo, casamento e relações afetivas praticamente não existiam naquele mundo.
Quando a colônia se abriu, seus moradores tiveram de aprender já adultos a construir uma identidade própria e se relacionar com outras pessoas. Alguns formaram famílias.
Schmidtke diz que nunca superou a vergonha e, por isso, nunca pôde se casar.