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Preocupa ver candidatos no Brasil oferecerem modelo Bukele como solução, diz jornalista que precisou deixar

Carlos Dada afirma que política de segurança esconde detenções arbitrárias, tortura e perseguição a opositores

5 min de leitura
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O chamado "modelo Bukele", vendido como resposta à violência em El Salvador, ganhou espaço no debate eleitoral brasileiro. Pré-candidatos à Presidência passaram a citá-lo como referência no combate ao crime organizado.

  • Direita brasileira vê El Salvador como inspiração; romaria de políticos custou ao menos R$ 400 mil.
  • Ela perdeu um filho na violência de El Salvador; repressão de Bukele prendeu o segundo.
  • Tentei me suicidar após sessões de espancamento no Cecot, diz venezuelano deportado por Trump.
  • Prisões de El Salvador têm apagão de dados e déficit de vagas maior do que as brasileiras.
  • Folha por Folha: No Cecot, vi o aparato repressivo de Bukele e me senti um pouco algoz.

Para Carlos Dada, 55, cofundador do jornal El Faro, a vitrine da megaprisão Cecot, sigla para Centro de Confinamento do Terrorismo, esconde um sistema marcado por detenções em massa e restrições de direitos.

O jornal que Dada dirige documentou o pacto do governo de Nayib Bukele com as gangues locais para promover a queda nos homicídios que fizeram do país o recordista em taxa de assassinatos em 2015, mas teve de deixar El Salvador após sofrer pressão e perseguição.

Hoje, a partir do exílio, Dada acompanha com preocupação a recepção do modelo no Brasil. "Fiquei preocupado que tantos candidatos no Brasil ofereçam o modelo Bukele como solução", disse à Folha.

Dada também vê com apreensão a atração de parte do empresariado brasileiro pelo modelo, após o chefe da Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, apresentá-lo a industriais em São Paulo.

Ele apresentou o combate à insegurança em termos quase bíblicos. Disse estar combatendo seres da escuridão. Isso é pura demagogia", afirmou. "Sobretudo levando em conta que esses seres da escuridão já foram sócios do governo Bukele.

Leia 'Cecot - Por dentro da prisão de Bukele.

Em passagem pelo Brasil para participar do Festival Piauí de Jornalismo, em São Paulo, Dada falou à Folha sobre a ascensão de Bukele, o pacto do governo com as gangues, a concentração de poder em El Salvador e a política de encarceramento em massa.

Com 1 em cada 50 cidadãos presos, se o Brasil imitar El Salvador, produzirá uma população carcerária de 4 milhões de pessoas. Hoje, o país tem pouco menos de 1 milhão de presos, a terceira maior população carcerária do planeta, atrás de EUA (1,8 milhão) e China (1,7 mi).

Candidatos à Presidência do Brasil evocam o chamado "modelo Bukele" como referência de combate ao crime organizado. O que é este modelo? É a utilização dos corpos de segurança, no caso de El Salvador, a polícia e o Exército, com capacidade de realizar detenções arbitrárias e massivas, sem necessidade de ordens judiciais e sem necessidade de que existam acusações contra a pessoa.

Basta que essas autoridades, por qualquer razão, digam que a pessoa é suspeita. Para dar um exemplo, revisamos atas de detenção e, algumas vezes, a razão alegada era que a pessoa "ficou nervosa.

O regime de exceção está em seu quinto ano em El Salvador. Uma vez detido, você é levado a uma prisão na qual não pode receber visitas nem de familiares nem de advogados e onde, via de regra, os familiares nem sequer são informados sobre sua localização.

Se você tiver sorte, chega a julgamento por um juiz anônimo que decidirá sua situação legal junto com outras 100 ou 200 pessoas. Ou seja, suas possibilidades de sair desse buraco são nulas.

A principal referência do "modelo Bukele" no Brasil é a superprisão Cecot. Ela é, de fato, uma síntese do que acontece em El Salvador? Cecot é a imagem que está na cabeça de todos aqueles que falam do modelo Bukele.

Trata-se de uma prisão impecável, absolutamente limpa, com uma taxa de ocupação de cerca de 60%, na qual vemos membros de gangues absolutamente ordenados, quase de maneira geométrica, com uma iluminação muito profissional e imagens muito planejadas.

Mas essa não é a prisão para onde levam a maioria dos detidos, que vão para qualquer um dos outros 22 presídios, aos quais não permitem acesso a absolutamente nenhuma pessoa, incluindo os jornalistas que foram convidados a fazer o tour pelo Cecot.

Em El Salvador, 1 em cada 50 cidadãos está preso. Dentro das prisões, voltou a tortura sistemática, perpetrada por grupos de agentes penitenciários que identificamos plenamente e que continuam atuando com total impunidade.

Há mais de 400 pessoas mortas como consequência dessas torturas. Muitos foram enterrados em valas comuns sem que suas famílias tenham sido notificadas.

Segundo relatório recente da Anistia Internacional e outro, separado, de um grupo de juristas independentes, o regime de Bukele comete crimes contra a humanidade.

Em números

  • 50 cidadãos presos, se o Brasil imitar El Salvador, produzirá uma população carcerária de 4 milhões de pessoas
  • Hoje, o país tem pouco menos de 1 milhão de presos, a terceira maior população carcerária
  • Do planeta, atrás de EUA (1,8 milhão) e China (1,7 mi)
  • A julgamento por um juiz anônimo que decidirá sua situação legal junto com outras 100 ou 200 pessoas

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Fontes consultadas

  • Folha Mundolink

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