Um tribunal sírio condenou à morte o ditador deposto Bashar al-Assad, considerado culpado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante a guerra civil que devastou o país.
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Assad não estava presente no julgamento. Ele fugiu da Síria em dezembro de 2024, quando seu regime foi derrubado após 13 anos de guerra, e recebeu asilo na Rússia.
A sentença é a primeira condenação contra Assad desde a queda de seu governo. Mas, na prática, sua execução está longe de ser uma possibilidade imediata: para que ele cumpra a pena, a Síria precisaria primeiro conseguir que a Rússia o entregue.
Quem é o Bashar al-Assad, condenado pela Síria à pena de morte.
O primo de Assad e ex-chefe da Segurança Política na província de Deraa, no sul do país, Atef Najib, também foi condenado à morte. Diferentemente de Assad, Najib estava presente no tribunal e apareceu usando um uniforme prisional listrado dentro de uma jaula enquanto o juiz lia a sentença.
Deraa é considerada o berço da revolta contra o governo de Assad.
Em março de 2011, a detenção e a suposta tortura de um grupo de adolescentes acusados de escrever pichações contra o governo desencadearam protestos na cidade. A resposta das forças de segurança foi violenta e ajudou a transformar manifestações locais em uma revolta que se espalhou pelo país.
O governo tentou sufocar os protestos pela força. Em poucos meses, confrontos entre as forças de Assad e grupos da oposição se transformaram em uma guerra civil.
Centenas de milhares de pessoas morreram durante o conflito, e milhões foram obrigadas a deixar suas casas.
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Quais crimes foram cometidos pelo regime de Assad.
Assad chegou ao poder em 2000, após a morte de seu pai. Segundo filho de Hafez al-Assad, ele não estava destinado a governar a Síria até que seu irmão, Basil, morreu em um acidente de carro em 1994.
Integrante da minoria alauíta, ele continuou a favorecer sua predominância em muitos cargos nas forças militares, de segurança e nas agências de inteligência.
Em geral, Bashar seguiu os passos de seu pai na política externa, com prudência e evitando confrontos militares diretos. Mas dez anos de governo deixaram clara a inclinação autoritária de Assad — e a perseguição à oposição continuou.
Grande parte de seu governo foi marcada pela guerra civil que eclodiu em 2011, se transformou em um conflito sangrento e multifacetado que envolveu grupos da oposição, facções extremistas e potências internacionais, como Estados Unidos, Irã e Rússia.
Entre acusações contra o regime de Assad estão assassinatos, tortura, desaparecimentos forçados, execuções, ataques contra civis e uso de armas químicas.
Em meados de março de 2011, ocorreu um grande protesto em Damasco que, dias depois, se espalhou pela cidade de Daraa, onde um rapaz tinha sido preso por escrever mensagens contra Assad nos muros.
Quando as forças de segurança dispararam contra os manifestantes em Daraa, o descontentamento aumentou e clamores por renúncia de Assad surgiram em muitas cidades sírias.
As autoridades responderam com violência e atribuíram a agitação a "sabotadores e infiltrados liderados por forças estrangeiras.
A situação piorou em alguns meses, com confrontos cada vez mais frequentes entre as forças governamentais e as facções rebeldes que decidiram pegar em armas.
Em agosto de 2013, centenas de pessoas foram mortas em um ataque com armas químicas em uma área controlada pelos rebeldes perto de Damasco.
As potências ocidentais e a oposição culparam o regime de Assad, embora o governo tenha negado envolvimento. Finalmente, devido à pressão internacional, Assad concordou em desmantelar o seu arsenal químico.
Mas isso não encerrou as acusações de uso de armas químicas. Comissões das Nações Unidas também acusaram diferentes lados do conflito de cometer crimes de guerra, incluindo homicídios e tortura.
O sistema de prisões mantido pelo governo também se tornou um dos símbolos da repressão. Milhares de pessoas foram presas, muitas delas sem julgamento. Organizações de direitos humanos documentaram tortura, desaparecimentos forçados e execuções.
A prisão de Saydnaya, a cerca de meia hora de carro do centro da capital Damasco, ficou especialmente conhecida pelos relatos de tortura sistemática e execuções secretas de presos.
Estima-se que mais de 30 mil detentos tenham sido mortos em Saydnaya, desde o início da guerra da Síria, em 2011.
Eles compõem uma grande parte das mais de 100 mil pessoas que desapareceram sem deixar pistas, durante o regime de Bashar al-Assad – quase todos, homens, mas também milhares de mulheres e até crianças.
Como a Rússia ajudou Assad a permanecer no poder.
Em 2015, o regime parecia pronto para cair, pois tinha perdido o controle de grandes áreas do país. Mas a intervenção militar da Rússia mudou o curso do conflito e permitiu que Al Assad recuperasse territórios importantes.
Moscou já era uma importante aliada política e militar de Assad, mas, em setembro daquele ano, o governo de Vladimir Putin iniciou uma campanha de ataques aéreos na Síria para apoiar as forças de Assad.
Com o apoio da Rússia, além da ajuda do Irã e de grupos armados apoiados por Teerã, como o Hezbollah, o governo recuperou importantes áreas que haviam sido tomadas pela oposição.
A Rússia também tinha interesses estratégicos na Síria, onde mantinha instalações militares e buscava preservar sua influência no Oriente Médio.
Entre 2018 e 2020, vários acordos internacionais estabeleceram que as forças governamentais controlavam a maior parte da Síria, e os rebeldes islâmicos e os guerrilheiros curdos mantinham redutos no norte e nordeste do país.
O panorama fortaleceu Assad, que aos poucos voltou ao cenário diplomático. A Síria foi readmitida na Liga Árabe e em 2023 os países árabes começaram a reabrir as suas embaixadas em Damasco.
Embora o país vivesse uma situação econômica cada vez pior, castigada por anos de guerra, o presidente parecia ter resistido aos insurgentes.
Mas em outubro de 2023, a organização armada palestina Hamas lançou um ataque contra o sul de Israel, desencadeando uma guerra em Gaza que rapidamente repercutiu no Líbano, causando um impacto notável no Hezbollah, um dos principais apoiadores de Assad.
A ofensiva israelense causou pesadas baixas ao Hezbollah, inclusive com a morte do seu líder, Hassan Nasrallah.
No mesmo dia em que entrou em vigor um cessar-fogo no Líbano, os rebeldes sírios, liderados pelo poderoso grupo islâmico Hajar Tahrir al-Sham (HTS), lançaram um ataque surpresa e tomaram Aleppo, a segunda cidade do país.
Quase sem qualquer oposição, os insurgentes continuaram avançando e a tomando cidades. Areas do sul começaram a escapar ao controle governamental.
À medida que se tornou claro que nem a Rússia nem o Irã poderiam estar em posição de ajudá-lo desta vez, a situação do presidente sírio ficou precária.
Em 2024, o HTS e suas facções aliadas precipitaram a queda do presidente Bashar al-Assad em 12 dias, após 13 anos de guerra civil.
Bashar al-Assad, em uma das primeiras declarações após a sua queda, disse que nunca teve a intenção de fugir para a Rússia.
Ele afirmou que, quando a capital síria caiu para os rebeldes, ele foi a uma base militar russa na Província de Latakia "para supervisionar as operações de combate" e viu que as tropas sírias haviam abandonado suas posições.
A base aérea de Hmeimim também sofreu "intensos ataques de drones" e os russos decidiram transportá-lo de avião para Moscou, afirmou.
Em 9 de dezembro de 2024, a mídia russa anunciou que ele havia recebido asilo no país —embora não tenha havido nenhuma confirmação oficial.
A queda de Assad não levou ao poder o líder do HTS, Ahmed al-Sharaa, que havia sido conhecido durante a guerra pelo nome de guerra Abu Mohammed al-Jolani.
Em janeiro de 2025, al-Sharaa foi nomeado presidente para o período de transição. Em março, seu governo formou uma nova administração nacional.
Desde que chegou ao poder, ele adotou um discurso de reconciliação nacional e prometeu proteger diferentes grupos religiosos e étnicos. Mas a transição é controversa.
O passado de al-Sharaa e do HTS provoca desconfiança entre minorias e setores da sociedade síria, e episódios de violência contra comunidades associadas ao antigo regime continuam no país.
O novo governo deteve numerosas autoridades e integrantes das forças de segurança do antigo regime, embora a maioria das figuras de alto escalão do antigo regime, incluindo o próprio Assad, continue fora do alcance das autoridades na Rússia.
Não é a primeira medida tomada contra Assad pela nova liderança da Síria. Um mandado de prisão foi emitido contra ele em dezembro passado, sob acusações de assassinato e tortura.
As tentativas de figuras da oposição síria de levar Assad aos tribunais em países ocidentais durante os últimos anos de seu governo não resultaram em nenhuma condenação.
Agora, com a condenação à morte, a principal questão é saber se a sentença poderá ser cumprida.
Assad foi julgado à revelia. Ele continua na Rússia, onde recebeu asilo depois da queda de seu governo. A Síria depende, portanto, de uma decisão de Moscou para conseguir levá-lo de volta ao país.
A nova liderança síria já pediu a extradição de Assad e de outros integrantes de seu antigo governo. Mas a Rússia não demonstrou disposição de entregar o ex-presidente.
Sem Assad sob custódia da Justiça síria, a sentença de morte não pode ser executada.
O tribunal também condenou à morte, sem a presença dos acusados, seis ex-integrantes das forças militares e de segurança, incluindo o irmão mais novo de Bashar al-Assad, Maher.
Ele comandava a elite 4ª Divisão do Exército e também fugiu para Moscou quando o regime caiu.
Entre os outros condenados está o ex-ministro da Defesa Fahd al-Freij.
Do lado de fora do tribunal, após a decisão, centenas de pessoas de todas as idades se reuniram segurando fotos de seus entes queridos que foram mortos pelo regime.
As multidões aplaudiam e entoavam palavras de ordem, enquanto carros passavam buzinando animadamente.
Um grupo de homens distribuía bandeiras usadas em manifestações.
A alegria é indescritível", disse um homem à BBC, erguendo uma foto de seu falecido pai. "Se Deus quiser, veremos Bashar al-Assad e todos os seus auxiliares pendurados na forca.
Outra mulher disse à BBC que todos estão sentindo uma mistura de "vitória e libertação.
As vozes das vítimas finalmente foram ouvidas. A justiça foi alcançada!", exclamou.
Nouha al-Masri integrou tanto a equipe de acusação quanto a lista de partes autoras no processo. Ela perdeu o irmão durante a repressão e o massacre de março de 2011 na praça al-Omari, em Deraa.
Esperamos 15 anos para recuperar ao menos uma pequena parte de nossos direitos, por todos aqueles que derramaram nosso sangue, cometeram crimes, violaram nossos direitos, mataram e nos torturaram", disse ela à BBC.
Nossa exigência é que este não seja o fim dos julgamentos... Na nova Síria, não haverá impunidade a partir deste dia.
Em números
- Estima-se que mais de 30 mil detentos tenham sido mortos em Saydnaya, desde o
- Eles compõem uma grande parte das mais de 100 mil pessoas que desapareceram sem deixar pistas, dura
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Mundo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.