Ir para o conteúdo
Mundo Revisado por ULTRA AI

Paula Fernandes volta a Barretos e fala sobre machismo no sertanejo, política e IA na música: 'Talvez eu

Cantora vai cantar Ave Maria e abrir o rodeio nesta quinta-feira (27/8), antes de fazer seu show na sexta (28/8), com sucessos da carreira e novos trabalhos do

16 min de leitura
Mundo — imagem padrão

BBC News, Vá para o conteúdoNotícias.

Role, Da BBC News Brasil em Londres.

Será em cima de um cavalo, cantando Ave Maria, que Paula Fernandes retorna à Festa do Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina, na noite desta quinta-feira (27/8), depois de dez anos afastada do evento.

A apresentação dará início às provas de montaria, que antecedem os shows musicais.

A cantora retorna na sexta-feira (28/8) para uma apresentação só sua, no palco Amanhecer, um dos principais do evento. O show — que reúne seus primeiros sucessos, como Pássaro de Fogo, e músicas de seu novo álbum, 30 & Poucos Anos — marcará também a comemoração de seus 42 anos e será uma oportunidade de revisitar sua carreira.

Em entrevista à BBC News Brasil por videoconferência, ela relembrou sua trajetória, desde a infância pobre no interior de Minas Gerais até o início da carreira, cantando em botecos, e a chegada ao estrelato em 2011, quando foi a artista mais tocada do ano nas rádios e vendeu 1,6 milhão de discos pelo país.

Paula diz que a principal diferença que sente hoje é que a indústria já está acostumada à presença de mulheres no sertanejo — um cenário muito diferente daquele que encontrou no início da carreira, quando chegou a fazer 220 shows no ano.

Não consigo descrever o olhar de espanto de quando eu chegava. 'Por que ela pediu um banheiro no camarim? Por que pediu um espelho?'. Era tudo moldado para homens, que chegam de botina, trocam de roupa em qualquer lugar, colocam uma camisa xadrez, fazem xixi em qualquer lugar", conta.

A gente pede um palco sem buracos, porque uso salto, e isso são necessidades femininas, não luxo.

Paula diz que, embora possa "parecer repetitiva", não se cansa de falar sobre isso porque, ainda hoje, após a criação do movimento feminejo e o sucesso de nomes como Marília Mendonça, as mulheres ainda são minoria no sertanejo.

Prova disso é o line-up da sexta-feira em Barretos, quando ela cantará. Entre os 22 artistas que subirão aos palcos, apenas três são mulheres, ou seja, 13,6%. A proporção é ainda menor quando considerada a programação completa do evento: as mulheres representam 11,6% das atrações dos seis dias.

A artista celebra, no entanto, que os nomes da nova geração, como Ana Castela, não tenham de enfrentar o que ela enfrentou, como as fofocas de que teve sua carreira impulsionada por supostos affairs com homens da indústria musical.

Tragédia no Nepal: Enxurrada e avalanche na fronteira com Tibete matam mais de 150 pessoas; acompanhe.

Enchentes no Nepal e no Tibete: o que se sabe sobre a tragédia que deixou mortos e centenas de desaparecidos.

Quem é Augusto Cury, escritor que disputa a Presidência nas eleições 2026.

As imagens de satélite do Nepal que mostram o antes e depois das áreas destruídas pela enxurrada.

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas.

Me deram cinco namorados em uma semana. Aí a frase era: 'boazinha, mas passa o rodo, né?'. E eu solteira, super quietinha", relembra.

Na conversa com a BBC, a artista ainda falou sobre o sucesso — e as críticas — de suas versões em português de sucessos estrangeiros, como Shallow, de Lady Gaga; os novos rumos do sertanejo, que agora incorpora até batidas de funk; por que prefere se resguardar quando o assunto é política; e seus novos trabalhos.

Além do disco 30 & Poucos Anos, que tem o single Era Eu, ela fará uma série de shows por casas de espetáculos, cujas datas serão anunciadas em breve.

BBC News Brasil — Você vai voltar à arena da Festa do Peão cantando Ave Maria montada a cavalo, algo que fazia no início de sua carreira. De onde veio essa tradição.

Paula Fernandes — Eu ganhei a vida com Ave Maria. Colocou comida na minha mesa desde que me entendo por gente. Sempre cantei em abertura de rodeio, e Ave Maria é um momento importante.

É quando os peões fazem uma oração de proteção, porque [a montaria] é um esporte arriscado.

Às vezes eu entrava a pé, às vezes faziam um coração de fogo ao meu redor. Isso é uma memória afetiva tão boa, porque colocava comida na minha mesa e prazeroso, poder orar pelos peões.

BBC News Brasil — Você está comemorando 30 anos de estrada e, quando estourou, nem se falava em feminejo. Você se considera precursora do movimento.

Paula — Eu fui uma das, mas antes existiram — e existem ainda — Sula Miranda, Roberta Miranda, as irmãs Galvão, as Marcianas. Naquela época era mais difícil do que quando eu aconteci, mas sinto orgulho de estar contribuindo na pavimentação de uma estrada difícil contra o preconceito contra as mulheres na música, ainda mais em um meio dominado por duplas masculinas.

A gente tem que levantar essa bandeira. Posso parecer repetitiva, mas a gente ainda precisa de mais espaço nas grades de shows dos grandes eventos, para ter um equilíbrio com os meninos.

Não queremos o espaço de ninguém, mas também merecemos o nosso.

BBC News Brasil — Houve todas essas que você citou, mas, naquele momento, em que elas não estavam no auge, você se sentia sozinha.

Paula — Completamente. Não consigo descrever o olhar de espanto de quando eu chegava, porque ser uma dama nesse meio é diferente. Existia um espanto, uma curiosidade, e ao mesmo tempo uma rejeição.

Mas fulano veio aqui ontem e não pediu isso.' Mas eu sou uma dama! A coisa foi evoluindo, e isso se tornou uma prática mais comum, receber uma menina e saber que é diferente.

BBC News Brasil — Naquela época você sofria muitas críticas. Diziam que 'a Paula é chata.

Paula — Foi um susto, e eu compreendo que era novo. A vida da mulher na estrada é muito mais difícil, a gente precisa de tempo para se maquiar, a mulher tem TPM, às vezes deixa o filho em casa, então rolou isso, sim.

BBC News Brasil — Diziam inclusive que você tinha affairs na indústria que teriam impulsionado sua carreira, né.

Paula — Me deram cinco namorados em uma semana. Aí a frase era: 'boazinha, mas passa o rodo, né?'. E eu solteira, super quietinha. Sempre tive a conduta de ser muito correta e ir de casa para o trabalho, do trabalho para casa.

No meio eu não namorei praticamente ninguém, então de certa forma isso incomodava um pouco. 'Como uma artista não é namoradeira? Ela tem que ser alguma coisa, então vamos dar um rótulo para ela.' E eu sempre fui uma máquina de trabalho.

Mas faz parte: quando a gente está em cima do palco, existem muitos tipos de olhares. Mesmo diante disso tudo, fui muito feliz. E hoje sou mais ainda.

BBC News Brasil — Quando você desacelerou o ritmo de shows, teve medo de te esquecerem.

Paula — A vida é feita de ciclos. Cheguei a fazer 220 apresentações no ano em 2011. Realmente é muito cansativo, dá muito trabalho chegar até as pessoas, mas eu sempre fiz com tanto amor que valia a pena quando encontrava aquela multidão.

Com o tempo, o cansaço bate e a gente vai entendendo que a gente não fica no pico a vida inteira.

O que tem depois do céu? Porque eu alcancei o céu, então o que eu mais desejava era atingir a velocidade de cruzeiro. Era humanamente impossível manter aquela rotina.

Eu precisava da minha casa, da minha cama, dos meus bichos, de tempo para ser uma pessoa normal.

Eu fui conseguindo essa rotina até chegar neste momento, em que tenho tempo de ter a minha vida pessoal, constituir família e até ter espaço para ouvir meu silêncio e compor.

Foi muito legal, eu faria tudo de novo, mas acho que meu maior sucesso estou vivendo agora. Equilíbrio é sinônimo de sucesso para mim.

BBC News Brasil — O cansaço te deprimia.

Paula — Deprimida não. Eu fiquei deprimida na adolescência, aos 18 anos, me tratei, mas naquela época fiquei muito cansada. A gente fica mais impaciente, mais ansioso, a gente deseja a cama da gente.

BBC News Brasil — Outra coisa que marcou sua carreira foram as versões em português de sucessos estrangeiros. Pretende continuar fazendo.

Paula — Eu tinha aversão a isso. Para mim, era um crime pegar uma música tão perfeita e adaptar, mas acabei me tornando uma grande versionista. É um desafio foda, uma Adele liberar uma canção para eu fazer em português, então mudei minha forma de pensar.

Pretendo, sim, continuar fazendo, e acaba caindo no meu colo.

BBC News Brasil — Essas versões envolvem a expectativa dos fãs. Ora você foi muito celebrada, ora não gostaram tanto. Como você lidou com as críticas quando fez Shallow.

Paula — Mas elas não gostaram? Eu não soube. O que vi foi virar meme por causa do 'juntos e shallow now'. Acabou virando marketing. Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar que isso viraria um marketing que até o McDonald's usaria.

Eu não vi como não gostar. Vi como algo que gerou curiosidade, e o povo gosta de um meme. Eu mesmo fiz alguns. Isso para mim foi confortável, engajou, tanto que no Spotify é uma das minhas músicas mais ouvidas.

A gente podia ter feito a melhor estratégia que não ia alcançar isso, então achei muito positivo.

Os implicantes iam implicar de qualquer forma, mas faz parte. Quando você está lá em cima, vai ter gente que vai tacar pedra e vai ter gente que vai aplaudir. Mas o saldo foi positivo.

É engraçado, porque tem tantas músicas que tem trechinhos em inglês, 'eu perguntava do you wanna dance', o próprio Luan [Santana] lançou algo que falava que ele estava na bad.

Pode ter tido uma implicanciazinha, mas para mim foi muito bom.

BBC News Brasil — Hoje muitas adaptações para o português estão sendo feitas com inteligência artificial. Você usa IA no seu trabalho.

Paula — Me nego. Como criadora, é inadmissível usar uma vírgula do Chat. É um crime contra minha natureza, porque sou uma criadora desde que me entendo por gente.

A IA, sendo bem usada, é maravilhoso, mas para essa parte eu me questiono o que vai ser dos compositores. Como eles vão provar que aquilo saiu deles? Seja da cabeça, seja do coração.

Para mim, sempre foi do coração. Quando componho com sentimento, sinto que toco as pessoas, então é inconcebível, porque não vai tocar do mesmo jeito. Para emocionar, tem que ser humano, vulnerável, profundo.

Outra coisa: tem que haver uma legalização de direitos autorais, porque fica muito fácil, colocar 'quero compor uma música igual à da Paula Fernandes'. O que é meu é meu.

Se você não gostar, é minha culpa; se gostar, é minha conquista.

Crédito, Nestor Javier Beremblum/LatinContent via Getty Images.

BBC News Brasil — Às vésperas das eleições, como você se posiciona em relação à política? A festa de Barretos, aliás, é um lugar onde os artistas se posicionam muito.

Paula — Eu lido com isso com muita tranquilidade, já que sempre fui apartidária. Eu sou uma representante da poesia, da arte, e a arte é universal, chega e alcança pessoas de todas as etnias, raças, cores, àquele que não tem e àquele que tem muito, então acho que seria muito leviano entrar numa área que não é da minha alçada.

Todo mundo tem sua filosofia, aquilo que acredita mais, mas minha arte alcança todos igualmente. Eu não me sinto apta a fazer isso. Não me sinto confortável a fazer isso.

Na hora do meu voto, ele é meu voto, eu tenho direito a ter meu voto e ser algo íntimo meu, que vou guardar para mim, senão todo mundo saia dizendo 'acabei de votar e...', entendeu.

Eu prefiro estar nesse lugar de representante de alguém que faz algo que alcança todos. Mas desejo que as pessoas pensem com carinho, façam suas próprias avaliações, questionem seus candidatos e escolham o que é melhor para si, com sua intuição e seu livre-arbítrio.

Eu não posso abrir mão do meu livre-arbítrio e também não posso interferir no do outro. Eu não tenho esse direito, então prefiro me posicionar dessa forma. Eu sei daquilo que julgo combinar mais com a minha filosofia, sabe.

Vou guardar para mim. Acho que tenho esse direito.

BBC News Brasil — O sertanejo tem incorporado outros gêneros musicais como o funk. Você trabalha muito com a tradição, mas como você vê essa renovação.

Paula — Eu acho tudo muito rico. Gosto de música independente do gênero. Não vejo problema em colocar um beat de funk numa canção ou trazer alguém do samba e do pagode para cantar junto.

Eu sou uma representante da música popular brasileira, minha essência e minha raíz é sertaneja, mas nunca me rotulei nem me limitei a nenhum gênero.

A gente não tem mais que ficar apegada ao padrão. Eu não sou uma pessoa padrão, uma artista padrão. A gente tem que ser genuíno, e o que faz diferença, até para os artistas que estão chegando, é não copiar ninguém.

Agora, no álbum 30 & Poucos Anos, pude trazer a roupagem mais country, que é algo de que sempre gostei, assim como a música folk, mas naquela época me tolhiam, diziam que não era brasileiro, que não traria brasilidade.

E eu sou da mensagem. É uma coisa que eu questiono, sim. Acho que todo mundo tem a liberdade de fazer o que quiser, mas eu tenho responsabilidade com o que canto, com o que falo, porque sei que sou uma referência para muita gente que está me escutando, e a palavra tem muito poder.

BBC News Brasil — O que mudou na sua forma de compor, comparando a Paula de 2011, que fazia 220 shows por ano, e a de agora.

Paula — Minha vivência mudou. Eu era uma menina anônima, sem grana, que não tinha nem onde morar direito, não tinha o que comer direito, passava todo tipo de necessidade, e fui retratando, à medida que o tempo foi passando, minhas vivências.

A gente passa a ter uma forma diferente de se expressar, mas a essência não muda.

Como ave-maria se tornou a mais popular prece católica8 dezembro 2025.

Os músicos e influencers que fazem sucesso promovendo a imagem do agro1 julho 2025.

BBC News Brasil — Muita gente nas redes sociais duvida da sua infância humilde, acredita.

Paula — Não sei se é pior quem inventa ou quem acredita. Se eu puder fazer um resumo da minha vida, eu sou uma das poucas mulheres que conheço que nasceu e cresceu num lugar que não tinha luz elétrica, não tinha nem privada no banheiro.

Só depois de muito tempo que chegou a energia elétrica. Eu passava 30 dias sem ver ninguém além da minha família. Vivi nesse lugar muito tempo até ir para a cidade estudar.

Foi a melhor infância do mundo: montava a cavalo, vivia o dia inteiro descalça, tinha uma colônia de bichos-de-pé nos dedos, meu cabelo vivia cheio de gravetos, era um inferno para desembaraçar.

Eu era um menino, de botina, de calça jeans.

Mas fui paupérrima. A gente produzia o que a gente comia e ia para cidade comprar arroz e sal. Fico tentando entender o que faz as pessoas inventarem essas coisas, porque é inacreditável.

Eu sou filha da roça. E continuo sendo. A diferença é que moro num lugar bonito, mas não tem nada bordado a ouro, nada assinado por designer. E tudo o que tenho é fruto da minha dignidade — e da minha mãe, que é uma leoa.

BBC News Brasil — Qual foi o papel da sua mãe na sua carreira, aliás.

Paula — Se não fosse por ela, eu tinha pulado aquela janela. Com 18 anos, eu escolhi uma janela para pular, e minha mãe falou 'se você pular, eu vou pular antes.

Talvez eu seja real demais, e não sei se as pessoas estão preparadas. Vão continuar falando um monte de coisas, mas não vou mudar. Passei por muita dificuldade, por muita coisa, só não passei fome por causa da minha mãe.

Mas superei tudo e estou aqui. Se é para motivar as pessoas, gente, todo mundo tem problema, mas o importante é saber que sempre tem o dia seguinte e a gente consegue se superar.

Acho muito legal ter esse papo, porque estou aqui para falar de música, mas é muito bom imaginar que posso agregar algum valor à vida de alguém.

AO VIVO, Enxurrada na fronteira entre Nepal e Tibete mata pelo menos 157 pessoas e deixa centenas de desaparecidos; acompanhe.

Ronaldo Caiado fala sobre suas propostas na Globo: o que disse o candidato à Presidência na entrevista à emissora25 agosto 2026.

Eclipse lunar quase total poderá ser visto do Brasil: que horas começa e como observar25 agosto 2026.

Febre do Nilo Ocidental: 8 perguntas e respostas sobre a doença que teve casos confirmados no Brasil25 agosto 2026.

Braskem em Maceió: como ficam os bairros afetados por afundamento do solo após quebra da empresa25 agosto 2026.

Os vídeos de IA que erotizam história brutal do Brasil e têm milhões de visualizações no YouTube25 agosto 2026.

A vida e os sucessos de Dolly Parton, a lenda da música country que morreu aos 80 anos25 agosto 2026.

Como Lito Sousa conquistou a internet falando de aviação e agora mobiliza seguidores contra doença rara25 agosto 2026.

Eleição 2026: quais são as propostas dos candidatos? 20 agosto 2026.

5Os gêmeos que se casaram com irmãs gêmeas em celebração feita por padres gêmeos e com coroinhas gêmeos.

7O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob, diagnosticada no influenciador Lito Sousa.

8'Passam até 6h por dia na academia': por que cada vez mais meninos querem ficar musculosos.

10Quando será o próximo debate presidencial da eleição 2026.

Em números

  • Chegada ao estrelato em 2011, quando foi a artista mais tocada do ano nas rádios e vendeu 1,6 milhão de discos pelo país
  • Tragédia no Nepal: Enxurrada e avalanche na fronteira com Tibete matam mais de 150 pessoas; acompanhe
  • AO VIVO, Enxurrada na fronteira entre Nepal e Tibete mata pelo menos 157 pessoas e deixa centenas de desaparecidos; acompanhe

Fontes

Informação baseada em material público de BBC Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • BBC Brasillink

Leia também

Mais em Mundo