Com a barba curta desenhada, gel no cabelo e sem gravata, Ulrich Siegmund sorri de forma impaciente cada vez que é interrompido por Marietta Slomka, principal apresentadora da ZDF, uma das emissoras públicas da Alemanha, as principais do país.
O político da AfD é o grande vencedor da eleição em Saxônia-Anhalt e está ao vivo no telejornal da noite.
O que eu sempre disse é que não queremos nos comprometer, que não queremos abrir mão de nossos próprios princípios e valores por jogadas de poder, como muitos partidos vêm fazendo há anos", diz o parlamentar antes de ser interrompido.
Vamos tentar esclarecer um pouco isso", afirma Slomka, claramente buscando deter a verborragia do candidato, próximo de formar o primeiro governo de extrema direita da Alemanha no pós-guerra, ou desde o Partido Nazista de Adolf Hitler.
O senhor queria uma maioria absoluta e, acima de tudo, um governo estável. Como seria, então, isso? Com quem? De que maneira.
Preciso me repetir…", diz Siegmund. E ele repete: não quer ser como os outros partidos, como a CDU, do primeiro-ministro Friedrich Merz, "que, logo após cada eleição, faz exatamente o contrário do que prometeu antes da votação.
Quem prometeu antes da eleição não fazer coalizões, governar apenas com uma "maioria segura", foi o próprio Siegmund, dono de uma campanha baseada no TikTok e na mobilização de eleitores antissistema, saudosos de uma Alemanha Oriental que era tudo, menos uma ditadura comunista, como foi na prática.
Sempre dissemos que, como democratas, é preciso estender a mão caso haja outra força democrática, sejam elas, aliás, partidos ou deputados individuais.
Ainda mais quando as projeções não dão outra alternativa à AfD. Uma coalizão com a ambígua BSW, que parece ter superado a cláusula de barreira, eventuais defecções vindas da CDU, tudo isso deve consumir semanas de negociações.
Com quem o senhor pretende implementar isso, sr. Siegmund?", pergunta a âncora.
Bem, preciso me repetir: queremos deixar bem claro que, após a eleição, o eleitor recebe aquilo que escolheu. Uma parcela muito, muito significativa, mais de 44%, votou pela mudança política, por uma política voltada novamente para o nosso próprio país, para o nosso próprio povo, não para salvar o mundo.
Siegmund e a AfD defendem uma reaproximação com a Rússia, que pode voltar a fornecer gás natural e baixar os preços da energia para a população. A guerra, afinal, é da Ucrânia, não da Alemanha.
Logo após votar, pela manhã, cercado por jornalistas estrangeiros, afirmou que pretende conversar com Donald Trump, com Vladimir Putin, "trazer a Rússia de volta à mesa", como se fosse da alçada de um governador estadual tratar de relações exteriores.
Mas ainda não chegamos ao nível federal. Primeiro estamos em Magdeburgo", lembra a apresentadora, quando Siegmund começa a ampliar também no telejornal seu resultado para além das fronteiras do estado.
Bem, se a AfD mantiver seus números até 2029, então essa reflexão terá que ser feita", responde o "homem mais perigoso da Alemanha", epíteto que ganhou da revista Der Spiegel e que acabou transformando em ativo de campanha.
Amanhã, depois de amanhã, saberemos mais. De qualquer forma, já fizemos história. O povo da Saxônia-Anhalt mostrou que as coisas não podem continuar assim e que não vão continuar assim.
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