A crise migratória de Ceuta segue no centro da política espanhola. Nesta quarta-feira (2), data em que se celebra o Dia de Ceuta, há manifestações previstas em diversos municípios do país.
As mobilizações ocorrem depois de uma série de protestos na própria cidade autônoma, na véspera de o primeiro-ministro Pedro Sánchez prestar esclarecimentos ao Congresso dos Deputados e em meio à aprovação de um plano de € 309 milhões para enfrentar as consequências da crise.
Muitas das concentrações previstas para esta quarta-feira foram convocadas pela Federação Espanhola de Municípios e Províncias, que apresenta os atos como uma demonstração de solidariedade à população de Ceuta.
Várias estão previstas para as 20h, no horário local, diante de prefeituras de diferentes municípios.
As manifestações se tornaram motivo de disputa política. O Partido Popular (PP), de direita e principal força de oposição ao governo, apoia as mobilizações e acusa Sánchez de evitar responsabilizar Marrocos pela crise.
O partido de extrema direita Vox é ainda mais contundente, acusando Marrocos de utilizar a migração como instrumento de uma “guerra híbrida” contra a Espanha e criticando duramente Sánchez pela forma como o governo conduziu a crise.
Do lado da esquerda, não há consenso sobre os atos. A direção nacional do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Sánchez, acusou o PP de instrumentalizar politicamente as manifestações.
No entanto, mais de 30 prefeituras governadas pelo próprio PSOE decidiram aderir às mobilizações. Outros municípios governados por partidos de esquerda optaram por organizar atos alternativos de solidariedade a Ceuta.
Em Madri, o partido de esquerda Podemos promove uma manifestação contra o racismo. A líder da sigla, Ione Belarra, acusa a direita de alimentar discursos racistas e xenófobos, mas também critica o governo de Sánchez por sua atuação diante da crise.
Os recursos serão destinados ao acolhimento humanitário, incluindo o reforço da atenção aos menores migrantes, à segurança, aos serviços essenciais e a medidas de apoio a empresas e trabalhadores.
Na quinta-feira (3), Pedro Sánchez irá ao Congresso dos Deputados prestar esclarecimentos sobre a gestão do governo desde o início da crise e sobre as medidas adotadas para reforçar o controle das fronteiras espanholas e europeias e garantir a soberania nacional.
Também está em debate quais informações o governo tinha antes da entrada em massa de migrantes no enclave. A ministra da Defesa, Margarita Robles, reconheceu que os serviços de inteligência tinham informações prévias sobre movimentos relacionados à fronteira.
Outros integrantes do Executivo afirmaram, porém, que não havia dados que permitissem prever a dimensão da entrada registrada em 30 de julho.
Nas últimas horas, surgiu um novo elemento nessa equação. Segundo o jornal El Español, um relatório preliminar do Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF) aponta que agentes de segurança marroquinos teriam dado instruções a migrantes e administrado o fluxo de pessoas durante o ingresso dos estrangeiros em Ceuta.
Segundo a imprensa espanhola, o documento foi entregue à juíza María Tardón, da Audiência Nacional espanhola, no âmbito da investigação sobre os acontecimentos.
Quando a informação foi publicada, na noite de terça-feira (1), a Promotoria ainda não havia analisado o relatório.
A publicação sobre o relatório provocou uma reação imediata do Ministério do Interior. Na madrugada desta quarta-feira, Fernando Grande-Marlaska pediu que o diretor-geral da Polícia esclareça, com urgência, se as informações divulgadas são verdadeiras e, em caso afirmativo, desde quando a Polícia Nacional tinha conhecimento dos fatos.
O conteúdo ganha especial peso político porque, na segunda-feira (31), Sánchez afirmou que não havia informações das forças de segurança ou dos serviços de inteligência que levantassem dúvidas sobre uma eventual participação das autoridades marroquinas e destacou a cooperação de Marrocos durante a crise.
Em entrevista recente à rádio Cadena SER, Sánchez disse que boatos sobre Ceuta se espalharam por redes sociais que associou à Rússia, a Israel e a uma rede internacional de extrema direita, que, segundo ele, explora a questão migratória para atacar a Espanha e a Europa.
O primeiro-ministro ressaltou que isso não significa necessariamente uma atuação de atores estatais estrangeiros e reconheceu que as autoridades ainda investigam o que aconteceu.
Israel rejeitou a acusação. O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Saar, acusou Sánchez de “mentir descaradamente” sobre o papel de Israel na crise.
A Rússia, por sua vez, exigiu que o primeiro-ministro espanhol apresente provas concretas para sustentar suas declarações.
Diante das reações internacionais, o governo espanhol afirmou se apoiar em um relatório da Comissão Europeia que, segundo o Executivo, apontava para uma rede internacional de extrema direita, com focos digitais na Rússia e em Israel, que teria amplificado o ocorrido em Ceuta para aumentar a polarização na Europa.
O Serviço Europeu de Ação Exterior sustenta que foram detectadas tentativas da Rússia de explorar a crise de Ceuta na internet. O organismo também afirma, no entanto, que não há provas conclusivas de que a própria crise tenha sido desencadeada por uma campanha de desinformação promovida por agentes estatais de outros países.
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