Entre golpes on-line, seguros pagos para servir de garantia e o fim do auxílio-moradia para quem não tem bolsa do governo francês, universitários relatam a saga de enfrentar a burocracia para conseguir um teto na capital francesa.
A RFI ouviu três estudantes estrangeiros que encontraram formas diferentes de vencer essa maratona.
Procurar um apartamento em Paris é um drama para muitos estudantes. Depois de provas e longos processos de aplicação para as universidades do país, o mais temido dos desafios é encontrar um teto.
A demanda por um pequeno estúdio charmoso na capital francesa já aumentou 4,3% em um ano. Segundo um estudo de 110 mil ofertas e demandas de moradias pelo serviço de aluguel LocService, registradas no último ano, um terço dos estudantes na França procura um imóvel na região parisiense.
Já é uma guerra conseguir um apartamento como francês, mas para estudantes estrangeiros pode ser uma odisseia longa e cara encontrar onde morar.
Proprietários exigem uma série de documentos, como comprovantes de renda e, muitas vezes, um fiador francês, e, em alguns casos, aceitam os pais estrangeiros.
Amanda é um exemplo dessa longa trajetória para encontrar um lar fixo. A estudante brasileira se mudou para Paris para fazer um mestrado e, em dois anos e meio, trocou de apartamento quatro vezes, quase sempre em sublocações, incluindo um ano num apartamento em que a proprietária se recusou a fornecer documentos formais, o que complicou a renovação do visto da aluna.
Agora, sem um emprego fixo, ela finalmente fechou um contrato de aluguel de longo prazo: um estúdio de 18 m² no centro da cidade, por 700 euros (cerca de 4 mil reais).
Para isso, comprovou renda de trabalhos temporários e pediu ao pai que assinasse como fiador.
Como estudante, eu sempre fui mostrar que eu era bolsista, que eu recebia um salário. Só que, nesse caso, o que me fez conseguir foi eu ter tido uma conversa franca com meu pai, que não me sustenta há muitos anos.
[...] vou precisar da sua assinatura para um termo dizendo que você se responsabiliza financeiramente por mim", explicou Amanda.
Existem alternativas ao fiador tradicional. O Visale, por exemplo, é uma garantia gratuita oferecida pelo governo francês: se o estudante não conseguir pagar o aluguel, o programa cobre a dívida junto ao proprietário e depois cobra o valor do locatário.
Já o GarantMe funciona de forma semelhante, mas é um serviço privado e pago, que pode sair bem caro.
Nos dois casos, o estudante ainda precisa comprovar sua capacidade financeira, geralmente apresentando informações sobre a renda dos pais e o apoio financeiro que recebe deles.
Isso ajuda a demonstrar ao proprietário que haverá recursos suficientes para cobrir o aluguel todos os meses, reduzindo o risco de inadimplência.
O estudante suíço Dominik viveu esse dilema na prática; sabe bem o custo da crise imobiliária e quão importantes são esses documentos para muitos proprietários.
Enquanto esperava pelo Visale, o fiador gratuito do governo, que pode demorar para avaliar o dossiê do locatário, ele acabou pagando pelo GarantMe para não perder o apartamento que estava fechando contrato.
Mandei mensagem para mais de 80 pessoas. A maioria nem respondeu. Recebi talvez umas dez respostas e consegui visitar apenas três apartamentos,” afirmou Dominik.
Os 200 anúncios mais populares em Paris recebem, em média, mais de 700 mensagens por imóvel em poucos dias, segundo o site francês de aluguel direto com o proprietário, Particulier à Particulier.
Então, para ir contra essa estatística e conseguir um estúdio de 12 m², por 800 euros (cerca de 5 mil reais), o mestrando pagou pelo seguro do GarantMe por 500 euros (cerca de 3 mil reais).
E a hospedagem no Airbnb, durante o mês de procura, custou 1. 200 euros, equivalente a mais de 7 mil reais.
Mas Dominik explica que valeu a pena passar pela burocracia e conseguiu o apartamento que desejava.
Como muitos estudantes, Lyubov, cazaque, que fez a graduação no norte da França, começou a procurar moradia para o mestrado em Paris ainda à distância. Durante a busca, quase caiu no golpe de um anúncio falso.
Em 2026, esse tipo de fraude registrou um aumento entre 20% e 30%, segundo o portal oficial do governo francês dedicado à prevenção e ao combate a crimes cibernéticos.
Hoje, Lyubov paga 650 euros, quase 4 mil reais, por um quarto de 8 m² dentro de uma residência num subúrbio de Paris.
Desde uma lei aprovada em maio, alunos estrangeiros sem bolsa do governo francês perderam o acesso ao auxílio-moradia.
Como estudante de um país fora da União Europeia, os aluguéis já pesam no orçamento. E, quando vi que ia mudar para uma cidade maior, descobri que perdi também a ajuda do Estado.
Não tinha muito o que fazer, porque a lei já foi aprovada e já está em vigor. Mas fiquei decepcionada, porque contava com essa ajuda. Vou ter que conciliar os estudos com um trabalho de meio período.
O fim de incentivos fiscais para investidores e a dificuldade crescente dos franceses para comprar a casa própria ajudaram a reduzir a oferta de imóveis para aluguel em Paris.
O número de imóveis disponíveis para aluguel caiu 37% nos últimos sete anos na capital francesa, segundo dados da plataforma Bien'ici, publicados no jornal francês France-inf.
Em números
- Segundo um estudo de 110 mil ofertas e demandas de moradias pelo serviço de al
- Aluguel de longo prazo: um estúdio de 18 m² no centro da cidade, por 700 euros (cerca de 4 mil reais)
- Mandei mensagem para mais de 80 pessoas
- Por 500 euros (cerca de 3 mil reais)
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