Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o escândalo envolvendo o Banco Master contribui para ampliar a deslegitimação do sistema político brasileiro em um momento de forte desinteresse eleitoral.
Em entrevista à RFI, ele afirma que o caso atinge inclusive instituições que mantinham altos índices de credibilidade junto à população e avalia que o Brasil ainda não retomou uma trajetória de estabilidade democrática.
Faltando poucas semanas para as eleições presidenciais de 4 de outubro, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que o Brasil atravessa mais um momento de instabilidade democrática.
Autor de diversos trabalhos sobre democracia, participação cidadã e instituições políticas, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que o país ainda vive um ciclo marcado por avanços e retrocessos na consolidação democrática.
Segundo Avritzer, as eleições brasileiras dos últimos anos deixaram de ser apenas disputas convencionais de poder e passaram a envolver a própria continuidade da ordem democrática.
Na sua avaliação, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e os acontecimentos posteriores evidenciaram essa fragilidade institucional.
Ao analisar o atual processo eleitoral, Avritzer destaca dois elementos centrais. O primeiro é o que descreve como um profundo desinteresse da população pela campanha.
Segundo ele, esse fenômeno pode ser observado tanto na pouca mobilização das ruas quanto no comportamento dos candidatos.
O segundo fator é o escândalo envolvendo o Banco Master. Embora ressalte que o caso não afeta diretamente o governo federal, Avritzer considera que ele contribui para enfraquecer a confiança dos brasileiros nas instituições.
Ele menciona o envolvimento de figuras influentes da política nacional e também as repercussões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).
Ainda que o escândalo do Banco Master tenha características muito específicas e não seja um caso sistêmico de corrupção envolvendo o conjunto do sistema político, como foram o mensalão e a Lava Jato, ele acaba transmitindo a impressão de que o sistema político está à venda", resume Avritzer.
Segundo o cientista político, trata-se sobretudo de um caso envolvendo um banqueiro que teria buscado ampliar a influência de sua instituição por meio da aproximação com figuras de grande poder na República.
Por exemplo, podemos citar o ministro Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner, que aparecem entre os implicados. Ainda que não existam provas contundentes e nenhum dos envolvidos tenha sido condenado, o caso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro pode ser influenciado por interesses privados", reitera.
Para Avritzer, a atual conjuntura também reflete transformações profundas na relação entre os três Poderes da República.
Historicamente, afirma, o Executivo sempre ocupou posição central na política brasileira, particularmente desde os anos 1930. No entanto, a Constituição de 1988 fortaleceu o STF ao ampliar suas prerrogativas institucionais.
Mais recentemente, o Congresso Nacional também ganhou influência política com o fortalecimento das emendas parlamentares.
O resultado, segundo ele, é uma configuração inédita na história recente do país.
Questionado sobre a polarização política, Avritzer considera que o fenômeno continua presente, sobretudo nas redes sociais. No entanto, ele chama atenção para pesquisas que apontam uma realidade diferente quando se observa o comportamento dos brasileiros fora do ambiente digital.
Segundo ele, levantamentos recentes mostram que a maioria dos eleitores não rejeita relações pessoais com pessoas de posicionamentos políticos diferentes. Esse cenário contrastaria, por exemplo, com o observado atualmente nos Estados Unidos.
Para o pesquisador, isso sugere que a polarização social pode ser menos intensa do que a polarização observada nas plataformas digitais.
Ao analisar as motivações do eleitorado, Avritzer identifica diferenças importantes entre regiões do país.
Segundo ele, os eleitores mais pobres, especialmente do Nordeste, tendem a dar maior importância às políticas de proteção social, ao valor do salário mínimo e à expectativa de melhoria das condições de vida.
Já no Sudeste, afirma, é mais forte a rejeição ao sistema político, ao Estado e às empresas estatais.
O cientista político também destaca diferenças entre homens e mulheres. Em sua avaliação, os homens apresentam posições mais conservadoras e maior rejeição às políticas sociais, enquanto as mulheres tendem a reconhecer mais claramente a importância dos mecanismos de proteção social.
Apesar da baixa confiança dos brasileiros nos partidos políticos, Avritzer observa que eles continuam sendo os principais organizadores da competição eleitoral.
Segundo ele, pesquisas mostram níveis muito elevados de desconfiança da população em relação às legendas. Ainda assim, PT e PL concentram atualmente cerca de 70% das intenções de voto, demonstrando que a disputa política continua estruturada em torno dos partidos.
Para o professor, a maior dificuldade surge no Congresso Nacional, onde a fragmentação partidária permanece elevada e contribui para os desafios de governabilidade enfrentados pelos sucessivos governos.
Em relação aos jovens, Avritzer considera que o cenário é ambivalente. Por um lado, pesquisas indicam crescimento do número de jovens entre 16 e 24 anos que se identificam com posições de direita.
Por outro, ele observa que esse mesmo grupo continua demonstrando interesse em obter o título de eleitor mesmo quando o voto é facultativo.
Ao mesmo tempo, ressalta, os jovens também figuram entre os segmentos que mais se abstêm de votar, o que torna difícil afirmar se estão efetivamente se aproximando ou se afastando da política institucional.
Para Avritzer, essa combinação de fatores ajuda a explicar um dos principais desafios das eleições de 2026: a coexistência entre a permanência das disputas políticas tradicionais e uma crescente desconfiança dos eleitores em relação ao sistema político brasileiro.
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