A vida política de Emma Bonino começou com um crime. Em 1974, quando o aborto era ilegal na Itália, ela viajou para uma clínica clandestina em Florença para interromper uma gravidez não planejada.
Voltando de trem à noite, decidi que nunca, nunca, nunca mais alguém deveria ter de sofrer essa humilhação", recordou mais tarde. Um ano depois, decidida a tirar o aborto das sombras, apresentou-se à polícia, transformando sua "infração" privada em um ato público de desafio.
A prisão ganhou as manchetes, alimentando uma campanha que acabou levando à legalização do aborto em 1978. Também a lançou no Parlamento pelo Partido Radical, uma força pequena, mas incansável, em defesa dos direitos civis.
Direta e de baixa estatura, Bonino foi uma defensora da justiça social e da igualdade de gênero, que buscava a controvérsia para promover suas muitas causas dentro e fora do país.
Lutei por direitos a vida inteira, alertando as pessoas para defendê-los, porque eles não duram para sempre", disse à emissora estatal Rai em 2024.
Em uma carreira que se estendeu por cinco décadas, Bonino foi eleita repetidas vezes para os Parlamentos italiano e europeu e atuou como ministra das Relações Exteriores e ministra dos Assuntos Europeus em Roma.
Também foi uma comissária europeia de grande visibilidade em Bruxelas.
Permaneceu na linha de frente da política até depois dos 70 anos, superando um câncer de pulmão apesar de se recusar a parar de fumar.
Ressaltando sua elevada reputação na Itália —e contrariando a desaprovação católica romana de sua posição sobre o aborto—, o então papa Francisco fez uma viagem incomum para fora do Vaticano em novembro de 2024 para visitá-la em sua casa após um susto grave de saúde.
Ela morreu nesta sexta-feira (11), aos 78 anos, informou seu porta-voz.
Na segunda-feira, Bonino foi hospitalizada em estado grave, mas deixou a terapia intensiva na quinta-feira e foi transferida para uma clínica particular.
Fundado pelo mentor de Bonino, Marco Pannella, o Partido Radical promoveu uma série de causas por meio de atos de desobediência civil, greves de fome e dezenas de referendos.
Algumas batalhas eles venceram, como a proibição da energia nuclear. Em outras campanhas, incluindo a tentativa de legalizar a cannabis, ficaram aquém.
Para surpresa geral, Bonino foi nomeada para a Comissão Europeia em 1994, graças ao apoio do então primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Ali, assumiu um conjunto heterogêneo de pastas que ninguém mais havia reivindicado: pesca, política do consumidor e o escritório humanitário da Comunidade Europeia.
Ela foi a primeira mulher a usar calças em uma reunião da comissão, dominada por homens, e se mostrou uma das políticas mais marcantes em uma Bruxelas muitas vezes cinzenta.
Habilidosa e confiante diante das câmeras de televisão, rapidamente atraiu o interesse da mídia ao embarcar em barcos de pesca espanhóis em alto-mar durante a "guerra do peixe" da UE com o Canadá.
Sem papas na língua, acusou o Canadá de pirataria, o que o governo daquele país negou.
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