[RESUMO] Diante de uma globalização esgarçada, da qual os EUA tentam se retirar e a China é parte cada vez mais relevante, incertezas enfraquecem os países do Mercosul, que precisam do bloco para se distanciar do fogo cruzado entre as duas potências.
O acordo bilateral entre os EUA e a Argentina fere os princípios do bloco sul-americano, ao mesmo tempo em que o governo Trump eleva tarifas de produtos do Brasil.
Riscos ao Mercosul deveriam ser pauta na campanha eleitoral, ainda que o resultado do pleito não mude o quadro sombrio gerado pelas ações coercitivas dos EUA na região.
Há tempos, parte do debate público vem proclamando o fim da globalização. A tese se ampara em um punhado de inferências: por exemplo, as cadeias produtivas voltariam para casa, o protecionismo seria duradouro, a segurança nacional teria aposentado o cálculo econômico e as grandes potências reorganizariam suas relações segundo critérios geopolíticos.
O diagnóstico é correto, mas o atestado de óbito é prematuro.
O mundo continua interessado na globalização, como revela a proliferação de acordos comerciais desde que os Estados Unidos decidiram promover uma desglobalização seletiva.
Tarifas, sanções, controles tecnológicos, restrições a investimentos e, sobretudo, o conflito com a China vêm mudando a natureza das relações do país com o resto do mundo.
As ações dos EUA, ainda que reveladoras de um ímpeto isolacionista, não eliminarão a importância do país no mundo. Permanecerão relevantes para as finanças internacionais, para o desenvolvimento tecnológico e para o investimento.
No entanto, a abertura do pós-guerra está se esgarçando, cedendo lugar a uma política discriminatória que subordina os instrumentos econômicos a outros objetivos.
Enquanto isso, boa parte do planeta começa a se reorganizar em torno de uma globalização cada vez menos centrada nos Estados Unidos.
Eis o paradoxo do nosso tempo: a China torna-se cada vez mais indispensável ao funcionamento material da economia mundial no exato momento em que os Estados Unidos rompem a ordem que criaram.
Em escala global, o movimento é conhecido por vários nomes: friend-shoring, segurança econômica, redução de riscos e proteção de cadeias estratégicas.
Nas Américas, assim como na Ásia, a geografia voltou a ditar o alinhamento entre os países. A crise atual do Mercosul é o exemplo mais nítido dessa tendência, a julgar por como escolhas políticas internas, incentivos econômicos e instrumentos externos de coerção empurram os países da região para inserções internacionais distintas.
O Mercosul foi criado em 1991, quando Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai assinaram o Tratado de Assunção. A imperfeita união aduaneira conviveu com exceções tarifárias, com o regime automobilístico enquadrado fora de seu escopo e com as crises recorrentes no Brasil e na Argentina.
Ainda assim, fez duas coisas muito importantes: ampliou o comércio regional e criou um núcleo industrial integrado que atravessou mais de três décadas de turbulência.
Hoje, com a Bolívia em processo de incorporação às normas do bloco, esse espaço está sendo ampliado.
O que temos diante de nós não é mais uma disputa comercial entre Brasil e Argentina, gênero de que a história do bloco está cheia, mas algo novo.
Trata-se da possibilidade de duas inserções internacionais distintas dentro de uma mesma união aduaneira, com a Argentina mais alinhada aos EUA e o Brasil, por ora, tentando não se alinhar a ninguém.
Isso põe em xeque a própria arquitetura do Mercosul.
Em fevereiro de 2026, os dois países assinaram o Acordo de Comércio e Investimento Recíproco, no qual os EUA eliminaram os tributos sobre 1. 675 linhas tarifárias argentinas e quintuplicaram a cota de importação de carne bovina.
Em contrapartida, a Argentina concedeu acesso preferencial a um amplo conjunto de produtos americanos e comprometeu-se a priorizar os EUA como parceiro na produção de cobre, lítio e outros minerais críticos, em detrimento do Brasil, que não é mencionado no documento.
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mundo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.