Após ser acusada de promover "limpeza étnica" por Friedrich Merz, a AfD, sigla de extrema direita da Alemanha, afirmou que vai processar o primeiro-ministro do país por difamação.
Na quarta-feira (9), durante um debate sobre o Orçamento no Bundestag, o Parlamento federal, Merz fez duras críticas à sigla, acusando-a de promover a remigração, "que nada mais é do que limpeza étnica baseada na cor da pele e na origem.
Nenhuma casa de repouso funcionará. Nenhum hospital na Alemanha permanecerá em funcionamento e nenhum restaurante conseguirá se manter aberto. Esse seria o resultado da política de remigração deles", afirmou o premiê, listando alguns dos setores da economia alemã cuja participação de imigrantes é fundamental.
No começo da semana, Merz já havia se declarado "profundamente chocado" com a vitória da AfD na eleição em Saxônia-Anhalt. No domingo (6), o partido obteve quase 44% dos votos.
Com o resultado, alcançou 39 cadeiras no Parlamento estadual, a três de formar maioria. É o maior resultado da extrema direita no país desde a Segunda Guerra Mundial.
Segundo Stephan Brandner, secretário-geral da AfD em Berlim, as declarações do premiê eram "relevantes do ponto de vista penal" e "totalmente inaceitáveis". O grupo parlamentar do partido no Bundestag, segundo o parlamentar, se mantém "firmemente alinhado com a Constituição" e sustenta que a política de remigração atingiria apenas imigrantes ilegais.
Porém, o Escritório Federal de Proteção à Constituição, que classifica a AfD como um partido de "extrema direita comprovada", trata a remigração como um conceito que "visa a criação de sociedades definidas etnicamente e, em consequência, a expulsão de todos os ‘estrangeiros’.
Antes polêmico, o termo, um eufemismo para deportação em massa de imigrantes, foi naturalizado pelo partido em discursos no ano passado. No atual calendário de eleições estaduais, virou item dos programas de governo da legenda.
Ulrich Siegmund, principal nome da AfD em Saxônia-Anhalt e cotado para se tornar o primeiro ministro-presidente, cargo equivalente a governador, da história do partido, usou a remigração na quinta-feira como argumento.
Em entrevista, ele defendia o apoio do partido à instalação no estado de uma unidade da empresa israelense de armamentos Elbit.
Não condenamos categoricamente a produção de armas, porque precisaremos desses recursos para a futura ofensiva de remigração e deportação", declarou. A fala gerou reação até de políticos da BSW, agremiação populista de esquerda que flerta com a ideia de compor ou colaborar com o futuro governo estadual da AfD.
Merz verbalizou o sentimento de muitos políticos dos partidos de centro e de parte da sociedade civil alemã. A vitória do partido, que, além da remigração e bandeiras conservadoras, defende a saída da União Europeia, a volta do marco alemão e a reaproximação com a Rússia, renovou o debate sobre seu banimento.
Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália, cotado como eventual substituto de Merz caso a crise de impopularidade o inviabilize no posto, defendeu publicamente o veto.
Diversos integrantes da AfD são investigados por discurso de ódio e neonazismo. Brandner, que anunciou o processo contra Merz, teve sua imunidade parlamentar suspensa nesta semana pelo Bundestag.
Ele é acusado de injúria por uma jornalista.
Neste fim de semana, ao menos 20 cidades da Alemanha serão palco de manifestações contra a ascensão da AfD organizadas por ativistas e grupos de defesa da democracia.
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