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Mato Grosso do Sul

Driblando a morte

Para driblar a morte, a vida teve de encontrar meios de transmitir informação. Um indivíduo desaparece, mas parte da informação que carrega pode permanecer. ...

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Mato Grosso do Sul — imagem padrão

Para driblar a morte, a vida teve de encontrar meios de transmitir informação. Um indivíduo desaparece, mas parte da informação que carrega pode permanecer. A escala temporal é importante aqui.

Algumas informações transmitem-se imediatamente de uma geração para outra. Outras atravessam muitas gerações. E, ao longo da evolução, surgiram diferentes maneiras de fazer isso.

Pensemos primeiro nas bactérias. Quando uma bactéria se divide, cada célula-filha recebe DNA praticamente igual ao da célula-mãe. O diferencial, nesse caso, reside principalmente na transferência da informação genética.

Mas não apenas nela. As condições ambientais experimentadas pelas células também podem induzir estados fisiológicos e, em alguns casos, marcas regulatórias que persistem por algum tempo após a divisão celular.

Isso não significa que tudo o que uma bactéria experimenta seja incorporado ao DNA e transmitido às gerações seguintes. Significa apenas que, além da informação genética, podem existir formas de memória celular.

Uma célula desaparece como indivíduo, mas parte da informação que carregava permanece nas células que dela se originaram. Isso gera memória no sistema vivo.

Nesse caso, o problema é relativamente simples, pois estamos tratando de indivíduos unicelulares. Mas a evolução também produziu seres pluricelulares e, com eles, surgiram novos níveis de organização.

Se houver apenas duas células, elas precisarão trocar informações. Nesse caso, estamos numa escala de tempo dentro da vida do indivíduo, portanto muito mais rápida do que a que separa gerações.

As informações podem ser sinais moleculares que comunicam às células vizinhas o que cada uma delas está fazendo. Quando um organismo possui bilhões ou trilhões de células, o problema torna-se extraordinariamente mais complexo.

Algumas células precisam se comunicar com suas vizinhas, outras enviam sinais a grandes distâncias e conjuntos inteiros precisam coordenar suas atividades para que o organismo permaneça funcionando.

Isso nos remete ao artigo anterior. Durante o desenvolvimento embrionário, células oriundas de divisões celulares que aparentemente geram filhas idênticas podem seguir destinos completamente diferentes.

Algumas carregam um programa que as levará à morte em determinado momento, para que o organismo se desenvolva corretamente. A visão do artigo anterior foi justamente a de que, em muitos casos, a morte dá lugar à vida.

O ponto aqui é que a informação é crucial. Sem a estruturação de uma espécie de “projeto” informacional, não há como formar um organismo. Da mesma forma, não há como mantê-lo em funcionamento, já que somos seres permanentemente “em manutenção”, corrigindo erros e preservando, aproximadamente, nossa forma por meio da substituição contínua de moléculas, células e átomos.

Agora vamos mudar novamente de escala. De células dentro de indivíduos multicelulares, pensemos em indivíduos distintos. Nesse caso, surgem outras formas de memória.

Animais e plantas desenvolveram processos sofisticados para registrar eventos e ajustar suas respostas futuras. A variedade é enorme. Mas, para facilitar a discussão sobre memória e morte, pensemos em um animal que imita o comportamento de outro da mesma espécie.

Está aí uma maneira diferente de preservar informação. Um comportamento aprendido por um indivíduo pode ser reproduzido por outro e, eventualmente, persistir mesmo após a morte de quem o praticou pela primeira vez.

Em algumas espécies animais, sistemas sofisticados de comunicação podem combinar-se com a imitação e o aprendizado social. Pássaros oferecem exemplos interessantes.

Certos comportamentos são aprendidos por observação de outros indivíduos, e vocalizações também podem ser aprendidas e modificadas. Já não estamos falando apenas de genes transmitidos de uma geração para outra.

Estamos falando de informações que circulam entre indivíduos enquanto estão vivos e que podem permanecer no grupo mesmo depois que alguns deles morrem.

É nesse sentido que podemos dizer que um indivíduo morre, mas, se houve interação e aprendizado, os que ficam vivos carregam parte da informação que circulou entre eles.

Aquele arranjo comportamental pode continuar existindo. É o que denomino “permanência”. Note que a permanência nunca é perfeita. A informação transmitida é sempre um pouco diferente entre quem a fornece e quem a recebe.

Em certo sentido, como acontece com a informação transmitida entre células, há um processo contínuo de permanência imperfeita. Algo se conserva e algo se transforma.

Talvez seja justamente essa combinação que permita, simultaneamente, manter uma identidade e produzir novidade.

Para desenvolver esse ponto, vamos dar mais um passo: os humanos. Em algum momento de nossa história evolutiva, capacidades cognitivas, aprendizado social e linguagem se combinaram de maneira extraordinariamente poderosa.

Com isso, a transmissão de informações entre indivíduos adquiriu uma nova dimensão. Não dependíamos mais apenas do DNA nem da observação direta do comportamento alheio.

Depois, desenvolvemos a escrita e houve outra transformação. Uma informação podia agora deixar o cérebro que a produziu ser registrada em algum suporte material e alcançar pessoas que jamais haviam encontrado aquele indivíduo.

Um ser humano pode escrever, como faço agora, e deixar mensagens que serão lidas mesmo após sua morte. Isso não pode ser propriamente chamado de imortalidade, pois quem escreveu deixou de existir.

Mas algo que fazia parte de sua organização mental continua a interferir na organização mental de outros indivíduos.

A memória é a chave nesse processo. O que se deixa escrito ou gravado, se preservado, pode passar para outra geração e já não depende apenas do DNA. Um ser humano pode não deixar descendentes que carreguem seu genoma e, ainda assim, deixar conhecimentos produzidos ao longo de sua vida capazes de influenciar pessoas que nascerão muito depois de sua morte.

Também aqui, a permanência é imperfeita. Textos são reinterpretados, ideias são modificadas, conhecimentos são corrigidos e até obras inteiras podem ser esquecidas.

No sentido informacional, portanto, também há morte. O esquecimento talvez seja uma de suas formas.

Há ainda outra maneira de olhar para esse problema. Richard Dawkins lembra, em uma bela passagem de Unweaving the Rainbow (Desvendando o Arco-íris), que deveríamos considerar extraordinário o simples fato de estarmos vivos.

O número de combinações humanas que poderiam ter existido é imensamente maior do que o de quem efetivamente chegou a existir. Somos algumas dessas combinações improváveis que, por um intervalo muito curto da história do Universo, estão aqui.

Visto dessa perspectiva, talvez a questão não seja apenas que iremos morrer, mas que tivemos a extraordinária oportunidade de existir. Só pode morrer quem teve a improbabilíssima oportunidade de estar vivo.

Mas os humanos deram ainda outro passo. Ao longo do desenvolvimento das civilizações, criamos instituições, isto é, arcabouços de regras, práticas e memórias capazes de transmitir informação entre gerações.

Criamos diferentes formas de arte, ciência, filosofia e leis. Com isso, a informação deixou de depender exclusivamente da memória dos indivíduos e passou a ser armazenada também em sistemas coletivos.

Uma universidade, por exemplo, pode atravessar muitas gerações de professores e estudantes. Todos os indivíduos que a constituem são substituídos, mas certas relações, práticas e conhecimentos permanecem.

Curiosamente, voltamos assim ao problema do artigo anterior. Um organismo permanece apesar da contínua substituição da matéria que o constitui. Uma cultura também pode permanecer apesar da substituição dos indivíduos que a carregam.

Em ambos os casos, permanência não significa imobilidade. Significa conservar certas relações enquanto seus componentes mudam.

Talvez esse seja um dos dribles mais interessantes que a vida encontrou para lidar com a morte. Não conseguimos impedir que os indivíduos desapareçam. Bactérias morrem, árvores morrem, pássaros morrem e nós também morreremos.

O que a vida conseguiu fazer foi ampliar as possibilidades de que certas informações atravessem esse desaparecimento. Primeiro, pelos genes; depois, por diferentes formas de memória e de comunicação e, no nosso caso, também pela linguagem, pela escrita e pela cultura.

Não conquistamos a imortalidade. Fizemos algo talvez mais interessante: aprendemos a prolongar a duração de algumas das relações e das informações que organizamos enquanto estamos vivos.

Um indivíduo desaparece, mas nem tudo o que passou por ele precisa desaparecer ao mesmo tempo. Talvez esse seja o verdadeiro drible da vida diante da morte.

Reconhecer a transitoriedade da vida não a banaliza. Ao contrário. Somos portadores de uma combinação genética única, uma entre um número quase inimaginável de combinações que poderiam ter existido.

Estamos aqui. E talvez nada seja mais extraordinário do que isso: o fato de estarmos vivos.

(*) Marcos Buckeridge é professor do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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