Se houver risco às nascentes e aos rios, o poder público deve ter coragem para restringir ou proibir o plantio.
Mato Grosso do Sul recebeu da natureza um patrimônio que poucos lugares do mundo possuem. O Pantanal, os rios de águas cristalinas, a diversidade de peixes, aves e animais silvestres e as paisagens de Bonito e Jardim atraem turistas, movimentam a economia e projetam o Estado internacionalmente.
Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que o Pantanal suportaria qualquer pressão, que os rios sempre teriam água e que os peixes continuariam se reproduzindo apesar da pesca, do desmatamento e do avanço das atividades econômicas.
Em Bonito, lavouras de soja dividem espaço com alguns dos mais importantes atrativos naturais do Estado. Em Jardim, o Rio da Prata, conhecido pela transparência de suas águas, enfrenta episódios em que trechos aparecem secos.
No Pantanal, pescadores relatam dificuldade crescente para encontrar determinadas espécies.
Não se trata de declarar guerra ao agronegócio ou à pesca. São atividades importantes para Mato Grosso do Sul. O problema começa quando o interesse econômico avança sobre áreas ambientalmente frágeis sem que o poder público imponha limites rigorosos.
Bonito não pode ser tratado como qualquer município produtor. Seu patrimônio principal está debaixo da terra, nas nascentes, nos rios e no complexo sistema de águas subterrâneas.
Uma atividade desenvolvida longe da margem de um rio também pode provocar erosão, carregar sedimentos, contaminar o solo ou alterar o equilíbrio hídrico da região.
Se estudos técnicos demonstrarem que determinadas lavouras ameaçam nascentes, rios ou áreas de recarga, o plantio precisa ser restringido — ou até proibido. Produzir é importante, mas preservar a fonte permanente de riqueza de uma região é indispensável.
O mesmo rigor precisa ser aplicado ao Pantanal. Se algumas espécies estão se tornando escassas, não faz sentido esperar o desaparecimento para agir. A adoção do pesque e solte, acompanhada de fiscalização séria e monitoramento científico, deve ser discutida sem medo.
Também é necessário combater a pesca ilegal e impedir que o custo da preservação recaia apenas sobre o pequeno pescador, enquanto grandes infratores continuam agindo.
Preservar exige regras claras, fiscalização constante e punição para quem degrada. Não basta promover campanhas, divulgar imagens bonitas ou vender Mato Grosso do Sul como paraíso ecológico.
O desenvolvimento não pode ser medido somente pela quantidade de hectares plantados, pelo volume da produção ou pelo número de turistas. Deve ser avaliado também pela qualidade dos rios, pela conservação das nascentes e pela capacidade de garantir que as próximas gerações ainda encontrem peixes no Pantanal e águas cristalinas em Bonito e Jardim.
Mato Grosso do Sul é, de fato, abençoado pela natureza. Mas bênção nenhuma resiste para sempre à omissão, à exploração sem limites e à falta de coragem do poder público.
Entre proteger o patrimônio coletivo e atender interesses particulares, o Estado não pode vacilar. Depois que o rio seca, o peixe desaparece e a água perde a transparência, discurso algum será capaz de devolver o que foi destruído.
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