Outro dia me dei conta de que não viverei para ver limpos os dois grandes rios que cruzam São Paulo.
Faltam 21 anos para eu cruzar a terceira margem, considerando-se a idade média de morte das pessoas da minha região, segundo o Mapa da Desigualdade da ONG Rede Nossa São Paulo.
Planos para despoluir o Tietê e seu principal afluente na capital, o Pinheiros, pulularam nas últimas cinco décadas. Muito dinheiro foi enterrado nisso, inclusive para rebaixar a calha do Tietê e minorar o problema das inundações.
No caso do Pinheiros, estamos dando há tempos com as capivaras n’água. Segundo medições mensais do programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, o Pinheiros manteve, de agosto de 2021 a agosto de 2025, nível "péssimo" de qualidade de água, o pior conceito possível, com a exceção solitária de outubro de 2022, quando evoluiu para "ruim.
O negócio, contudo, não é insolúvel, como mostraram as experiências recentes de Seul, Boston, Londres, Madri e Paris.
Segundo Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da SOS Mata Atlântica, daria para resolver o problema em, quem sabe, 15 anos. "Seria preciso começar com o básico, levar saneamento para quem não tem", disse à coluna.
O Pinheiros, que em boa parte de sua margem leste tem o metro quadrado mais valorizado de São Paulo, foi objeto de atenção especialíssima do governador João Doria (2019-2022).
Seguindo a previsível cartilha do político que ele dizia não ser, chegou a prometer entregá-lo limpo até o final de 2022.
(De brinde, para deleite talvez de alguns atores do mercado imobiliário, a Usina da Traição se tornaria a "Puerto Madero paulistana", em referência à região portuária revitalizada e gentrificada de Buenos Aires.).
Numa entrevista à revista Poder, que Deus a tenha, Doria falou que a despoluição do Pinheiros seria um de seus "três legados" quando deixasse o Bandeirantes. Enquanto isso não acontecia, publicava em suas redes sociais fotos dos raros peixes que apareciam na água.
Veronesi não vê evolução no programa sob o governo atual. O coordenador entende que, "se não houve retrocesso, houve estagnação". E afirma que, desde que a companhia de saneamento Sabesp foi privatizada, em 2024, parou a comunicação das providências de despoluição do Pinheiros.
A pedido da coluna, a Sabesp informou que, em 2023, havia cerca de 1,36 milhão de domicílios conectados a redes de esgoto na área do Pinheiros e de seus afluentes.
Desde então, até junho passado, 125. 700 novos domicílios foram incorporados.
Tente dizer isso para quem usa a ciclovia do rio Pinheiros, ou corre pelo parque linear Bruno Covas. Quem passou por ali na manhã de sábado(15), após a chuva, e viu um acumulado fabuloso de embalagens plásticas sobre o rio, teria certa dificuldade em acreditar.
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Em números
- A pedido da coluna, a Sabesp informou que, em 2023, havia cerca de 1,36 milhão de domicílios conectados a redes de esgoto na áre
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Esporte, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.