Na noite de sexta-feira (28 de agosto de 2026), o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi sabatinado pela TV Globo nos Estúdios Globo, no Rio, pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli. A entrevista — quinta da série com presidenciáveis — foi exibida após o Jornal Nacional, e não durante o telejornal, como nas campanhas anteriores.
A ULTRA NOTÍCIAS reuniu e cruzou as principais checagens independentes — G1 Fato ou Fake, Agência Lupa e Estadão Verifica (também republicada no MSN) — para mapear todos os pontos factuais discutidos, as divergências entre o discurso do candidato e o registro público, e onde houve afirmação falsa, enganosa, exagerada ou incompleta.
Veredito editorial em uma frase
A sabatina mesclou números corretos (abstenção de 2022; homenagem antiga a Adriano da Nóbrega; posição elevada do juro real brasileiro) com um volume relevante de falsidades e omissões — sobretudo sobre o filme Dark Horse e o Banco Master, a criação do Pix, o questionamento das urnas, o 8 de Janeiro, impostos sobre empresas e o papel humano nas mudanças climáticas. Não se trata de “um erro isolado”: o padrão é o de narrativas que minimizam investigações, reescrevem a própria trajetória e transferem mérito técnico do Estado para a figura do ex-presidente.
Painel rápido — o que foi checado
- FALSO / enganoso: prestação de contas “já apresentada” do Dark Horse; Pix “criado” por Bolsonaro; “jamais questionei urnas”; “ninguém se conhecia / sem armas” no 8/1; Brasil com empresas “mais tarifadas do mundo”; clima “só cíclico”, sem papel humano dominante; “nada contra” Adriano na época das homenagens; “único agente público” a defender o Brasil do tarifaço.
- FALTA CONTEXTO / exagerado: CPMI do Master; “patrocínio privado sem contrapartida”; taxa zero do Pix por ordem de Bolsonaro; Eduardo e o tarifaço; 22 mil cargos comissionados; Rouanet; Selic = juro real de 14%; reunião Lula–Vorcaro.
- VERDADEIRO (com nuance): assinatura de alguns requerimentos de CPI/CPMI do Master; abstenção > 32 milhões e diferença de ~2,1 milhões em 2022; data das homenagens a Adriano (2003/2005); Brasil entre os maiores juros reais; menção a pressões sobre sigilo de fonte no STF.
1. Dark Horse, Vorcaro e prestação de contas
O que Flávio disse: que a prestação de contas do filme teria sido feita (inclusive na Polícia Civil de SP, “por exigência” dele); que o dinheiro de Daniel Vorcaro seria “patrocínio” de obra privada; que perícia teria mostrado ausência de dinheiro público; que “já estava apresentada” a origem dos recursos.
Apuração: FALSO / FALTA CONTEXTO. O The Intercept revelou áudio em que Flávio pede recursos a Vorcaro; cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados via fundo americano Havengate. O laudo anexado a inquérito em SP, contratado pela defesa da produtora Go UP Entertainment, não rastreia a origem do dinheiro do fundo nem anexa notas/recibos da cadeia completa — ponto que a Polícia Federal considera essencial. O STF autorizou inquérito sob relatoria de André Mendonça; a PF apura possíveis corrupção passiva e lavagem. Chamar de “patrocínio privado sem contrapartida” omite o objeto da investigação: se houve vantagem indevida a agente público.
Divergência: o candidato responde como se a questão fosse “dinheiro público / Rouanet”, quando o foco jornalístico e policial é o fluxo Master → fundo EUA → filme e o papel dele na captação.
2. Lei Rouanet
O que Flávio disse: que não foi buscar dinheiro da Lei Rouanet para o filme.
Apuração: FALTA CONTEXTO (Lupa). Longas-metragens não se financiam via Rouanet; o mecanismo típico é o Fundo Setorial do Audiovisual. A fala evita o debate real (origem Vorcaro/Havengate). A sócia da produtora chegou a pedir Rouanet para outros eventos via Instituto Conhecer Brasil (pedido indeferido, segundo a Folha).
3. CPMI / CPI do Banco Master
O que Flávio disse: que “pedia muito” a CPMI e que já assinou.
Apuração: EXAGERADO / FALTA CONTEXTO. Ele assinou requerimentos de Carlos Jordy (PL) e Carlos Viana (PSD), em geral depois da exposição dos áudios. Deixou de assinar outros pedidos (Girão, Rogério Carvalho, Heloísa Helena/Fernanda Melchionna, conforme Estadão). G1 registra assinaturas em propostas mistas — o que é verdadeiro —, mas não autoriza a imagem de “maior defensor” da investigação.
4. Patrocínios Globo / Huck / Valor e reunião Lula–Vorcaro
O que Flávio disse: valores elevados de patrocínio do Master a Luciano Huck e a evento do Valor em Nova York; que Lula teria recebido Vorcaro em reunião “secreta” prometendo ajudar o banco via troca no BC.
Apuração: SEM EVIDÊNCIA / ENGANOSO (Estadão). Os R$ 120–160 milhões citados sobre o Domingão são estimativa de mercado, não comprovante. O summit Valor–EUA lista o Master como apresentador, sem prova de “R$ 50 milhões”. Sobre Lula: houve encontro fora da agenda; reportagens descrevem pedido de isenção técnica do BC e críticas a Campos Neto — não a promessa documentada de “resolver o Master”. Galípolo e Lula afirmaram tratamento técnico.
5. Pix: criação e “taxa zero por ordem de Bolsonaro”
O que Flávio disse: que o Pix foi criado no governo Bolsonaro e que não tem taxa porque o pai exigiu.
Apuração: FALSO na criação; FALTA CONTEXTO na taxa. O grupo de trabalho do BC começou em 2018 (Temer); o lançamento foi em novembro de 2020. Bolsonaro, em 2020, chegou a demonstrar desconhecimento do sistema. Operações de pessoa física são majoritariamente gratuitas por desenho do regulador; empresas podem pagar tarifas. Não há evidência pública de “veto pessoal” do presidente como causa jurídica da gratuidade.
Houve mentira? Sim, no sentido técnico-jornalístico: atribuir a criação do Pix a Bolsonaro é falso e reiterado — já desmentido pelo próprio BC e pelo Fato ou Fake em 2022.
6. Tarifaço dos EUA e Eduardo Bolsonaro
O que Flávio disse: que foi o “único agente público brasileiro” a defender o país nos EUA; que Eduardo “nunca pediu tarifas” contra empresas brasileiras.
Apuração: FALSO no “único”; FALTA CONTEXTO sobre Eduardo. Lula telefonou a Trump, Mauro Vieira esteve na Casa Branca, Lula visitou Washington com comitiva ministerial. Flávio discursou em audiência pública do USTR (espaço aberto a inscritos), sem mandato do Itamaraty. Eduardo admitiu discutir a possibilidade do tarifaço e celebrou a “transmissão” da narrativa a autoridades americanas, embora diga preferir sanções individuais.
7. Adriano da Nóbrega — homenagens e gabinete
O que Flávio disse: homenagem “há mais de 20 anos”, quando Adriano seria policial sem nada contra ele; depois, mãe/esposa no gabinete porque o PM estaria “preso injustamente”.
Apuração: data da primeira homenagem (2003) é VERDADEIRA; a tese de “nada contra ele” é FALSA. Já havia associação a operação letal em 2003; a Medalha Tiradentes (2005) veio com Adriano preso por homicídio; condenação em 1ª instância e absolvição posterior em novo júri. Esposa e mãe passaram pelo gabinete na Alerj; saíram em 2018 no contexto das rachadinhas (caso arquivado após anulação de provas).
8. 8 de Janeiro — “organização criminosa armada”
O que Flávio disse: que não havia organização; pessoas “não se conheciam”; “não foi encontrada uma arma”.
Apuração: FALSO / FALTA CONTEXTO. PF, PGR e STF descrevem organização prévia (caravanas, acampamento no QG, grupos no Telegram — “Festa da Selma”). A denúncia de organização criminosa armada não se limita ao dia 8: inclui planos anteriores (ex.: Punhal Verde e Amarelo). No Planalto, invasores roubaram armas não letais do GSI; operações posteriores apreenderam armas de fogo com financiadores/suspeitos. Flávio Dino já registrou armas brancas e improvisadas nos atos.
9. Anistia na Constituinte e Mauro Cid
O que Flávio disse: que Lula, FHC e “medalhões” teriam votado destaque retirando crimes contra o Estado Democrático da lista de crimes não anistiáveis; que depoimento de Cid dizendo que “nunca houve discussão de golpe” teria sido desconsiderado.
Apuração: ENGANOSO (Estadão). O Diário da Constituinte não sustenta a versão completa sobre FHC no destaque citado; a liderança do PT apoiou nuance sobre anistia, mas o relato misturou emenda e destaque. Sobre Cid: há registros da delação em que o ex-ajudante usa a palavra “golpe” e descreve a minuta; Moraes reafirmou a validade da colaboração.
10. Urnas e a empresa :Smartmatic
O que Flávio disse: que, tirando o equívoco sobre a Urna “jamais questionou” o processo eleitoral.
Apuração: FALSO. Em 2014 e 2018, questionou a lisura sem voto impresso e falou em desconfiança da urna; em 2021, alertou para “eleições sob suspeita”; em 2022, disse que “não houve fraude, mas podia ter acontecido”. A Smartmatic não fabricou as urnas brasileiras — ponto que ele próprio reconheceu como erro, mas que não apaga o histórico de questionamentos.
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11. Impostos, juros, cargos e abstenção
- Empresas “mais tarifadas do mundo”: FALSO (Tax Foundation 2025: Brasil cerca do 13º lugar, não o 1º).
- “Maior juro real do mundo, 14%”: Brasil de fato figura no topo do juro real (~9%+), mas 14%/14,25% é Selic nominal — FALTA CONTEXTO / verdadeiro só na liderança do juro real.
- “22 mil cargos comissionados”: EXAGERADO. MGI: ~5,7 mil cargos comissionados a mais desde o início do governo Lula; 22 mil misturam estimativa de servidores federais totais.
- Abstenção 2022 e diferença de ~2 milhões: VERDADEIRO (com nuance: diferença exata ~2,14 milhões no 2º turno).
12. Mudanças climáticas
O que Flávio disse: eventos extremos seriam sobretudo “cíclicos”, sem relação direta só com a influência humana.
Apuração: FALSO / ENGANOSO. IPCC e NASA afirmam aquecimento inequívoco por atividades humanas (GEE). Negar ou diluir esse consenso científico é desinformação climática clássica em campanha.
13. Sigilo de fonte e STF
O que Flávio disse: que fontes jornalísticas sofrem quebra de sigilo e busca e apreensão.
Apuração: VERDADEIRO no núcleo apontado pela Lupa (caso envolvendo busca determinada por Alexandre de Moraes e crítica da Abraji/CPJ). É um dos poucos pontos em que a crítica institucional encontra respaldo documental recente — sem validar o restante do discurso.
Mapa das divergências (discurso × fatos)
| Tema | Narrativa do sabatinado | Registro apurado |
|---|---|---|
| Dark Horse / Master | Prestação pronta; patrocínio privado inocente | Laudo incompleto; inquérito STF/PF sobre vantagem indevida |
| Pix | Criação bolsonarista | Projeto BC desde Temer; lançamento em 2020 |
| Urnas | “Jamais questionei” | Histórico documentado de desconfiança (2014–2022) |
| 8 de Janeiro | Multidão espontânea, sem armas | Organização prévia; apreensões e roubo no GSI |
| Tarifaço | Único defensor nos EUA | Diplomacia Lula/Itamaraty + audiência pública aberta |
| Clima | Ciclos naturais | Consenso IPCC: causa humana dominante |
| Adriano | Homenagem a PM limpo | Homenagem sob prisão/acusações; vínculo familiar no gabinete |
Houve mentira?
Em jornalismo de verificação, “mentira” não exige prova de dolo psicológico: basta afirmação factual incompatível com evidências públicas. Nessa régua, sim — Flávio mentiu ou induziu a erro em pontos centrais (Pix como criação do pai; jamais ter questionado urnas; prestação de contas do filme como resolvida; espontaneidade desarmada do 8/1; liderança absoluta de impostos sobre empresas; clima sem causa antrópica dominante; “único” defensor no tarifaço). Em outros, exagerou ou omitiu (CPMI do Master, cargos, Selic vs. juro real, Eduardo e tarifas). Houve também acertos pontuais (abstenção 2022; datas das homenagens; juízo real elevado; parte da crítica a sigilo de fonte).
O conjunto desenha uma estratégia de campanha: absolver investigações familiares, reescrever o passado eleitoral e apropriar-se de políticas de Estado (Pix, BC) como marca pessoal da família.
Como a ULTRA chegou a essas conclusões
Não reproduzimos a entrevista como “opinião”. Cruzamos as falas factuais com três núcleos de checagem que trabalharam na mesma noite/dia seguinte, com metodologias próprias e etiquetas explícitas. Onde houve divergência de selo entre veículos (ex.: CPMI como #FATO no G1 vs. “exagerado” na Lupa), a ULTRA adotou a leitura mais completa: assinou alguns pedidos, omitiu outros e chegou tarde.
Acompanhe a cobertura eleitoral no hub Eleições 2026.
Redação ULTRA NOTÍCIAS · checagem baseada em fontes públicas citadas · atualizado após a sabatina de 28/08/2026. A assessoria do candidato foi contatada pelos veículos checadores; respostas, se houver, constam nas páginas originais.