Entenda se a palavra 'saudade' só existe no português.
A ideia de que a palavra "saudade" é exclusiva da língua portuguesa e de que apenas quem fala português consegue sentir esse sentimento é bastante difundida. A palavra, de fato, tem uma forte relação com a identidade cultural dos países de língua portuguesa e é frequentemente descrita como difícil de traduzir.
Mas a saudade não é um sentimento exclusivo dos falantes de português. Outras línguas também possuem palavras usadas para descrever sentimentos semelhantes, ainda que não exista necessariamente uma tradução exata para "saudade.
Nós vamos encontrar línguas onde há uma palavra com sentido muito parecido com a saudade. Temos a palavra 'dor', do romeno. 'Dor' para eles não é 'dor', não é nossa dor, é nossa saudade.
É essa relação com algo que já não está conosco. Os galeses também têm, no País de Gales. Turco também tem. E há mais umas quantas línguas", afirma Marco Neves, professor da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal.
Segundo o professor, há uma curiosidade nesse tipo de comparação: falantes de diferentes línguas também podem considerar que a palavra usada por seu idioma para descrever esse sentimento é única e que a experiência que ela representa pertence apenas àquele povo.
A palavra está ligada à história do português.
A palavra "saudade" está intimamente ligada à identidade do português. Uma das associações feitas à palavra remete ao período das navegações e à separação entre aqueles que deixavam seus lugares de origem e os que permaneciam esperando por eles.
O termo também aparece na literatura de língua portuguesa. Está presente na obra de Camões e é tema de um conhecido poema de Fernando Pessoa.
Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem. Porque têm essa palavra. Para dizer que as têm.
No Brasil, a palavra também ganhou uma data própria: o Dia da Saudade, comemorado em 30 de janeiro.
A origem do termo, no entanto, não é consenso. Alguns linguistas afirmam que "saudade" vem do latim "solitas". Há também a possibilidade de influência de outras línguas.
Ela aparece tardiamente. Estamos a falar do século 16, portanto é uma palavra que não está nos registros medievais da língua, não está na poesia medieval. Pelo menos, que se conheça.
Portanto, aparece tardiamente", explica Neves.
Mas é bem provável, pela sua forma, e também porque existe uma palavra do árabe, no norte da África, muito parecida e com sentido relativamente próximo, é possível que essa palavra tenha influenciado o significado e a forma da palavra", afirma.
A dificuldade de encontrar uma tradução exata não significa que outras línguas não tenham formas de expressar sentimentos semelhantes. No alemão, por exemplo, há pelo menos quatro palavras que podem se aproximar de diferentes sentidos de "saudade": "Sehnsucht", "Heimweh", "Fernweh" e o verbo "Vermissen.
Nenhuma delas, porém, corresponde exatamente à palavra portuguesa.
Heimweh", por exemplo, seria uma saudade específica do lugar de onde vim ou ao qual pertenço. "Fernweh" seria a saudade de outro lugar, uma certa vontade de estar longe.
E "Sehnsucht" é um tipo de anseio profundo por algo que não está ao meu alcance.
Essa variedade de palavras ajuda a explicar por que a tradução pode ser complicada. Mas isso não significa que um falante de alemão precise pensar em todas essas possibilidades antes de usar uma delas.
Muitas vezes as pessoas acreditam que uma língua tem uma palavra e outra não tem lá nada. O que tem são várias hipóteses para traduzir aquilo que outra língua tem numa só palavra.
E são essas várias hipóteses que complicam a vida ao tradutor", afirma o professor.
Dizer que "saudade" é uma palavra intraduzível ou que apenas os falantes de português são capazes de sentir esse sentimento, portanto, é um mito.
A existência de palavras semelhantes em outras línguas mostra que sentimentos relacionados à ausência, à distância, à lembrança ou ao desejo por algo que não está presente também podem ser expressos de diferentes maneiras em outros idiomas.
Isso não diminui, porém, a importância cultural que a saudade adquiriu na língua portuguesa.
Damos muita importância à saudade, repetimos esses mitos, como dizia Fernando Pessoa, 'o mito é um nada que é tudo'. Quer dizer, o mito é um mito, não é verdadeiro.
Mas tem a sua importância cultural e devemos tentar percebê-la", afirma Neves.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Educação, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.