Ela domina uma das tecnologias mais promissoras do mundo. A adoção cresce em ritmo impressionante, milhões de consumidores aderem à novidade e o mercado potencial parece praticamente ilimitado.
A empresa possui patentes importantes e está no centro dessa transformação.
Não é apenas uma promessa. A tecnologia já está mudando a vida das pessoas e transformando a maneira como elas recebem informação e entretenimento. Esta companhia é uma das grandes protagonistas dessa revolução.
Seria natural imaginar que, depois de uma valorização dessa magnitude, o interesse diminuísse. Aconteceu o contrário. A qualidade da empresa, sua liderança tecnológica e a velocidade de adoção de seus produtos e serviços faziam parecer que o crescimento só estava começando.
A pergunta para muitos investidores já não era se valia a pena comprar. Era outra: valia a pena correr o risco de ficar de fora.
Você vê uma empresa liderando uma revolução tecnológica. A cada ano, mais pessoas adotam seus produtos. As perspectivas continuam melhorando e quem decidiu não comprar no passado assistiu à ação subir repetidamente.
Enquanto isso, aqueles que acreditaram na empresa acumularam ganhos extraordinários.
O preço já multiplicou mais de 100 vezes. Você ficaria de fora.
Antes de responder, pense também em outra coisa: em qual empresa você pensou enquanto lia esses primeiros parágrafos.
Se algum nome atual veio à sua cabeça, esse era justamente o objetivo. Porque a combinação entre uma empresa excepcional e uma ação que não para de subir exerce uma força poderosa sobre nossas decisões.
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Depois de acompanhar uma valorização extraordinária, começamos a acreditar que ela contém uma informação que nós talvez ainda não tenhamos percebido. Se a ação continuar subindo, se a tecnologia continuar avançando e se a empresa continuar entregando resultados, ficar de fora começa a parecer mais arriscado do que entrar.
É aí que nossos vieses trabalham contra nós. Temos dificuldade de imaginar um futuro muito diferente do presente. Damos peso excessivo ao que aconteceu recentemente e projetamos para a frente tendências que acabamos de observar.
Depois de alguns anos de crescimento extraordinário, começamos a tratar o extraordinário como normal.
Mas talvez o maior erro seja outro: confundir liderança atual com permanência.
Quando uma companhia domina seu setor, cresce rapidamente e possui vantagens que os concorrentes parecem incapazes de reproduzir, é difícil imaginar que um dia ela possa perder essa posição.
Aos poucos, uma constatação parece razoável. O conhecimento de que ela é uma empresa excepcional hoje transforma-se em uma conclusão muito mais arriscada: esta continuará excepcional por décadas.
Agora posso revelar a empresa. Provavelmente você não a conhece. A companhia que descrevi foi a Radio Corporation of America, a RCA, fundada em 1919. E o ano em que sua ações atingiram o pico foi 1929.
O rádio estava no centro de uma das maiores revoluções tecnológicas daquele período. A RCA ocupava posição privilegiada em patentes, produtos e transmissão e havia se tornado uma das grandes estrelas de Wall Street.
Portanto, os investidores não estavam errados ao acreditar no potencial daquela inovação. O rádio realmente mudaria o mundo. É justamente isso que torna essa história tão interessante.
A tecnologia era real. A adoção era real. A vantagem da companhia era real. E a RCA continuaria sendo uma empresa relevante durante décadas. Ainda assim, depois do crash de 1929, suas ações sofreram uma queda brutal de mais de 80% e nunca mais voltaram para o preço anterior.
Ou seja, era possível estar certo sobre a tecnologia, certo sobre a qualidade da empresa e ainda assim estar errado sobre o investimento.
Quase cem anos depois, continuamos sujeitos ao mesmo comportamento. Em cada geração surge uma companhia que parece diferente de todas as anteriores. Ela domina uma nova tecnologia, cresce mais rapidamente que as demais e possui vantagens competitivas que parecem impossíveis de superar.
Depois de alguns anos de valorização, a dúvida deixa de ser se ainda vale a pena comprá-la. Passa a ser se podemos nos dar ao luxo de ficar de fora.
O curioso é que nossos avós tiveram a deles. Nossos pais tiveram outras. E nós temos as nossas.
Mudam as tecnologias, mudam os nomes e mudam as histórias. O que parece não mudar é nossa convicção de que, desta vez, encontramos a vencedora definitiva.
Isso não significa que devemos evitar empresas excepcionais ou vender uma ação simplesmente porque ela valorizou muito. Algumas companhias permanecerão vencedoras por décadas.
O problema é acreditar que conseguimos saber antecipadamente quais serão elas e, principalmente, que, depois de encontrá-las, não precisamos mais acompanhar o investimento.
Empresas mudam. Tecnologias mudam. Concorrentes aparecem. Vantagens competitivas desaparecem. E até uma companhia que continua excelente pode proporcionar um investimento ruim quando o preço pago já pressupõe um futuro quase perfeito.
Investir para o longo prazo, portanto, é muito diferente de comprar e esquecer. Longo prazo exige paciência, mas não dispensa acompanhamento. Nenhuma empresa recebe o direito de permanecer vencedora para sempre.
Agora volte à companhia em que você pensou no início deste artigo. Talvez ela realmente continue excepcional pelas próximas décadas. Mas os investidores da RCA também tinham excelentes argumentos para acreditar nisso em 1929.
A questão talvez não seja se você teria coragem de comprá-la. É mais incômoda: depois de vê-la multiplicar tantas vezes enquanto todos falam sobre o futuro extraordinário que ainda está por vir, você teria coragem de ficar de fora.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.