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Economia

Você está buscando segurança financeira no lugar errado?

A falta de uma rota pode transformar a busca por segurança em mais risco

4 min de leitura
Economia — imagem padrão

Quando entramos em um avião, sabemos que imprevistos podem acontecer. Ainda assim, embarcamos com tranquilidade porque existe uma rota definida, combustível calculado, procedimentos para situações adversas e até aeroportos alternativos caso o destino não possa ser alcançado.

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A segurança não vem da certeza de que nada dará errado, mas da preparação para o que pode acontecer. Com a vida financeira ocorre algo parecido.

Muitas pessoas têm medo de investir porque não sabem se estão assumindo risco demais. Outras adiam a compra de um imóvel por receio de comprometer o patrimônio.

Há quem queira se preparar para a aposentadoria, mas não saiba quanto guardar. O mesmo ocorre com seguros, sucessão e até com decisões de consumo. A dúvida parece estar em cada escolha.

Muitas vezes, porém, ela começou antes: não sabemos exatamente aonde queremos chegar.

Sem planejamento, cada decisão precisa ser julgada isoladamente. Devo investir agora? Posso comprar este imóvel? Estou poupando o suficiente? Preciso de seguro.

Posso assumir esta dívida? Como nenhuma dessas perguntas tem uma resposta universal, buscamos uma certeza que dificilmente encontraremos. E, diante da insegurança, podemos ficar paralisados ou, pior, tomar uma decisão apenas porque ela nos transmite uma sensação de segurança.

Esse é um paradoxo importante. Na tentativa de evitar riscos, podemos aumentá-los. Alguém pode concentrar grande parte do patrimônio em um imóvel porque considera tijolo seguro.

Pode evitar investimentos de longo prazo por medo das oscilações. Pode deixar de contratar uma proteção porque não sabe se ela realmente é necessária. Ou simplesmente adiar por anos a preparação para a aposentadoria porque ainda não encontrou o investimento que considera ideal.

O planejamento muda a ordem das perguntas. Primeiro definimos objetivos, prazos e riscos que podemos suportar. Depois escolhemos os instrumentos. Se sabemos quanto precisamos acumular para a aposentadoria, conseguimos estimar quanto poupar e qual retorno buscar.

O investimento deixa de ser o começo da discussão e passa a ser consequência do plano.

O mesmo deveria ocorrer com a proteção. Há pelo menos dois eventos para os quais sabemos que precisamos nos preparar: o momento em que a renda do trabalho diminuir ou terminar e a nossa morte.

Não sabemos quando acontecerão, mas sabemos que precisam entrar nas contas. Há ainda eventos incertos, como uma doença grave ou invalidez, capazes de reduzir a renda e aumentar as despesas justamente quando nossa capacidade de reação está menor.

É aí que seguros de vida ou de doenças graves fazem sentido. Não porque todos precisem da mesma cobertura, mas porque, dependendo da estrutura familiar e patrimonial, uma indenização pode impedir que o patrimônio construído durante décadas seja consumido em poucos anos, justamente em um momento de maior fragilidade.

A pergunta, portanto, não deveria começar por qual seguro contratar, mas por quanto tempo e como o patrimônio e a família suportariam se aquela renda ou parte do patrimônio desaparecesse.

Com a aposentadoria ocorre algo semelhante. Muita gente passa tempo demais procurando um bom plano de previdência sem antes construir um plano para a previdência.

A diferença parece pequena, mas é enorme. Antes de escolher qualquer produto ou investimento, é preciso estimar a renda desejada no futuro, quando ela será necessária e quanto deverá ser acumulado até lá.

Planejar também ajuda a evitar o movimento contrário: gastar ou se endividar simplesmente porque é possível. Uma prestação pode caber no orçamento e ainda assim afastar alguém de seus objetivos.

Um imóvel pode parecer uma oportunidade e comprometer a liquidez necessária para outros planos. Uma decisão pode ser boa isoladamente e ruim quando colocada dentro da vida financeira inteira.

Planejamento, evidentemente, não elimina imprevistos. Mercados caem, carreiras mudam, famílias crescem, doenças aparecem e prioridades se transformam. Um plano financeiro precisa ser revisto justamente porque a vida não segue uma planilha.

Sua função não é prever tudo, mas preservar patrimônio e escolhas quando nossa capacidade de reação estiver menor.

Talvez por isso procuremos segurança financeira no lugar errado. Buscamos o investimento que não cai, o imóvel que não perde valor ou a decisão individual da qual nunca nos arrependeremos.

Nada disso existe. Segurança financeira não é ter certeza de que nada dará errado. É saber que, se algo der errado, você não precisará começar a decidir tudo naquele momento.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.

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