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Economia Revisado por ULTRA AI

Quando a família de um presidente dos EUA quase governou um pedaço do atual território brasileiro

Muito antes de Trump, interesses privados ligados à família do presidente Theodore Roosevelt já se confundiam com a política externa dos EUA

6 min de leitura
Economia — imagem padrão

Desde que é presidente, o patriarca Donald Trump incita a sua estimada estirpe familiar a banquetear-se com as prerrogativas e os instrumentos do Estado para prosperarem os seus interesses privados e corporativos.

Nesta economia familiar, o genro Jared Kushner participa de negociações internacionais no Oriente Médio enquanto permanece à frente da Affinity Partners, gestora de investimentos financiada em larga medida por capital de fundos soberanos do Oriente Médio.

Coexistem assim, no mesmo indivíduo e com invejável bonomia, o emissário do presidente dos EUA, o genro do presidente e um gestor de fundos de investimento.

É tentador julgar esta promiscuidade americana entre o poder e o proveito como um vício original e exclusivo da era Trump. A tradição é mais antiga e passa pelo Brasil.

No início do século 20, as selvas do Acre eram bolivianas de direito, mas brasileiras de fato, povoadas por multidões que ali extraíam o leite da borracha. O território tinha adquirido enorme valor econômico.

Sem capacidade para governar efetivamente a região remota, La Paz decidiu entregar sua administração por 30 anos a um consórcio de investidores estrangeiros, o Bolivian Syndicate, também conhecido administrativamente como Bolivian Syndicate of New York City.

Reunia as empresas Cary & Withridge, United States Rubber Company e Export Lumber, além de várias instituições financeiras.

O Syndicate recebeu prerrogativas normalmente reservadas a governos. Poderia administrar receitas, explorar recursos, controlar atividades econômicas e organizar instrumentos próprios de segurança, como manter uma polícia e uma força armada.

Um Estado dentro do Estado. Entre os investidores estava William Emlen Roosevelt, banqueiro de Nova York, primo próximo e conselheiro financeiro de Theodore Roosevelt, então presidente dos EUA.

Tal como, no primeiro governo Trump, o conselheiro jurídico da Casa Branca, Don McGahn, se inquietou com a viscosidade que unia os negócios de Kushner às suas funções públicas, também, em 1902, o secretário de Estado John Hay discutiu o caso diretamente com Roosevelt através de uma carta disponível na Biblioteca do Congresso.

Escreveu Hay que caso o governo americano acudisse com excessivo zelo ao Bolivian Syndicate e aos seus "very prominent citizens of New York", o Brasil poderia concluir que a empresa não passava de um instrumento do próprio governo americano.

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A Bolívia fazia essa leitura. Documentos da época mostram que seu representante em Washington acreditava que os promotores do sindicato poderiam contar com apoio americano se encontrassem resistência.

A Bolívia tinha aberto o seu território a um grupo privado estrangeiro porque queria o apoio da República americana na questão do Acre. Esse respaldo implícito era parte do valor do negócio.

Foi justamente isso que alarmou o Brasil. Theodore Roosevelt era, tal como Trump, um diletante da força e um intervencionista convicto. Nos anos seguintes, apadrinharia a separação do Panamá da Colômbia e formularia o famoso Corolário à Doutrina Monroe, reivindicando para Washington o papel de xerife de todo o continente.

Após visita ao Departamento de Estado americano, em 1902, para tentar entender a situação, o embaixador brasileiro em Washington, Assis Brasil, escreveu um ofício ao ministro das Relações Exteriores: "Os homens de dinheiro podem muito neste país; e os do Sindicato o são; eles conseguiram (provavelmente do presidente) que ao menos uma pressão moral fosse exercida sobre o Brasil.

A grande questão desses homens não é tanto de levar adiante a empresa como de ganhar dinheiro.

Na região acreana sob soberania boliviana, a realidade era tensa. Havia levantes, tropas improvisadas, seringalistas armados, e governos que mandavam pouco, lançando a região numa atmosfera densa de confusão e ameaça.

Vendo a crise azedar para lados perigosos, o industrioso Emlen Roosevelt apressou-se a escrever ao primo presidente. Queria desatar os laços com o Bolivian Syndicate para —como reza a correspondência guardada nos arquivos de Theodore Roosevelt— manter o seu nome longe dos jornais.

No arquivo, encontramos várias outras cartas trocadas entre os dois sobre a Bolívia e o Brasil, em tom de intimidade familiar.

O nó górdio acabou desatado por José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco. Ao assumir o Ministério das Relações Exteriores, em dezembro de 1902, no governo do presidente Rodrigues Alves, cuidou logo de retirar o Bolivian Syndicate da equação geopolítica.

Antes mesmo de entrar efetivamente em funções, o consórcio conformou-se em abrir mão de todas as suas prerrogativas territoriais pela módica quantia de 110 mil libras esterlinas.

E quem foi o intermediário do negócio? Nada menos que a ilustre família Rothschild —a mesma casa bancária que já lucrara generosamente com a própria independência do Brasil, emprestando-lhe o capital necessário para comprar a alforria do Reino de Portugal, como tive oportunidade de recordar nesta coluna.

Só depois de neutralizada essa presença de um grupo privado pôde o Brasil conduzir o litígio diretamente com o governo da Bolívia, selando a paz definitiva com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em novembro de 1903.

Habituámo-nos a narrar a incorporação do Acre como uma epopeia heroica —um levante popular de bravos brasileiros sob o comando de Plácido de Castro e um triunfo glorioso da diplomacia nacional.

A narrativa não é falsa, mas é incompleta. O Brasil pagou para arrematar a questão, primeiro ao sindicato e depois dois milhões de libras à Bolívia.

Mas o nepotismo não é uma tradição exclusiva de alguns presidentes americanos. Na história brasileira, tampouco escassearam primos, filhos e genros a descobrir que a proximidade do poder pode ser rentável.

O próprio Rio Branco levou o filho Raul para o seu gabinete, onde trabalhou entre 1905 e 1911. E Rodrigues Alves também nomeou o próprio filho, Francisco de Paula, secretário da Presidência assim que tomou posse, em novembro de 1902.

São as ironias da história e o nepotismo faz parte dela.

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Em números

  • Formou-se em abrir mão de todas as suas prerrogativas territoriais pela módica quantia de 110 mil libras esterlinas

Fontes

Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • Folha Mercadolink

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