O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) determinou o corte na geração distribuída de energia neste domingo (23) para evitar a sobrecarga da rede. É a segunda vez que o órgão aciona o mecanismo neste ano para equilibrar a carga de energia no sistema.
O sistema elétrico precisa manter equilíbrio permanente entre a energia produzida e a consumida. Quando a geração fica muito acima da demanda, aumenta o risco de desligamento automático de equipamentos.
O plano emergencial atinge usinas de geração distribuída do tipo 3. Essa categoria inclui pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e fontes eólicas e solares de menor porte ligadas às distribuidoras.
Geralmente, esses empreendimentos atuam como agentes de geração e comercialização.
As distribuidoras de energia foram informadas no sábado (22) de que seria necessário acionar o plano de gestão de excedentes. O ONS não tem controle sobre essas fontes e, por isso, precisa acionar as companhias locais.
Segundo o pedido, os cortes deveriam começar às 11h e seguir até as 13h30.
O corte deste domingo não envolveu a chamada MMGD (micro e minigeração distribuída), que é a modalidade em que o próprio consumidor residencial ou empresarial produz sua energia e pode vender o excedente para o sistema.
No Brasil, o tipo mais comum é com painéis fotovoltaicos nos telhados.
No entanto, o acionamento do plano emergencial está diretamente ligado a esses projetos. O aumento no volume dessas instalações domésticas ou de pequeno porte tem sobrecarregado a rede de distribuição.
O recurso é indicado para manter o equilíbrio do sistema frente à geração da micro e minigeração distribuída, combinada a uma carga menor por causa do fim de semana", disse o ONS em comunicado.
A MMGD vive uma expansão acelerada no Brasil, saltando de menos de 1 GW em 2018 para mais de 50 GW agora. Em função desse crescimento, a modalidade passou a ser responsabilizada por agravar problemas do sistema elétrico, como o "curtailment" (o corte em fontes renováveis).
O ONS não divulgou quais fatores provocaram o acionamento do plano emergencial. Uma das hipóteses tem a ver com o clima e o dia.
O domingo foi ensolarado em muitos locais e com temperatura amena. Isso aumenta a produção de energia solar sem que a demanda acompanhe. Por ser inverno, o uso de ar-condicionado é menor.
A Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) disse em nota que é "urgente e necessário o aprofundamento de políticas públicas que possam reorganizar o sistema e solucionar os gargalos existentes para evitar apagões.
O mecanismo acionado para este domingo faz parte de um plano emergencial de cortes implementado pelo operador após aprovação pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) em 2025.
O operador já realiza cortes de geração há anos, em eólicas e em grandes usinas solares, prática chamada de curtailment. Em 2025, o Brasil deixou de usar cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida por suas usinas, e os cortes são o principal motivo.
Essas grandes produtoras são integradas ao sistema e, por isso, o ONS consegue manejar a carga. Com o aumento da geração distribuída nos últimos anos, foi necessário estender a regulação para esses produtores de menor escala, que são ligados à rede por meio das distribuidoras.
O ONS prevê começar a testar ainda neste ano cortes automáticos de geração distribuída solar remota para proteger o sistema. O piloto deve afetar a geração por fazendas solares, aquelas que produzem energia elétrica em um lugar e depois vendem essa produção por meio do crédito a consumidores.
CORTE ALERTA SOBRE O SISTEMA ESTAR NO LIMITE.
O episódio deste domingo é considerado relevante por especialistas, porque indica que foi preciso acionar as últimas ferramentas à disposição para garantir a segurança do sistema elétrico nacional.
Barbara Rubim, presidente do conselho da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), lembra que existem dois níveis de corte hoje.
O primeiro envolve a redução na geração das usinas centralizadas, empreendimentos sobre os quais o ONS exerce controle. São usinas solares e eólicas de maior porte ligadas à rede de transmissão e que estão no centro das discussões sobre o curtailment.
O segundo nível é cortar a geração via distribuidoras, como no plano acionado neste domingo. Esse procedimento atinge usinas ligadas à rede de distribuição.
O terceiro nível é o apagão. É como se tivéssemos três camadas, e acionamos duas. O risco é continuar tendo cada vez mais geração e chegar um momento em que os cortes passíveis de serem realizados não são suficientes para igualar a energia ofertada com a energia demandada.
Se isso acontecer, vamos ter um apagão no país", diz Barbara.
Segundo ela, o corte emergencial deste domingo acende um alerta e é sintomático da necessidade de olhar para o planejamento do setor de maneira conjunta.
Se já tivéssemos realizado um leilão de baterias, feito um trabalho transversal entre vários ministérios para atrair carga —seja via data centers, seja industrialização—, ou tomado medidas estruturantes para estimular a adoção de baterias pelos consumidores, sem dúvida alguma não estaríamos passando por essa necessidade de corte.
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.