O primeiro grande discurso de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve (Fed) transformou-se em um teste inesperado para seu novo estilo de comunicação, mais enxuto e menos explícito.
O desafio de Warsh é responder às críticas de que não tem sido suficientemente transparente sobre sua visão da economia sem abrir mão de sua determinação de evitar sinalizações detalhadas ao mercado sobre os próximos passos da política monetária.
O simpósio anual do Fed em Jackson Hole, no estado de Wyoming, onde Warsh discursará na sexta-feira, oferece a oportunidade de encontrar esse equilíbrio.
A pressão vinda de Wall Street aumentou após uma entrevista coletiva considerada confusa no mês passado, que desencadeou uma forte reação negativa no mercado de títulos.
Desde então, analistas e economistas vêm criticando o dirigente por, na visão deles, levar longe demais a tentativa de reduzir a comunicação do banco central.
A situação ficou ainda mais delicada na semana passada, quando o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou inesperadamente um programa de recompra de dívida pública para tentar reduzir os rendimentos dos títulos de longo prazo.
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Isso não significa que o novo presidente do Fed deva pedir desculpas.
Defensores de Warsh argumentam que a reação dos mercados à coletiva de julho foi exagerada. As expectativas de inflação, que deveriam subir caso a confiança no Fed fosse abalada, permaneceram relativamente estáveis e compatíveis com a meta de 2% da instituição.
Além disso, eles apontam que os juros dos títulos vêm sendo impulsionados por fatores como o aumento do endividamento do governo e das empresas, e não apenas pela comunicação do banco central.
Segundo Randall Kroszner, ex-diretor do Fed e professor da Universidade de Chicago, Warsh está apenas iniciando uma reformulação na forma como o banco central se comunica.
Outros dirigentes do Fed também rejeitaram as críticas de que a credibilidade da instituição teria sido prejudicada.
A presidente do Fed de São Francisco, Mary Daly, afirmou em entrevista à Bloomberg Television que não vê riscos à confiança na autoridade monetária.
Já a presidente do Fed de Boston, Susan Collins, declarou nesta terça-feira que apoia a manutenção dos juros nos níveis atuais, desde que haja progresso adicional no combate à inflação rumo à meta de 2%.
Após assumir o comando do Fed em maio, Warsh ganhou elogios ao enfatizar repetidamente seu compromisso com a meta de inflação de 2%.
Durante um depoimento ao Congresso em julho, ele afirmou que o banco central não teria tolerância com a inflação, o que ajudou a reduzir temores de que, por ter sido indicado por Donald Trump, resistiria a elevar juros se necessário.
Seu primeiro grande tropeço ocorreu após a reunião de política monetária de julho.
Embora a decisão de manter os juros inalterados já fosse amplamente esperada, a entrevista coletiva posterior desagradou o mercado.
Observadores apontam três problemas principais.
Falta de explicação clara para a manutenção dos juros.
Recusa em tratar futuras altas de juros como uma possibilidade explícita.
Comentário considerado ambíguo sobre a meta de inflação de 2%, levando alguns investidores a especular sobre uma possível revisão dessa meta em janeiro.
O resultado foi a pior venda de títulos do Tesouro americano em anos. Após a entrevista, o rendimento dos Treasuries de 30 anos atingiu o maior nível desde 2007.
A pressão sobre os títulos americanos não pode ser atribuída apenas ao Fed.
Investidores também estão preocupados com o crescimento da dívida pública dos EUA, enquanto empresas de tecnologia elevam a demanda por capital para financiar investimentos em inteligência artificial.
Além disso, o aumento dos rendimentos de títulos soberanos na Europa e no Japão mostra que as preocupações vão além da economia americana.
Outro ponto de atenção é o plano de Bessent para recomprar títulos de longo prazo. Caso seja financiado por emissões maiores de papéis de curto prazo, a iniciativa pode interferir em uma área tradicionalmente associada à atuação do Fed.
Dados divulgados desde a reunião de julho indicam uma desaceleração da atividade econômica, o que pode reduzir a necessidade de novas altas de juros.
As vendas no varejo registraram em julho a maior queda em mais de um ano, enquanto a inflação subjacente permaneceu contida.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho mostrou sinais de enfraquecimento: houve cortes inesperados de vagas e revisões para baixo nos números de contratação dos meses anteriores.
Mesmo assim, muitos analistas acreditam que Warsh precisará responder às críticas em Jackson Hole.
Para Ellen Meade, professora da Universidade Duke e ex-assessora do Fed, o presidente da instituição terá de encontrar um equilíbrio entre reduzir a orientação futura ao mercado e preservar a transparência.
Fontes
Informação baseada em material público de InfoMoney, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.