O Vale do Silício está obcecado pela ideia de bom gosto ("taste"). Se a inteligência artificial permite a qualquer pessoa fazer qualquer coisa, qual será então o diferencial.
A resposta do momento é justamente o "bom gosto". Não sou eu quem está dizendo isso. É gente como Greg Brockman, presidente da OpenAI, e colegas que gostam de repetir que "bom gosto é a nova habilidade essencial" do presente.
Já vimos isso acontecer no passado. Com a revolução industrial na Inglaterra, a produção industrial encheu os objetos do cotidiano de ornamentos baratos e grotescos (provavelmente o primeiro caso de "slop", nesse caso, industrial).
A reação veio rápido. A ideia de "bom gosto" virou projeto nacional na Inglaterra. Em 1852 a Inglaterra já tinha suas famosas escolas de design e o Museu Victoria & Albert, com o objetivo de "educar designers, fabricantes e o público" para melhorar a estética da indústria britânica.
Em outras palavras, perceberam que mau gosto dá ruim. Fenômeno similar à revolta contra conteúdo descarado feito com IA neste momento.
No mundo de hoje com a IA a ideia de bom gosto tem pelo menos três definições. A capacidade de saber escolher o que deve ser feito dentre as infinitas possibilidades que a IA permite.
Ter capacidade e julgamento sobre o que cortar e o que não fazer. Além do bom gosto como capital social e veículo de status, como na formulação de Pierre Bourdieu.
Tudo isso lembra a personagem principal do livro "Reconhecimento de Padrões", de William Gibson, que viajava a pedido das marcas mais famosas para dizer se gostava ou não de um design.
A proposta do Vale do Silício é que todos nós sejamos como ela. Ou seja, estamos vivendo em clima de ficção distópica.
A versão de carne e osso dessa personagem é o produtor musical Rick Rubin, que já produziu bandas como Red Hot Chili Peppers e Metallica. Ele é hoje adorado no Vale do Silício e chamado para dar sua opinião em todo tipo de projeto.
Ele mesmo afirma que "não tem nenhuma habilidade técnica, mas tem alta confiança no seu próprio gosto.
O que acho disso? A questão do gosto é uma constante. Está sendo usada hoje mais como uma desculpa para facilitar a captação de recursos e para desviar o olhar em uma época de alta ansiedade.
Designers como o japonês Mizuno Manabu enxergam o gosto como algo "não-quantificável". E para os chineses, o gosto não diz respeito apenas ao objeto, mas à capacidade de controlar (e descontinuar) processos industriais inteiros.
Já era gosto visto como um "artesanato cognitivo.
Já vem tentativas de industrializar o bom gosto pela própria IA.
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Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.