Entenda o que de fato mudou na legislação tributária nacional, como funciona a fiscalização contra fake news e os canais oficiais para denunciar propaganda eleitoral enganosa.
A Instrumentalização Política do Sistema Tributário
Com o avanço do calendário eleitoral, a pauta econômica tornou-se o centro dos debates políticos e das campanhas na televisão, rádio e redes sociais. Entre os tópicos de maior apelo popular, a legislação tributária brasileira vem sendo frequentemente utilizada em peças publicitárias de forma descontextualizada. Uma das narrativas mais difundidas em propagandas recentes afirma categoricamente que "27 novos impostos foram criados para prejudicar a população", uma simplificação que induz o eleitor ao erro ao ignorar a natureza, a finalidade e a origem das alterações fiscais promovidas entre 2023 e 2026.
Especialistas em direito tributário e checadores de fatos alertam que a disseminação de dados fiscais sem o devido contexto técnico configura desinformação, uma estratégia que busca manipular a percepção pública aproveitando a complexidade do sistema de impostos do país.
O Que É Fato e O Que É Distorção na Pauta dos "27 Impostos"
Para compreender a realidade por trás das alegações veiculadas nas redes e em guias eleitorais, é necessário separar revisões orçamentárias de fato da criação indiscriminada de novas taxas. A lista de 27 medidas frequentemente citada por opositores e analistas engloba um conjunto heterogêneo de decisões administrativas, estaduais e federais com objetivos muito distintos:
Não São 27 Novos Impostos: A legislação brasileira não criou 27 novos tributos. O sistema tributário nacional permanece estruturado sob os mesmos impostos previstos na Constituição. O que ocorreu foi um conjunto de reajustes de alíquotas, recomposição de impostos zerados temporariamente em gestões anteriores e ajustes em tarifas de importação.
Reonerações e Isenções: Grande parte das medidas refere-se ao fim de renúncias fiscais temporárias — como a volta da cobrança do PIS/Cofins e da CIDE sobre combustíveis —, e não à invenção de novas cobranças.
Tributação de Alta Renda e Empresas: Diversas alterações visam o aumento da arrecadação sobre nichos específicos de alta renda ou setores regulados, como a taxação de fundos exclusivos, rendimentos em offshores e empresas de apostas esportivas (bets), que não incidem sobre o consumo da maioria da população.
A Reforma Tributária (Unificação de Impostos): As mudanças decorrentes da Reforma Tributária (como a implantação da CBS e do IBS) não representam aumento cumulativo de tributos, mas sim a substituição e simplificação de cinco impostos antigos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) por um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual.
Guia Didático: Entenda o que Aconteceu com Cada Tributo
Para facilitar o entendimento de todos os leitores, dividimos as 27 medidas em termos simples: Aumentou, Voltou a ser cobrado (Reonerado), Criado do zero ou Unificado/Simplificado (Substituição).
| Tributo / Medida | O que aconteceu na prática? | O que isso significa para você? | Tipo de Mudança |
| 1. PIS/Cofins (Gasolina/Etanol) | Voltou a ser cobrado | Acabou a isenção temporária do imposto federal no posto. | Reoneração |
| 2. CIDE (Gasolina) | Voltou a ser cobrado | Taxa federal sobre combustíveis que havia sido zerada retornou. | Reoneração |
| 3. PIS/Cofins (Diesel/Biodiesel) | Voltou a ser cobrado | Fim do desconto federal no combustível do transporte de cargas. | Reoneração |
| 4. ICMS Monofásico (Combustíveis) | Aumentou valor fixo | Estados padronizaram um valor fixo em reais cobrado por litro. | Substituiu cálculo antigo |
| 5. Imposto de Exportação (Petróleo) | Criado (temporário) | Cobrou 9,2% das empresas que vendem petróleo cru para fora. | Medida isolada |
| 6. "Taxa das Blusinhas" (Importação) | Criado / Aumentou | Cobrança de 20% de imposto federal para compras até US$ 50. | Fim da isenção |
| 7. ICMS Importação (Remessa Conforme) | Padronizou em 17% | Todos os estados passaram a cobrar a mesma taxa em compras online. | Padronização estadual |
| 8. Imposto de Importação (Elétricos) | Aumentou gradualmente | Carros elétricos e híbridos importados passaram a pagar até 35%. | Recomposição de taxa |
| 9. Imposto de Importação (Painéis Solares) | Aumentou | Subiu a taxa para proteger a indústria nacional de painéis. | Ajuste tarifário |
| 10. Imposto de Importação (Aço) | Aumentou | Subiu a taxa de compra de aço de fora do país para até 25%. | Ajuste tarifário |
| 11. Imposto de Importação (Fibras Ópticas) | Aumentou | Taxa de importação de cabos subiu de 11,2% para 35%. | Ajuste tarifário |
| 12. IRRF sobre Offshores | Criado | Taxa de 15% sobre lucros de investimentos de ricos no exterior. | Regra nova (Alta Renda) |
| 13. "Come-Cotas" (Fundos Exclusivos) | Mudou a cobrança | Cobrança antecipada duas vezes ao ano para fundos milionários. | Ajuste de regra |
| 14. Taxa sobre Bets (GGR) | Criado | Imposto cobrado das empresas donas dos sites de apostas. | Regulamentação |
| 15. IRPF sobre Prêmios de Apostas | Criado | Desconto de 15% de imposto para quem ganha prêmios nas apostas. | Regulamentação |
| 16. PIS/Cofins (Receitas Financeiras) | Aumentou | Voltou a cobrar alíquota cheia sobre receitas de grandes empresas. | Fim de corte |
| 17. IRPJ/CSLL (Subvenções de ICMS) | Aumentou | Empresas pagam imposto federal sobre incentivos estaduais. | Ampliação de base |
| 18. IOF (Operações Financeiras) | Aumentou | Reajustes pontuais em taxas de empréstimos e câmbio. | Ajuste pontual |
| 19. IPI (Armas de Fogo) | Aumentou | Imposto sobre armas de fogo subiu de 29,25% para 55%. | Ajuste de alíquota |
| 20. IPI (Munições) | Aumentou | Imposto sobre munições subiu de 13% para 25%. | Ajuste de alíquota |
| 21. Reoneração da Folha (17 Setores) | Voltou a ser cobrado | As empresas voltam a pagar a taxa previdenciária normal (20%). | Retorno gradual |
| 22. Reoneração da Folha (Prefeituras) | Voltou a ser cobrado | Prefeituras voltam a pagar a taxa previdenciária padrão. | Fim de desconto |
| 23. Alíquota Modal do ICMS | Aumentou | Vários estados subiram a taxa geral (de 18% para até 22%). | Ajuste estadual |
| 24. Contribuição sobre Bens (CBS) | Unificado / Criado | Junta PIS, Cofins e IPI em um único imposto federal. | Substitui impostos velhos |
| 25. Imposto sobre Bens (IBS) | Unificado / Criado | Junta o ICMS (estado) e o ISS (cidade) em um imposto só. | Substitui impostos velhos |
| 26. Imposto Seletivo ("Imposto do Pecado") | Criado | Taxa extra sobre itens ruins à saúde/ambiente (cigarro, refri). | Cobrança focada |
| 27. IPVA (Aeronaves e Embarcações) | Aumentou a cobertura | Donos de jatinhos, iates e lanchas de luxo agora pagam IPVA. | Extensão do IPVA |
A Importância do Jornalismo Responsável e o Combate às Fake News
A veiculação de informações falsas ou manipuladas em propaganda eleitoral é uma infração grave à legislação brasileira. O Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965) e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbem expressamente a divulgação de fatos sabidamente inverídicos que possam comprometer a lisura do pleito ou influenciar indevidamente a decisão do eleitor.
O jornalismo responsável atua como um filtro indispensável para garantir que o debate público seja pautado em dados auditáveis e pareceres de órgãos oficiais, como a Receita Federal, o Ministério da Fazenda e secretarias estaduais de economia.
Como Denunciar Propaganda Eleitoral Enganosa
O cidadão que identificar conteúdos falsos, montagens ou narrativas manipuladas sobre temas econômicos e sociais em propagandas eleitorais pode e deve utilizar os canais oficiais do Poder Judiciário e de órgãos de controle para realizar denúncias:
Aplicativo Pardal (Justiça Eleitoral): Desenvolvido pelo TSE, o aplicativo gratuito permite enviar fotos, vídeos e áudios que comprovem irregularidades ou desinformação em campanhas. As denúncias são encaminhadas diretamente ao Ministério Público Eleitoral (MPE) da região.
Sistema de Alerta de Desinformação do TSE: Plataforma online mantida pelo Tribunal Superior Eleitoral específica para o relato de conteúdos inverídicos espalhados pela internet que atinjam o processo eleitoral ou distorçam políticas públicas com fins panfletários.
Ministério Público Eleitoral (MPE): É possível protocolar representações diretamente no site do Ministério Público Federal (MPF) de cada estado, informando o candidato, partido ou coligação responsável pela veiculação da propaganda irregular.
Plataformas de Checagem e Veículos de Imprensa: Portais de checagem parceiros do Fato ou Fake e agências independentes mantêm canais abertos para o recebimento de boatos que circulam em aplicativos de mensagem para verificação pública.
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