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Escritor diz que literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão

Itamar Vieira Júnior fala sobre seu novo livro Coração sem Medo, que conta a história de Rita Preta. Ela enfrenta o desaparecimento de um filho, possivelmente v

6 min de leitura
Escritor diz que literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão
Agência Brasil

Coração Sem Medo compõe essa Trilogia da Terra - histórias que se comunicam e que falam desse direito elementar fundamental e que atravessa a vida de todos, mas que ainda é negado para muitos. Conta a história de Rita Preta, uma personagem que vive em Salvador..

"É a história daqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terra. Rita é uma mulher feliz, é caixa de supermercado, ela, enfim, toca a vida como pode, tem três filhos e, de repente um dos filhos desaparece. E aí começa a jornada dela para saber o que aconteceu”, contou.

Embora seja ficcional, o drama vivido por Rita Preta reflete um número cruel da realidade brasileira. Só no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia. Em todo o ano passado, foram 85.232 casos de desaparecimentos, uma média de 234 sumiços a cada dia.

Os dados fazem parte do Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e podem não refletir totalmente a realidade, já que muitos casos sequer são notificados.

Em entrevista à Agência Brasil, antes de falar do seu novo livro na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre, lotado, Itamar Vieira Junior revelou que o drama vivido por Rita atinge todas as classes sociais, embora suas maiores vítimas sejam as mães que vivem nas periferias brasileiras.

“Eu sei que o desaparecimento atinge todas as classes, pessoas de todas as origens, mas ele é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam e daqueles que mais carecem de políticas públicas do Estado. Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta”, afirmou.

No livro, o desaparecimento ocorre após um desentendimento entre mãe e filho. Com o passar dos dias, no entanto, a operadora de caixa vai percebendo que o desaparecimento pode não ter ocorrido por causa disso e ela passa então a dedicar-se à busca pelo paradeiro de filho.

Durante essa busca pelo filho, Rita Preta vai perceber que “a história não começou exatamente agora, mas é algo que vem de muito tempo antes” e que ela vai precisar se conectar com seus antepassados e suas origens.

“Essas perdas atravessam a história da humanidade. Nós convivemos hoje com mulheres que estão passando por isso e a gente nem se dá conta de que parece que a história humana tem essa capacidade de se repetir em muitos tempos.

Para o escritor, a literatura também tem uma capacidade grande de humanizar. Essas histórias aparecem muitas vezes na imprensa, mas aparecem de forma superficial.

Quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte e a arte tem o poder de devolver a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado”, disse ele.

Embora seja capaz de humanizar, essa mesma arte ainda não é capaz de fornecer respostas, afirma Itamar. A tarefa da literatura, no entanto, acrescenta, continua sendo a de provocar incômodos ou reflexões sobre o fato. “Acho que sempre há caminhos. Tudo que a arte não faz é dar respostas. Eu acho que ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, a arte tem essa capacidade de incomodar. E acho que é a partir do incômodo que as mudanças vêm”.

Em seu novo romance, Itamar Vieira Junior transporta a ação do campo, como ocorreu em Torto Arado, para a cidade.

“A gente pensa em Salvador, nessa riqueza cultural, nessas contradições históricas e parece que tudo já nasceu e já aconteceu aqui. Mas essa cidade cresce e acontece a partir de muitas chegadas”, disse ele ao público presente no Largo do Pelourinho durante a Flipelô.

“Desde os povos originários que aqui estavam, passando pela invasão dos europeus e pela diáspora para Salvador, afluíram tantos povos, tantas etnias. E no século 20, em particular, chega muita gente do interior da Bahia por meio do êxodo rural. Muitos vieram viver na cidade pelo acirramento dos conflitos - seja pelo acirramento dos conflitos fundiários, seja pela esperança que depositaram na vida na cidade”, afirmou.

No caso da personagem principal de seu novo livro, Rita Preta é uma pessoa que sai do campo para viver na capital baiana e, em Salvador, percebe que há muitos outros conflitos na vida urbana. “Eu sei que muitos chegaram aqui e a história da Rita é semelhante à história de muitos que aportaram em Salvador para viver – e que, às vezes, fugiram de um conflito fundiário, como ela escapa, mas aqui vai descobrir que a cidade é um território desigual, que também vive em disputas. A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira. Pelo contrário”.

Ainda há muita desigualdade, ainda há muita diferença e é isso que o romance de alguma maneira vai apresentar para o leitor, destacou Itamar.

Seja no campo ou na cidade, esse drama sobre o direito à terra, ressaltou o escritor, perpassa toda sua trilogia.

“Eu digo o seguinte: em Torto Arado, a terra é território e pertencimento. Em Salvar o Fogo, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. E em Coração sem Medo, essa história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea”, disse ele.

Essa terra que une os três livros, afirma o escritor, poderia ser entendida como um lugar físico, uma memória ancestral ou até mesmo como aquilo “que um povo carrega consigo mesmo quando já lhe arrancaram a própria terra.

“Quando um personagem, que é o filho da Rita, desaparece nesse último romance, esse corpo, que é um território, não é muito diferente da terra que está em disputa em Torto Arado, nem é muito diferente da terra que é tida ali como patrimônio de uma igreja em Salvar o Fogo. Esse corpo é um território também. E se tiraram ele de Rita é porque ainda existem corpos e ainda existem territórios que não são cuidados, que não são integrados e que não estão vivos porque essa violência histórica nos atravessa”.

* A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

Em números

  • Só no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia
  • Em todo o ano passado, foram 85.232 casos de desaparecimentos, uma média de 234 sumiços a c

Fontes

Informação baseada em material público de Agência Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • Agência Brasillink

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