A pesquisadora, jornalista e escritora é uma das curadoras da quarta edição do Festival Literário de Paracatu, cidade mineira a 500 quilômetros de Belo Horizonte (MG).
Calila assina a curadoria ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges, idealizador e presidente do festival.
Neste ano, o tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo propõe uma conversa entre dois pensadores fundamentais do Brasil profundo: Milton Santos, cujo centenário foi comemorado em maio, e João Guimarães Rosa, que apresentava ao mundo o seu Grande Sertão: Veredas, há 70 anos.
Calila fala com carinho dos livros de Guimarães Rosa. Grande Sertão ela chama de “fabuloso”. Campo Geral, de 1956, a deixou “muito emocionada”. Com Milton, ela divide o lugar, o território e o interior da Bahia.
A escritora, que já assinou eventos literários em Cachoeira (BA) e em Cavalcante (GO), celebra a realização desses encontros pelo interior do Brasil. Ao mesmo tempo, demonstra preocupação com o manejo dessas festas e com o risco de que se tornem palanques políticos, festas com “donos”, que ditariam como a literatura deve adentrar esses locais.
Além disso, ela defende um olhar respeitoso sobre o que é produzido em cada um desses lugares.
Para ela, o festival consegue criar as condições de integrar pessoas e promover conversas surpreendentes, com pessoas de diferentes sotaques, respeitando a literatura produzida na cidade.
Entre os nomes que passam por Paracatu este ano estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.
Calila, que já publicou livros de poesias e de contos, lançou em julho Nódoa, seu primeiro romance, pela Companhia das Letras. Ela conta que ainda está aprendendo a falar sobre o livro, que foi todo escrito em movimento.
Um movimento que é feito sem que ela deixe de carregar suas referências.
Nesse movimento, Calila foi quatro vezes ao rio São Francisco e foi ver o maior cajueiro do mundo. Segundo ela, o objetivo foi se conectar com os pedaços de natureza e também de urbanidade.
Nesse contato com a natureza, viu sua escrita germinar, com toda a criatividade e a radicalidade que seus textos exigem.
O livro Nódoa é narrado por Regina e por Lurdes Maria. As muitas mulheres do livro estão em constante movimento sem, entretanto, se perderem umas das outras.
O livro também é pensado na forma, na materialidade da escrita, em maiúsculas e minúsculas. Os recursos são usados para traduzir cada personagem: a que não sabe nem ler nem escrever; a que só fala baixinho, com vergonha; a artista plástica.
O livro, continua Calila, foi todo feito pensando na força das outras linguagens. As palavras formam desenhos. Há um trabalho sensorial e de oralidade que entrega ao leitor outras formas de ver e ler a obra.
4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu) De 26 a 30 de agosto de 2026 Local: Centro Histórico de Paracatu Entrada gratuita.