Ir para o conteúdo
Agronegócio Revisado por ULTRA AI

UE compra pouca carne do Brasil, mas paga mais e funciona como ‘vitrine’; saiba por que o veto preocupa

Bloco paga mais por cortes nobres e exige padrões de rastreabilidade que funcionam como referência para outros mercados. Sem esse prêmio, produtores podem deixa

5 min de leitura
Agronegócio — imagem padrão

A partir desta quinta-feira (3), a União Europeia interrompe as compras de produtos de origem animal do Brasil. No caso da carne bovina, a suspensão preocupa menos pelo volume exportado e mais pela importância estratégica do bloco para pecuaristas e frigoríficos brasileiros.

  • 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1.
  • Veto à carne do Brasil: UE proíbe promotores de crescimento em animais e antiobióticos de uso humano; entenda.
  • Investimos anos para atender à Europa': pecuaristas buscam novos mercados e correm para exportar antes do veto.
  • Brasil pode perder mais de US$ 500 milhões com bloqueio da União Europeia.
  • União Europeia não volta a comprar carne do Brasil antes de 2 anos': bloqueio entra em vigor em um mês e segue sem acordo.

União Europeia suspende importação de carne bovina brasileira.

A Europa é uma vitrine seja por causa das exigências em termos de rastreabilidade, seja pela remuneração. Ela compra praticamente só cinco cortes do nosso boi, só que paga bem", ressalta Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do mercado de pecuária do Cepea-USP.

A preferência europeia é por cortes do traseiro do boi, como filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, além do filé de costela, retirado do dianteiro.

Os chineses têm preferência pelos cortes dianteiros. Outros cortes, como a picanha, ficam no mercado brasileiro.

Por que a UE é uma 'vitrine' para o mundo.

Como maior produtor e exportador de carne bovina do mundo, o Brasil segue padrões sanitários para abastecer os mercados em que atua, inclusive o interno. No caso da União Europeia, porém, o processo para autorizar fazendas e frigoríficos a exportar é mais complexo.

Para começar, nem todos os estados brasileiros podem exportar carne para a UE. Atualmente, apenas Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm autorização.

Estar em um desses estados, porém, não garante acesso ao mercado europeu. As fazendas interessadas precisam passar por uma avaliação da UE, que verifica se a propriedade cumpre os requisitos sanitários, veterinários e de bem-estar animal exigidos pelo bloco.

Além disso, cada boi destinado à produção de carne para a União Europeia precisa ser rastreado individualmente.

É justamente essa série de exigências que faz da UE um mercado vitrine. "Se um país recebe o aval para exportar para a Europa, ele está recebendo um certificado de alto padrão regulatório", comenta Fernando Enrique Iglesias, analista do Safras & Mercado.

Cumprir as exigências europeias também pode facilitar o acesso a outros mercados rigorosos, como Japão e Coreia do Sul, com os quais o Brasil negocia a abertura para a carne bovina.

O pecuarista André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, trabalha com o mercado europeu há mais de 20 anos e diz estar preparado para atender a esses países caso eles abram seus mercados.

Ele teme, porém, que o bloqueio da UE desestimule outros produtores a manter os padrões de rastreabilidade exigidos pelos europeus.

Carvalho, do Cepea-USP, tem a mesma preocupação. Segundo ele, como produzir um boi dentro do padrão europeu custa mais, parte dos pecuaristas pode deixar de seguir esses protocolos.

É natural que isso ocorra porque eles não estarão recebendo a mais por isso", diz.

Geralmente um boi Europa recebe até 10% de premiação", afirma Carvalho, explicando que o prêmio é o valor extra pago por um boi criado para atender às regras da UE em relação à cotação nacional.

A estratégia de pecuaristas entrevistados pelo g1 é buscar em outros mercados o valor extra pago pelo gado que segue o padrão europeu.

Rafael Andrade Asato, também de Mato Grosso do Sul, pretende direcionar esses animais para programas de exportação aos EUA ou para linhas de carnes nobres destinadas ao mercado brasileiro.

Carvalho, do Cepea-USP, lembra que, mesmo que a UE volte a liberar as exportações brasileiras, a retomada das vendas de carne bovina deve levar tempo. Isso porque o bloco passará a exigir a comprovação de que o animal não recebeu os antimicrobianos proibidos durante toda a vida.

Um bezerro que nascer em agosto ou setembro de 2026, por exemplo, só vai estar pronto para o abate por volta de 2028 ou início de 2029", explica.

O pecuarista André Bartocci explica que seu rebanho não recebe esses antimicrobianos há muitos anos porque ele exporta pela Cota Hilton, modalidade de exportação de carnes nobres com tarifa reduzida que proíbe o uso dessas substâncias durante toda a vida do animal.

Quem faz cota Hilton não usa antimicrobiano há muito tempo. Mas a maioria da carne que vai para a Europa não é Hilton, é lista Trace, uma categoria em que o produtor só precisa comprovar que não usou antimicrobiano nos últimos 100 dias de vida do animal.

Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação", disse Bartocci.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Fontes consultadas

  • G1 Agronegócioslink

Leia também

Mais em Agronegócio
Quando o silêncio ameaça o Supremo
Agronegócio

Quando o silêncio ameaça o Supremo

As informações reveladas a partir do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, colocaram integrantes da mais.

Em Agronegócio