A economia brasileira continua crescendo, mas perdeu força no segundo trimestre.
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- 🔍 O PIB reúne a produção de três grandes setores: agropecuária, indústria e serviços. Também considera o consumo das famílias e do governo, investimentos, exportações e importações.
- 🔎 O que é o consumo das famílias? É o gasto com bens e serviços, como alimentos, roupas, aluguel, transporte, saúde e lazer.
- Galípolo vê risco em crédito caro usado para despesas fixas e alerta para endividamento das famílias.
PIB do Brasil cresce 0,5% no 2º trimestre de 2026.
Para economistas ouvidos pelo g1, o resultado mostra sinais de enfraquecimento do consumo das famílias e de setores ligados ao mercado interno.
O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% entre abril e junho, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre.
O resultado foi puxado pela agropecuária, que cresceu 2,8%, e pela indústria extrativa, com alta de 3,4%. Já a indústria de transformação recuou 0,4%.
Para os especialistas, o número mostra uma economia que ainda cresce, mas de maneira menos disseminada e mais concentrada.
De um lado, setores ligados à produção de commodities ajudam a sustentar a atividade. De outro, o consumo perde força e segmentos mais dependentes da demanda doméstica enfrentam dificuldades.
A composição do PIB também levanta dúvidas sobre a capacidade de o país manter um crescimento mais forte nos próximos trimestres.
Veja abaixo a visão dos especialistas.
Juliana Inhasz, professora de Economia do Insper.
Para Juliana Inhasz, o principal ponto de atenção no resultado do PIB está na composição do crescimento.
O avanço de 0,5% veio um pouco acima da expectativa do mercado, que era de 0,4%. Mas, na avaliação da economista, o desempenho dos setores revela uma economia com crescimento pouco disseminado.
O número cheio é razoável, mas a composição é ruim. Mostra que temos vários problemas e que estamos perpetuando um cenário de crescimento baixo, bastante moderado, se é que vamos conseguir sustentar esse crescimento ao longo de algum tempo", afirma.
Para Inhasz, a diferença entre os segmentos mostra uma indústria com desempenho desigual.
A composição da indústria, olhando para esses números, está mostrando que a atividade econômica no setor é muito desigual. A indústria extrativa está crescendo 3,4%, enquanto a indústria de transformação está recuando, o que mostra a incerteza do setor industrial e o impacto das taxas de juros altas, além de eventuais impactos tributários", diz.
Segundo a economista, a fraqueza da indústria de transformação merece atenção porque o setor possui cadeias produtivas mais longas e maior capacidade de gerar empregos e valor dentro do país.
A indústria manufatureira, que possui a cadeia produtiva mais longa, emprega mais gente aqui dentro e agrega mais valor ao mercado, de fato está enfraquecida e muito enfraquecida, porque depende das condições do mercado interno.
Outro sinal de perda de força está no consumo das famílias, que caiu 0,4% no segundo trimestre.
Para ela, o movimento mostra que as famílias estão mais cautelosas, mesmo em um cenário de mercado de trabalho ainda aquecido.
Esse consumo das famílias em queda é um sinal de preocupação. Quando as famílias reduzem seu consumo, como aconteceu, com queda de 0,4%, estamos falando que as pessoas estão consumindo menos, estão segurando os recursos.
Isso é um reflexo, primeiro, de incerteza dentro da economia.
O movimento ocorreu ao mesmo tempo em que os gastos do governo cresceram 0,4% em relação ao primeiro trimestre.
O governo continua tentando dar suporte ou aquecer a economia, com uma alta de 0,4%. Então, ele nada contra a corrente.
Os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), cresceram 1,2% no trimestre. Ainda assim, a taxa de investimento, que mede quanto a economia investe em relação ao PIB, ficou em 16,1%.
Com essa taxa de investimento frente ao PIB de 16,1%, vamos ter dificuldade de crescer de forma persistente. Provavelmente, com essa taxa de 16%, rodando na casa de 16% a 17% do PIB, não conseguimos crescer nem 2% ao ano de forma persistente sem gerar pressão inflacionária.
Na avaliação da economista, o baixo investimento limita a capacidade de expansão da oferta de bens e serviços e pode fazer com que um estímulo maior à demanda gere novas pressões sobre os preços.
Carla Beni, economista e professora da FGV.
Para Carla Beni, a perda de força do consumo está relacionada aos efeitos defasados da política monetária restritiva.
A política monetária contracionista que se iniciou no começo de 2022, quando a Selic passou para dois dígitos, está começando a fazer efeito agora, porque nos anos anteriores o nosso PIB cresceu, em média, 3% ao ano.
Na avaliação da economista, o elevado nível de inadimplência ajuda a explicar a dificuldade das famílias para manter o ritmo de consumo.
O efeito colateral disso é uma inadimplência gigantesca. Se pegarmos o mapa da inadimplência do Serasa, estamos aí com mais de 48% da população adulta negativada.
Então você vê isso no reflexo da queda do consumo das famílias.
A professora pondera ainda que o forte desempenho da agropecuária não deve ser interpretado como sinal de uma aceleração generalizada da economia.
A questão da agropecuária é interessante porque ela sempre apresenta sinais robustos de crescimento, como temos agora, mas a representação dela dentro do PIB é muito pequena.
A agropecuária representa mais ou menos 7% a 8% do PIB, 70% são serviços e em torno de 20% a 22% são indústria.
Para ela, portanto, o desempenho do agro ajuda a sustentar o PIB, mas não compensa sozinho uma perda de força dos setores de maior peso na economia.
André Caruso vê no resultado do segundo trimestre uma confirmação de que a economia brasileira entrou em uma fase de desaceleração.
O crescimento de 0,5% do PIB no segundo trimestre confirma uma desaceleração importante da economia brasileira. Ainda é crescimento, mas já mostra com mais clareza os efeitos de uma política monetária bastante restritiva sobre consumo, crédito e investimentos.
Para o terceiro trimestre, Caruso vê risco de uma variação negativa, mas não considera que uma recessão seja hoje o cenário mais provável.
Para o terceiro trimestre, existe risco de uma variação negativa, mas ainda considero prematuro tratá-la como o cenário mais provável. O IBC-Br terminou junho em queda de 0,6% no mês e deixou um carregamento estatístico de aproximadamente -0,4% para o terceiro trimestre.
Indústria e serviços também perderam força no fim do segundo trimestre.
Desaceleração pode abrir espaço para corte de juros.
A perda de força da atividade também pode aumentar o espaço para o Banco Central reduzir a Selic, segundo Caruso.
Para ele, a autoridade monetária já reconhece uma moderação gradual da economia.
Para o Banco Central, porém, nem seria necessária uma queda do PIB para justificar novos cortes da Selic. A própria ata do Copom já reconhece uma 'moderação gradual' da atividade econômica e os números divulgados desde então reforçam essa leitura.
A política monetária parece estar cumprindo a função de retirar demanda da economia.
Caso a desaceleração se intensifique nos próximos meses e a inflação continue cedendo, o economista vê possibilidade de novos cortes.
Se os próximos indicadores mostrarem um terceiro trimestre muito fraco, especialmente com desaceleração dos serviços e do mercado de trabalho, e a inflação corrente continuar cedendo, acredito que o Banco Central poderá discutir não apenas o corte esperado para setembro, mas também a possibilidade de novos movimentos nas reuniões de novembro e dezembro.
O principal obstáculo, porém, está nas expectativas de inflação.
O principal obstáculo é que as expectativas de inflação continuam desancoradas: o Focus ainda projeta IPCA de 5,01% em 2026 e de 4,28% em 2027. Portanto, o PIB mais fraco ajuda bastante, mas sozinho não autoriza uma aceleração dos cortes.