Poucos fenômenos naturais conseguem produzir uma sensação tão profunda de conexão com o Universo quanto um eclipse total do Sol. Na última quarta-feira (12), milhões de pessoas na Europa puderam experimentar isso de perto, enquanto a Lua encobria completamente o Sol em uma faixa que atravessou a Islândia e a Espanha.
Por alguns minutos, o céu mudou de aparência, as estrelas mais brilhantes apareceram e a delicada coroa solar se revelou ao redor da Lua. Foi um espetáculo de rara beleza, mas também um lembrete do quanto os eclipses foram importantes para o desenvolvimento do nosso conhecimento sobre o Cosmos.
Os eclipses nos ensinaram muito além dos movimentos da Terra e da Lua, eles nos ajudaram a medir distâncias intercontinentais, determinar a composição do Sol, comprovar a Teoria da Relatividade Geral de Einstein e, ainda hoje, são uma importante ferramenta para estudos da coroa solar.
Mas além de nos ensinar sobre o Universo, os eclipses também podem nos ajudar a contar a nossa própria história, reconstruindo acontecimentos ocorridos há milhares de anos.
Para um historiador, determinar exatamente quando aconteceu um evento antigo pode ser um problema muito mais complicado do que parece. Durante grande parte da história, cada povo, cada civilização ao redor do globo, utilizava formas distintas e algumas bem criativas para medir a passagem do tempo.
Alguns seguiam principalmente os ciclos da Lua, outros tentavam acompanhar o movimento anual do Sol, e nem todos tinham a mesma duração para seus anos.
Além disso, era comum “zerar” a contagem dos anos a cada novo reinado. Assim, um documento podia dizer que algo aconteceu “no quarto ano do reinado de Salomão”, por exemplo.
Tínhamos uma ideia do tempo, mas não uma data que pudéssemos colocar no nosso calendário. Sem falar que em algumas culturas, os anos nem eram contados, eles simplesmente ganhavam um nome a cada réveillon.
Com toda essa confusão, datar os acontecimentos históricos seria praticamente impossível, não fosse uma ajuda dos céus: os eclipses.
Em uma tábua de argila, um antigo registro assírio, que só foi decifrado no Século XIX, continha o seguinte relato: “Bur-Sagale de Guzana. Revolta na cidade de Assur.
No mês de Simanu, ocorreu um eclipse do Sol”. Na tradição assíria, cada ano recebia o nome de um governante ou oficial importante nomeado pelo rei. Aqueles fatos ocorreram no ano de Bur-Sagale, na região de Guzana.
Simanu era o nome dado ao terceiro mês do calendário assírio, que corresponderia hoje ao período entre maio e junho. Mas a chave para sabermos exatamente quando ocorreu a revolta em Assur foi o relato do eclipse.
À medida que a astronomia avançou, especialmente depois da formulação das leis da gravitação de Newton, passamos a compreender matematicamente os movimentos da Terra e da Lua.
Com isso, nos tornamos capazes de calcular com precisão a ocorrência de eclipses com séculos de antecedência. Da mesma forma, também podemos fazer o caminho inverso e, com modelos cada vez mais precisos, tornou-se possível determinar quando e onde eclipses antigos ocorreram.
Foi assim que em 1867, Henry Rawlinson identificou o eclipse de 15 de junho de 763 a. C. como o candidato mais provável ao fenômeno relatado no antigo escrito assírio.
Com isso, o ano de Bur-Sagale passou a ter um correspondente no nosso calendário e pode ser usado como uma “âncora temporal” que nos permitiu organizar a cronologia dos fatos relatados pelos assírios daquela época.
Outro exemplo extraordinário aparece na obra do historiador grego Heródoto. Em seus registros, ele conta que, durante um intenso combate, no sexto ano da guerra entre medos e lídios, o dia subitamente se transformou em noite.
O fenômeno teria levado os dois lados a interromper a batalha e buscar a paz. Heródoto também afirma que o filósofo Tales de Mileto havia previsto a ocorrência daquele eclipse.
Hoje sabemos que o acontecimento pode ser associado ao eclipse solar de 28 de maio do ano de 585 a. C. Assim, um relato histórico ganhou uma data exata, graças à precisão dos movimentos cósmicos e à ciência.
Se simples relatos já se mostraram tão importantes para a ciência, imagine séculos de observações sistemáticas e detalhadas de eclipses.
Ninguém fez isso melhor do que os astrônomos chineses. Ao longo de centenas de anos, eles registraram os eclipses, suas datas, horários e locais de observação. Nem todos esses registros são igualmente seguros, mas o conjunto é tão rico que pesquisadores conseguiram compará-lo com os cálculos astronômicos modernos para investigar não apenas a história da China, mas também a história da rotação do nosso planeta.
Isso acontece porque a Terra não gira como um relógio perfeito. A velocidade de rotação varia ligeiramente ao longo do tempo. Quando comparamos o local e o momento em que um eclipse deveria ter sido observado, segundo nossos modelos, com aquilo que os antigos observadores registraram, podemos estimar essas diferenças.
Em outras palavras, documentos escritos há séculos ou milênios carregam informações sobre como o nosso planeta estava girando naquela época. E por isso, estudos recentes continuam utilizando registros chineses para refinar essa reconstrução.
E tudo isso só é possível graças ao fascínio que os eclipses exercem sobre nós. Se hoje queremos fotografar e inundar as redes sociais com as belíssimas imagens de um momento tão mágico, há milhares de anos, nossos ancestrais “postavam” seus registros em papiros e tábuas de argila, sem saber que estavam deixando para as gerações futuras uma referência capaz de ajudar a reconstruir seu próprio tempo.
É claro que a astronomia não resolveu todos os problemas dos historiadores. Muitos registros se perderam, muitos relatos antigos são ambíguos e, em alguns casos, fatos históricos podem ter sido misturados a lendas, interpretações míticas ou fantasias.
Nem todo eclipse mencionado em um texto antigo pode ser identificado com segurança.
Mas é justamente isso que torna esses registros tão valiosos. Quando um relato do passado pode ser confrontado com as leis da física, ele pode se transformar numa referência cronológica extraordinariamente precisa da história humana.
Por isso os eclipses solares encantam e fascinam milhões de pessoas ao redor do mundo. São fenômenos raríssimos, de incomparável beleza, duram apenas alguns minutos, mas o suficiente para nos ensinar mais sobre o Universo e nos ajudar a contar a nossa própria história.
Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil.
Fontes
Informação baseada em material público de Olhar Digital, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.