Pessoas em situação de maior vulnerabilidade ao HIV e que não estejam utilizando a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) –medicamento que reduz o risco de infecção pelo HIV quando usado antes de uma possível exposição ao vírus– por dificuldades sociais ou de acesso aos serviços de saúde devem estar entre as primeiras a receber a versão injetável pelo Sistema Único de Saúde, caso o cabotegravir seja incorporado à rede pública.
Cabotegravir recebeu recomendação preliminar favorável da Conitec; Ministério da Saúde prevê ampliar leque de prevenção.
A estratégia consta em documentos da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) e do Ministério da Saúde, mas os critérios definitivos de prioridade ainda não foram estabelecidos.
Ainda não há, porém, prazo de quando as doses injetáveis ficam disponíveis no SUS.
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O cabotegravir de longa duração, aplicado a cada dois meses após as doses iniciais, recebeu recomendação preliminar favorável da Conitec no início de agosto. A perspectiva do Ministério não é substituir imediatamente a PrEP oral, já oferecida pelo SUS, mas ampliar as opções de prevenção.
Segundo o relatório técnico preliminar da Conitec, a oferta inicial seria direcionada a pessoas em situação de vulnerabilidade que, por razões sociais ou dificuldades de acesso aos serviços, não estejam utilizando a profilaxia em comprimidos.
Para o infectologista Moacyr Silva Junior, do Einstein Hospital Israelita, a possibilidade de escolha entre o oral e o injetável é justamente uma das vantagens.
Uma pessoa capaz de manter bem o uso dos comprimidos pode continuar com a PrEP oral. Para outras, a aplicação periódica pode ser mais adequada. A decisão também depende do contexto social, da rotina e da disponibilidade dos serviços.
O cabotegravir é um antirretroviral que bloqueia uma etapa necessária para a replicação do HIV, reduzindo o risco de estabelecimento da infecção após uma exposição ao vírus.
No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o medicamento como PrEP para adultos e adolescentes acima de 12 anos, com pelo menos 35 kg e risco aumentado de adquirir a infecção.
A indicação aprovada pela Anvisa é ampla, mas o pedido apresentado pela GSK à Conitec previa inicialmente homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero de 15 a 30 anos, com pelo menos 35 kg.
Durante a avaliação, a Conitec ampliou a população considerada para pessoas sexualmente ativas, a partir de 15 anos, em contextos de maior vulnerabilidade ao HIV.
Os critérios definitivos de elegibilidade e prioridade ainda não foram definidos e dependerão da conclusão do processo de incorporação e das regras de implementação.
A apresentação avaliada para o SUS contém 600 mg do medicamento em 3 mL. O esquema começa com uma aplicação intramuscular e uma segunda dose um mês depois. A partir daí, as aplicações de manutenção são feitas a cada dois meses.
A bula aprovada pela Anvisa prevê ainda a possibilidade de uma fase oral antes das injeções, mas ela é opcional.
Antes de iniciar a profilaxia, é necessário confirmar que a pessoa não vive com HIV e manter a testagem periódica durante o tratamento. O acompanhamento é especialmente importante porque o cabotegravir pode permanecer no organismo por um ano ou mais após a última aplicação.
Segundo a bula, atrasos ou interrupções podem aumentar o risco de infecção. A orientação é realizar a testagem para o HIV a cada dois ou três meses e manter as consultas programadas.
Nos ensaios clínicos, o cabotegravir de longa duração apresentou desempenho superior ao da PrEP oral diária usada como comparador. No HPTN 083, a redução relativa do risco foi de 66%; no HPTN 084, de 89%.
Uma metanálise considerada pela Conitec apontou redução relativa global de aproximadamente 79%.
O relatório relaciona parte dessa vantagem à menor dependência da adesão diária. Enquanto o comprimido precisa ser tomado de acordo com o esquema indicado para manter a proteção, a aplicação de longa duração elimina a necessidade de lembrar do medicamento todos os dias.
Isso, porém, não elimina o desafio da adesão.
Para pessoas em situação de rua, a continuidade das aplicações traz desafios específicos. Flávio Lino, secretário-executivo do MNPR-RJ (Movimento Nacional da População em Situação de Rua do Rio de Janeiro), defende que o acesso às doses seguintes não dependa de telefone, endereço fixo, comprovante de residência ou do retorno à mesma unidade.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Einstein, em 16 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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