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Política

Para convencer os evangélicos, é necessário conhecê-los

Transformar divergência em julgamento sobre decência alheia dificulta vitória nas urnas e convivência

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Política — imagem padrão

Tenho visto muita indignação com as escolhas dos eleitores e pouca curiosidade sobre como chegaram a essas escolhas. Embora a frustração dos derrotados seja compreensível, transformar a divergência em julgamento sobre a decência alheia dificulta tanto a vitória nas urnas quanto a convivência.

Na transmissão da TV Folha de domingo, o colunista Juliano Spyer lembrou de uma conversa de 2020 com o pastor Henrique Vieira, deputado do PSOL. Ao perguntar como uma pessoa de esquerda e intelectualizada poderia se aproximar de uma eleitora evangélica, recebeu a recomendação de guardar as teorias e ouvir: "em vez de tentar convencer, tenta conhecer.

Essa aproximação é inviabilizada quando se presume que o evangélico é manipulado pelo pastor e se denomina toda atuação conservadora como teologia do domínio. O conservadorismo sobre a família, a identificação com o empreendedorismo e a busca de vantagens para uma igreja podem aparecer isoladamente ou se combinar, inclusive com o apoio a projetos autoritários.

Essas posições não implicam, por si só, a intenção de impor uma ordem cristã à sociedade, embora possam servir a esse propósito.

Embora a imprensa tenha ampliado a cobertura sobre religião, algumas explicações ainda precisam de nuance, inclusive nesta Folha, que costuma tratar bem do tema.

Numa reportagem sobre teologia do domínio, uma das explicações apresentadas associa o nascimento do fundamentalismo protestante à proteção da fé contra a Revolução Industrial e a modernidade.

Seu principal conflito teológico, porém, está na reação às correntes liberais que reinterpretavam a Bíblia e as doutrinas cristãs. O movimento reafirmava os milagres, a ressurreição corporal de Jesus e a "inerrância bíblica.

Para defender essas doutrinas, parte de seus teólogos se apropriava de métodos modernos de argumentação e exame de evidências, buscando demonstrar a verdade das escrituras.

Também é impreciso associar pentecostais ao Velho Testamento e igrejas reformadas, como as presbiterianas, ao Novo. Na teologia do pacto, central à tradição reformada, as promessas feitas no Velho Testamento encontram seu cumprimento em Cristo, tornando essencial a continuidade entre ambos para a leitura bíblica.

Aliás, setores reformados também participam da articulação política conservadora e da difusão de projetos de domínio no Brasil, que não se restringem ao universo pentecostal.

Similarmente, é necessário distinguir as interpretações da teologia dos sete montes, apresentada como uma ordem divina para dominar áreas como educação, política, artes e economia.

A linguagem das esferas de influência pode convocar os cristãos a sair do isolamento religioso, a servir à sociedade ou a orientar a conquista das instituições para impor valores cristãos.

Por exemplo, a organização missionária evangélica Jovens com uma Missão, a Jocum, defende essa atuação pelo serviço, rejeitando a imposição de valores e cobrando independência diante dos governos.

Já o pregador americano Lance Wallnau, um dos principais divulgadores da teologia dos sete montes, apresenta as instituições como territórios disputados com Satanás, cujo comando precisa ser conquistado nessa batalha.

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