Uma comparação entre as condições das prisões dos quatro generais de quatro estrelas condenados por golpe de Estado –eles cumprem pena há dez meses– e a realidade do sistema prisional comum evidencia uma lista de privilégios dos militares no cárcere.
É a primeira vez que a democracia brasileira pune e encarcera militares da mais alta patente por tentativa de golpe.
Estão em celas adaptadas e especiais, dentro de comandos militares, os generais Paulo Sérgio de Oliveira e Walter Braga Netto, do Exército, e o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha.
Paulo Sérgio e Garnier estão em Brasília. Braga Netto, no Rio. O general Augusto Heleno cumpre a pena em casa, benefício alcançado um mês depois do início da execução penal.
Os quatro foram condenados à prisão pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por participação na tentativa de golpe de Estado orquestrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que recebeu a pena mais dura: 27 anos e três meses.
Paulo Sérgio, por exemplo, cadastrou 35 visitantes, com aval do Supremo; presos comuns no DF podem fazer 11 cadastros. Braga Netto tem médico particular, uma realidade impensável para a grande maioria da população carcerária.
Garnier chegou a receber licença para não fazer o trabalho usado no abatimento da pena.
O Exército afirma que as condições de custódia são definidas e fiscalizadas conforme orientação do STF, em respeito a "parâmetros de segurança, salubridade e dignidade da pessoa humana.
A Marinha e as defesas dos quatro militares não responderam aos questionamentos da reportagem.
A seguir, dez pontos sobre o cumprimento da pena pelos quatro generais e a comparação com o sistema prisional comum, levando em conta os processos de execução penal no STF, defensores públicos ouvidos pela reportagem, portarias da Secretaria de Administração Penitenciária do DF e relatórios de informações da Secretaria Nacional de Políticas Penais.
Generais: quantidade expressiva de visitantes, como parentes, amigos e colegas de farda, chegando a 35 visitas autorizadas para o general Paulo Sérgio.
Generais: visitas dia sim, dia não em algumas semanas, incluídos fins de semana. Permitidas alterações dos dias marcados para visitas extras.
Presos comuns: visitas às quartas e quintas-feiras no Complexo da Papuda. Visitas especiais, como de policiais, às sextas.
Generais: espaços adaptados como celas em prédios militares, com quarto, sala, mesa de trabalho, TV, frigobar e banheiro, e um único preso por cela.
Presos comuns: o DF tem 8. 884 presos em regime fechado, num sistema com capacidade para 4. 742. Celas estão superlotadas, sem espaços e equipamentos.
Generais: autorizações para cursos universitários à distância, com acesso a salas com computador e internet.
Presos comuns: cursos regulamentados são autorizados, mas não há acesso a computadores.
Generais: planos de trabalho individualizados, elaborados por militares, com atividades como revisão gramatical e elaboração de relatórios.
Presos comuns: o trabalho existente é o ofertado dentro do sistema, com poucas vagas diante da demanda.
Como funciona para os generais: concessão de licença no trabalho, como ao almirante Garnier.
Como funciona para presos comuns em regime fechado no DF: não existe esse tipo de licença no dia a dia das prisões.
Generais: livros para leitura fora da lista oficial definida pela Secretaria de Educação do DF, presentes na biblioteca das unidades militares.
Presos comuns: livros para leitura dentro da lista oficial definida pela Secretaria de Educação do DF.
Generais: autorizações de exames (como ressonância no joelho), consultas (com dermatologista) e pequenos procedimentos cirúrgicos (como um cisto na pele) em hospitais de qualidade.
Presos comuns: saídas para exames são autorizadas, mas somente com autorização de saída com escolta, e é comum que não exista escolta disponível.
Generais: médico particular dentro da unidade, como no caso de Braga Netto, fisioterapia e atividades físicas durante o banho de sol e atendimento psicológico semanal, como no caso de Paulo Sérgio.
Presos comuns: inexistem médicos particulares, pela condição financeira dos detentos, e atividades de apoio são escassas.
Generais: assistência religiosa periódica e personalizada por capelães militares.
Presos comuns: organizações religiosas precisam se cadastrar, para que lideranças façam atividades coletivas, como cultos.
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