A nova pesquisa do Datafolha desenha uma eleição presidencial bem mais equilibrada do que Lula (PT) projetava quando viu o principal adversário enredado em suspeitas e mais apertada do que Flávio Bolsonaro (PL) esperava quando viu sua candidatura ser recebida com certo entusiasmo na direita.
Nos últimos dois meses, a vantagem de Lula sobre Flávio no primeiro turno passou de dez para seis pontos, numa sequência de oscilações que seguram o petista abaixo da barreira dos 40% e sustentam o bolsonarista como nome mais competitivo em seu campo.
Lula chega às primeiras semanas de campanha com um desafio redobrado: melhorar a avaliação de seu terceiro governo e se desviar de investigações envolvendo o filho Lulinha.
Flávio ainda briga para convencer o eleitor de direita de que sua candidatura representa algo além do sobrenome que levará à urna e se defender de seu próprio escândalo.
Lula ainda não conseguiu amarrar o eleitor de maneira firme à ideia de que seu governo deve continuar por mais quatro anos. A piora dos índices de popularidade soa como sinal de alerta para a campanha.
Os eleitores que vão decidir a eleição (aqueles que rejeitam o rótulo de lulistas e bolsonaristas) ainda não escolheram em que barco estarão em outubro. Nos últimos meses, eles pularam entre Lula e Flávio.
Mais de um terço dos eleitores de Flávio diz que votará nele não por suas propostas, mas para evitar a vitória de outro candidato. É um quesito que pode tornar o vínculo com o candidato mais frouxo.
O segundo pelotão de candidatos, todos com um dígito na pesquisa, tem os eleitores menos convictos e corre o risco de perdê-los numa migração em massa ainda no primeiro turno.
A avaliação negativa do governo Lula variou de 38% para 41% desde a última pesquisa Datafolha, no mês passado. A oscilação representa uma dificuldade para a campanha de Lula, que vem explorando a máquina do governo para entregar novos benefícios ao eleitorado, mas sem conseguir colher uma mudança relevante de humores, com base nos dados da pesquisa.
A variação de humores em três segmentos explica a piora de três pontos dos números do governo registrada pelo Datafolha.
Classe média: A avaliação negativa da gestão Lula chegou a 50% entre eleitores com renda familiar de dois a cinco salários mínimos, o pior índice desde fevereiro de 2025, quando Lula enfrentava sua pior crise de popularidade.
Regiões metropolitanas: Nas grandes cidades e periferias, a proporção de eleitores que consideram o governo ruim ou péssimo passou de 35% para 41% em um mês.
Não alinhados: Eleitores que afirmam não ser lulistas nem bolsonaristas pioraram sua avaliação do governo, com um salto de 36% para 46% no índice de entrevistados que dizem que a gestão Lula é ruim ou péssima.
O principal grupo em disputa nessa eleição é o de brasileiros que não se consideram alinhados ao lulismo ou ao bolsonarismo. Eles representam 24% dos entrevistados e são mais jovens e mais escolarizados que a média da população.
No primeiro turno, esses eleitores se pulverizam entre Lula, Flávio, outros candidatos e o voto nulo. A principal característica desse segmento, no entanto, é a volatilidade: 49% dizem que essa escolha ainda não é definitiva e pode mudar.
No eleitorado geral, esse índice é bem menor, de 27%.
No segundo turno, a tendência se repete.
Flávio dominava o segmento nas simulações de segundo turno, antes do escândalo "Dark Horse". Ele cedeu a liderança a Lula, e agora as linhas voltaram a se cruzar: o bolsonarista tem 38% das preferências do eleitor não alinhado contra 33% do petista.
Outros 26% preferem anular o voto. Esse grupo também rejeita mais Lula (52%) do que Flávio (44%).
A nova pesquisa também traz um ponto de atenção para a campanha de Flávio Bolsonaro ao investigar por que os eleitores votam como votam.
56% dos eleitores de Flávio dizem que votam nele porque ele tem as melhores propostas e é o mais preparado. Outros 35% afirmam que a razão da escolha é evitar a vitória de um adversário.
Para comparação, 68% dos eleitores de Lula dizem que o motivo do voto são suas propostas, e 73% dos eleitores de Renan Santos (Missão) afirmam o mesmo.
A pergunta feita pelo Datafolha ajuda a medir uma das motivações do voto. A escolha baseada no perfil do candidato costuma indicar mais convicção e um vínculo mais firme.
Por sua vez, o voto motivado principalmente pela rejeição a outros nomes pode tornar um candidato mais suscetível à perda de apoio em crises ou escândalos. Flávio terá de evitar essa ameaça.
A areia movediça do segundo pelotão.
O longo quadro de polarização eleitoral do país continua a criar uma barreira para o crescimento de candidaturas fora dos dois principais campos políticos. Os nomes do segundo pelotão da disputa, além de não chegarem perto dos dois dígitos de intenção de voto, ainda enfrentam um problema adicional: a hesitação de seus poucos eleitores.
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro têm a lealdade de boa parte de seus seguidores (o que reduz consideravelmente a quantidade de votos livres), os demais concorrentes conseguem a adesão de entrevistados que ainda consideram pular para o barco de outro candidato.
Esse é um cenário propício a um movimento de antecipação de voto, em que uma parcela dos eleitores abandona candidatos pouco competitivos e migra para os líderes da disputa na hora de apertar os botões da urna.
Flávio pode se beneficiar desse movimento, caso se concretize, já que está mais próximo ideologicamente dos demais concorrentes do que Lula.
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Poder, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.