Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira.
Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.
E ficou muito mais difícil na última década.
A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas.
O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.
Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.
A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.
A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais.
Projetos autocráticos não saíram do vácuo.
Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.
Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica.
E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.
A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.
Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental.
Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.
Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.
Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.
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