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Política

A aposta eleitoral no Bolsa Família pode não valer a pena

Governo escolhe campanha para fazer reajuste que poderia ter sido realizado durante o mandato

3 min de leitura
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Embora reponha a inflação acumulada desde março de 2023, o momento revela uma finalidade eleitoral: depois de quase quatro anos, o governo escolheu a campanha para fazer o que poderia ter feito durante o mandato.

Essa aposta parte de uma vantagem já consolidada: Lula tinha 53% das intenções de voto entre quem recebe o benefício ou mora com um beneficiário, ante 36% entre os demais, segundo o último Datafolha.

Ou seja, na prática, trata-se de uma estratégia para consolidar a candidatura junto ao público que mais a aprova.

Esse cálculo encontra respaldo na literatura: programas de transferência de renda podem render votos, embora o momento do pagamento seja decisivo. Em Honduras, pagamentos mais elevados no pico e no fim de um programa elevaram o comparecimento e o apoio ao partido governista, segundo Sebastian Galiani e coautores.

Contudo, no reajuste atual o calendário limita esse possível retorno. Embora o anúncio tenha ocorrido antes do primeiro turno, o aumento só será pago a partir de 19 de outubro.

Pelo calendário oficial, beneficiários com NIS (Número de Identificação Social) de final 1 a 5 recebem até o dia 23; os demais, após o segundo turno. A promessa pode ter efeito imediato, mas a renda extra cairá no bolso de uma parte das famílias antes do fim da eleição.

Acertar o timing do calendário é apenas uma das condições para que a transferência de renda gere votos. Na avaliação de uma expansão do Bolsa Família, a inclusão de 100 famílias a cada 10 mil habitantes elevou a votação de prefeitos candidatos à reeleição em 2,6 pontos percentuais, segundo estudo preliminar do economista Arthur Alberti.

Esse retorno concentrou-se nos municípios que já contavam com Cras (Centros de Referência de Assistência Social) e, nas comparações, foi maior onde havia busca ativa e acompanhamento mais intenso.

Na prática, o ganho político depende também da capacidade local de apoiar as famílias beneficiadas.

Desde então, o programa passou a operar com muito mais recursos, sem reduzir a pobreza de forma eficiente.

Isto é, simplesmente aumentar os valores não significa, automaticamente, mais resultados.

Por isso, se a ideia é melhorar o Bolsa Família, o governo poderia vincular melhor o benefício à composição familiar e suavizar a transição para quem aumenta a renda.

Embora a Regra de Proteção já evite a perda imediata do auxílio, o mecanismo poderia ser suavizado ao utilizar, por um período, uma fração da renda do trabalho no cálculo do benefício, reduzindo o impacto do aumento dos rendimentos.

Além disso, um agente de desenvolvimento social nos Cras poderia acompanhar cada família e conectá-la aos serviços públicos existentes, seguindo um caminho que vem sendo trilhado por iniciativas estaduais.

O Bolsa Família funciona, e essa é mais uma razão para aperfeiçoá-lo com base em evidências, e qualquer reajuste deveria ser consequência desse trabalho, não um atalho às vésperas da eleição.

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Em números

  • Na avaliação de uma expansão do Bolsa Família, a inclusão de 100 famílias a cada 10 mil habitantes elevou a votação de prefeitos candidat

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