Professor vai usar parte do 13º salário para consertar carro; oficinas relatam aumento na procura por reparos.
Segundo a OAB/MS, a Prefeitura pode ser responsabilizada, e o motorista deve reunir provas para pedir indenização.
Enquanto motoristas acumulam despesas e transtornos, oficinas registram aumento na procura por reparos, principalmente de pneus, rodas e suspensão. Na noite de quinta-feira (5), por volta das 21h, foi a vez de Bruno, que dirigia pelo bairro Monte Líbano quando atingiu um buraco que não conseguiu enxergar.
Ele disse que não chovia, mas o trecho estava escuro e, segundo o professor, a falta de iluminação dificultou a identificação do problema.
Agora, parte do décimo terceiro salário, antes reservada para outras despesas, será destinada ao conserto e pretende parcelar o restante do valor.
Três pneus em um mês - Na Auto Rodas, na Avenida Ceará, o mecânico Hélio Alves Lemes relata um caso ainda mais caro. Um cliente, proprietário de uma BMW X5 modelo 2026, teria danificado três pneus em apenas um mês ao passar por buracos.
Diante da sequência de gastos, o motorista chegou a comentar que pensava em vender o veículo ou deixá-lo parado e passar a utilizar transporte por aplicativo. Hélio afirmou que o proprietário prefere não dar entrevista.
Segundo o empresário, a oficina recebe, em média, de quatro a seis carros por dia com problemas provocados por impactos em buracos. Rodas empenadas e pneus cortados lideram os atendimentos, mas amortecedores, coxins e bieletas também podem ser danificados.
Segundo ele, os atendimentos aumentaram nos últimos meses. "Quando a cidade estava bem melhor, era bem menos. Não que não acontecia, mas era bem menos. Hoje está mais corriqueiro.
Dependendo do impacto, ainda é necessário substituir peças da suspensão e fazer alinhamento.
Conforme Hélio, veículos elétricos sem estepe representam outra dificuldade, pois nesses casos, um pneu danificado pode exigir socorro no local ou transporte por guincho."Já é uma dor de cabeça, já é um tempo que o cliente perde.
Às vezes ele está no serviço, está com compromisso, já bagunçou a vida da pessoa", observa.
Movimento dobra na borracharia - Na Avenida Afonso Pena, em frente ao Shopping Campo Grande, o empresário Abadial Garcia Diniz precisou ampliar a estrutura para acompanhar a demanda.
Com sete anos de experiência, comprou duas máquinas de vulcanização, utilizadas para recuperar pneus cortados, elevando de três para cinco o número de equipamentos.
Apesar do aumento na procura, ele afirma que procura manter os preços acessíveis. "Eu tento ser um pouco mais consciente, porque não está fácil para todo mundo.
Entre os clientes atendidos estava Lhuana Delmondes, que perdeu dois pneus em menos de 15 dias, após passar por buracos na mesma via, em sentidos diferentes.
Na primeira ocorrência, o pneu rasgou imediatamente e não teve conserto. Lhuana conseguiu parar em um posto de combustíveis e precisou chamar o marido para fazer a troca.
Na segunda, percebeu que o pneu estava murcho cerca de dez minutos depois, ao chegar ao Shopping Campo Grande. Dessa vez, foi possível recuperá-lo.
Somente neste ano, a motorista afirma ter comprado dois pneus novos e consertado outros dois. Além das despesas, reclama das interrupções na rotina e da necessidade de depender de outras pessoas para resolver os imprevistos.
Às vezes a gente tem que escolher em qual que a gente vai cair", desabafa, referindo-se à quantidade de buracos.
Cartazes cobram reparos - Nas ruas do Jardim Mansur, moradores espalharam cartazes cobrando providências diante de buracos que, segundo eles, persistem mesmo após serviços de manutenção.
Vigilante noturno, Paulo Teixeira Alecrim afirma que os buracos no local existem há aproximadamente um ano e já provocaram diferentes situações envolvendo motoristas.
Os cartazes foram registrados pela equipe de reportagem na Rua Fernão Dias e no cruzamento das ruas Bom Pastor e Domingos Jorge Velho.
Segundo Paulo, um motorista chegou a atingir um poste durante uma tentativa de desviar de um buraco. Ele também reclama dos transtornos para quem trabalha e circula pela região.
José Aparecido Soares conta que equipes realizaram serviços de tapa-buracos em alguns trechos, mas as irregularidades reapareceram pouco tempo depois. Para ele, o recapeamento seria uma solução mais duradoura.
O morador também relata que o filho teve um pneu cortado ao atingir um buraco encoberto pela água da chuva. "É prejuízo, filha, é prejuízo. Tudo é prejuízo", lamenta.
Segundo José, um dos cartazes cobrando providências estava instalado havia cerca de vinte dias. Outros avisos semelhantes foram colocados em ruas próximas.
Ao tentar desviar de um deles, acabou atingindo outro e estourou os dois pneus do lado direito do veículo.
Para reduzir os gastos, comprou dois pneus novos e outros dois usados. Ele disse que pretende substituir os usados em breve, mas vai pesquisar preços na internet para economizar.
Desde os incidentes, passou a dirigir mais devagar e a redobrar a atenção. Mesmo assim, relata que nem sempre consegue escapar.
Ivonete Farias Pereira, também moradora da região, informou que outro cartaz estava no local havia aproximadamente 15 dias. Na semana passada, segundo ela, equipes estiveram no bairro para realizar serviços de tapa-buracos e limpeza dos jardins.
Como pedir ressarcimento - A advogada Larissa Brandão, presidente da Comissão Estadual de Defesa do Consumidor da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul), alerta que motoristas que têm veículos danificados por buracos nas vias públicas podem solicitar indenização ao poder público, desde que comprovem a relação entre o acidente e o prejuízo.
Segundo ela, a Prefeitura pode ser responsabilizada quando houver falha na conservação ou sinalização da via. A possibilidade está amparada pelo artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição Federal, e pelo artigo 1º, parágrafo 3º, do Código de Trânsito Brasileiro.
Quem paga impostos tem direito a ruas seguras e não deve arcar sozinho com essa conta", afirma.
O ressarcimento pode incluir pneus, rodas, suspensão, guincho e outros reparos. Dependendo das circunstâncias, também é possível pedir indenização por lesões, danos estéticos, perda de renda e danos morais.
Entretanto, é necessário comprovar o acidente, os danos e a relação entre eles. Fatores como excesso de velocidade ou a existência de sinalização podem influenciar a análise da responsabilidade.
Larissa recomenda fotografar e filmar o buraco e o veículo, registrar endereço, data e horário, identificar testemunhas e fazer boletim de ocorrência. Orçamentos, notas fiscais, recibos de guincho e comprovantes de outras despesas também devem ser guardados.
Reclamar não basta: é a prova do prejuízo que transforma a indignação em direito", ressalta.
Com a documentação, o motorista pode apresentar pedido administrativo ao município ou recorrer diretamente à Justiça. O prazo para ingressar com uma ação é, em regra, de cinco anos.
Já a Ouvidoria deve responder às manifestações em até 30 dias, prorrogáveis por mais 30, conforme a Lei Federal 13. 460/2017. Esse período se refere à resposta, não ao pagamento de eventual indenização.
A advogada lembra que o TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) já reconheceu pedidos de indenização por prejuízos em veículos e danos estéticos, conforme as provas apresentadas em cada processo.
O motorista não pode ser obrigado a conviver com o buraco na rua e, depois, com o buraco no orçamento", conclui.
Em números
- Em Campo Grande, motoristas pagam até R$ 16,5 mil
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