Após diagnóstico de Eduardo, Alexandre levou conhecimento de inclusão para agentes de segurança em todo o País.
Aos 2 anos e meio, Eduardo recebeu o diagnóstico de autismo. Para o pai, Alexandre Figueiredo, de 52 anos, aquele momento trouxe dúvidas, medo e a necessidade de aprender mais sobre uma condição que, até então, também era pouco discutida dentro da própria profissão.
Policial desde 1994, ele percebeu que o conhecimento adquirido dentro de casa poderia ajudar a mudar a forma como agentes de segurança abordam pessoas autistas no dia a dia de serviço.
Eduardo hoje tem 10 anos e é autista nível 2 de suporte. Segundo Alexandre, alguns sinais já chamavam a atenção da família, como o incômodo durante o corte de cabelo, o hábito de andar na ponta dos pés e, principalmente, o atraso na fala.
A busca por respostas começou quando o menino tinha cerca de 2 anos e meio e o diagnóstico veio aos 2 anos e 9 meses.
A partir daí, Alexandre e a esposa, Márcia, passaram a estudar mais sobre o assunto e procurar grupos de apoio. O que inicialmente era uma tentativa de compreender melhor o próprio filho acabou fazendo o policial olhar para uma questão que poderia aparecer também durante o trabalho.
O receio tinha relação principalmente com o futuro de Eduardo. Conforme o filho crescesse, poderia chegar o momento em que ele precisaria lidar com uma abordagem policial.
Para Alexandre, sem informação, uma situação que poderia ser resolvida com acolhimento poderia acabar aumentando uma crise.
Foi então que o olhar de pai começou a ultrapassar os limites da própria casa. Em 2019, Alexandre apresentou a ideia e começou a trabalhar no projeto Guardião Azul - Amigo do Autista.
A proposta era levar informação não apenas para policiais, mas também para outros espaços onde pessoas autistas circulam, como shoppings e parques.
O projeto ganhou força ao longo dos anos e, em 2023, passou a integrar uma iniciativa nacional da Polícia Rodoviária Federal, o PRF Amiga dos Autistas. Desde então, foram desenvolvidas ações de conscientização, capacitação e um manual de atendimento integrado para pessoas com autismo.
Na prática, os policiais são orientados sobre características do comportamento autista, comunicação aumentativa e alternativa, como as pranchas de comunicação, além de formas de aproximação que podem evitar a escalada de uma crise.
Outro ponto trabalhado pelo projeto é a importância de entender quem acompanha a pessoa durante uma crise. Segundo ele, muitos familiares e cuidadores conseguem ajudar a acalmar a situação justamente por conhecerem melhor aquela pessoa.
E a iniciativa já ultrapassou os limites da PRF. Alexandre conta que outras instituições de segurança também começaram a desenvolver protocolos e ações voltadas ao atendimento de pessoas autistas.
No meio de tudo isso, Alexandre acabou olhando para a própria história. Enquanto estudava o autismo para compreender melhor o filho e orientar outros profissionais, começou a perceber características em si mesmo.
Depois de mais de três décadas como policial, buscou uma avaliação e recebeu o diagnóstico de autismo nível 1 de suporte.
Para ele, descoberta também reforçou a importância de falar sobre o diagnóstico tardio. “Você acaba desenvolvendo um olhar para você também. Fui buscar o meu diagnóstico”, conta.
Alexandre acredita que essa experiência também pode servir de referência para outras famílias, especialmente aquelas que começam a reconhecer características semelhantes em pais ou adultos mais velhos.
Para ele, muitas pessoas cresceram sem que o autismo fosse compreendido da maneira como é hoje. “Eu acho que a nossa geração dos 40, 50, 60 anos era uma geração invisibilizada”, afirma.
Além do trabalho na segurança pública, Alexandre e Márcia também montaram uma rede de apoio para famílias. O projeto virou o Instituto Guardião Azul, Amigo do Autista, que hoje é conduzido por Márcia.
A proposta é fazer com que a informação circule de maneira simples e possa chegar a mais pessoas. “A informação é a maior inclusão”, resume Alexandre.
Segundo ele, a preocupação também está dentro das próprias instituições. Em uma pesquisa interna citada por Alexandre, mais de 200 famílias de policiais foram identificadas como cuidadoras de pessoas autistas e 42 policiais se declararam autistas.
Segundo ele, só em 2026 a PRF já registrou mais de 13 mil momentos de alteração envolvendo pessoas autistas.
Para quem começou essa trajetória dentro de casa, acompanhando o próprio filho, os números mostram que a preocupação estava longe de ser apenas uma questão familiar.
Em números
- Segundo ele, só em 2026 a PRF já registrou mais de 13 mil momentos de alteração envolvendo pessoas autistas
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