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De karaokê à selfie na delegacia: a relação entre policiais de elite e família de traficantes da fronteira

6 min de leitura
De karaokê à selfie na delegacia: a relação entre policiais de elite e família de traficantes da fronteira

As operações Ifrit, da Polícia Federal e da Receita Federal, e Infiltrados I e II, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), investigam uma rede de tráfico internacional de drogas e armas que contava com a participação de agentes públicos.

As apurações apontam que o esquema era liderado pelo Clã Haidar, organização criminosa de estrutura familiar com atuação na fronteira entre Ponta Porã (MS), e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

O grupo teria cooptado policiais para proteger rotas de transporte de drogas, obter informações sigilosas e retirar entorpecentes de depósitos de delegacias.

As investigações se cruzam ao identificar a participação de policiais que facilitavam o esquema. Enquanto a Operação Infiltrados apura o desvio de drogas apreendidas e armazenadas em unidades policiais, como a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) e a Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), a Operação Ifrit investiga a estrutura internacional do grupo, suas conexões com facções criminosas e a lavagem de dinheiro.

As operações resultaram no cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão, além do bloqueio de patrimônio ligado aos investigados.

Entenda abaixo o que se sabe sobre as operações.

1. O que são as Operações Ifrit e Infiltrados e qual é o foco de cada uma.

A Operação Ifrit, conduzida pela Polícia Federal e pela Receita Federal, investiga o tráfico internacional de cocaína e armas atribuído ao Clã Haidar e a organizações criminosas parceiras.

Já a Operação Infiltrados, do MPMS, por meio do Gaeco, apura o desvio de drogas apreendidas por policiais civis em Mato Grosso do Sul.

As duas investigações apontam a participação de agentes públicos em atividades do crime organizado, com acesso a informações sigilosas e facilitação do transporte e da retirada de entorpecentes.

2. Qual é a relação entre a Operação Ifrit e a Operação Infiltrados.

A conexão está na participação de policiais civis que teriam facilitado o desvio de drogas apreendidas e repassado informações sigilosas ao grupo criminoso.

A Operação Infiltrados investigou a atuação de servidores responsáveis por retirar entorpecentes de depósitos de delegacias. A Operação Ifrit ampliou o alcance das apurações ao identificar a ligação desses policiais com o Clã Haidar, que pagaria propina para receber a cocaína desviada e obter informações de inteligência.

3. Quem são os líderes do Clã Haidar e como a organização funcionava.

Segundo as investigações, a cúpula era formada pelos irmãos Nasser, Bassam e Adel Haidar, além de Maroan Fernandes Haidar Ahmed, apontado como integrante do grupo que emitia ordens mesmo enquanto estava preso em uma penitenciária federal.

A organização adquiria cocaína e fuzis na Bolívia, no Peru e no Paraguai para abastecer estados brasileiros e enviar carregamentos à Europa.

Para controlar territórios e proteger as atividades criminosas, o grupo utilizava veículos blindados, drones e pistoleiros.

4. Como funcionaram a primeira e a segunda fases da Operação Infiltrados.

A primeira fase da Operação Infiltrados, deflagrada em setembro de 2026, teve como alvo o delegado Hoffman D'Ávila, suspeito de desviar cocaína da Denar.

Já a segunda fase, chamada Infiltrados II e deflagrada em novembro de 2026, teve como alvo nove policiais civis da Defron, em Dourados. Eles são investigados por suspeita de subtrair mais de 500 quilos de cocaína durante apreensões, nos depósitos policiais ou no transporte da droga para incineração.

5. Como funcionava o esquema de substituição da cocaína por amido de milho.

De acordo com as investigações, integrantes do grupo tinham acesso aos depósitos policiais com a ajuda de agentes cooptados.

A cocaína pura apreendida era retirada para venda ilegal e substituída por uma mistura de amido de milho, fermento e outros aglutinantes. O material adulterado tinha concentração de cocaína inferior a 10%.

A mistura era utilizada para substituir a droga original e, segundo a apuração, passava por testes preliminares sem levantar suspeitas. Com isso, o material seguia para incineração por determinação judicial.

6. Qual é o envolvimento dos delegados Hoffman D'Ávila e Guilherme Scucuglia.

O delegado Hoffman D'Ávila, ex-titular da Denar e do Grupo de Repressão e Investigações Especiais (Garras), é suspeito de facilitar o acesso de criminosos aos depósitos policiais e desviar cerca de duas toneladas de cocaína.

Já o delegado Guilherme Scucuglia, ex-chefe da Defron, foi alvo de mandados de busca e apreensão na segunda fase da Operação Infiltrados. A defesa nega irregularidades e afirma que ele foi enviado à região de fronteira pela direção da Polícia Civil justamente para investigar os desvios cometidos por outros servidores.

7. Quais evidências apontam a proximidade entre policiais e traficantes.

Relatórios da Polícia Federal reuniram registros que indicariam a proximidade entre policiais e integrantes do Clã Haidar.

Entre as evidências estão fotos do delegado Hoffman D'Ávila em um karaokê com o líder do grupo, Adel Haidar, além de imagens dos dois abraçados e testando armas.

Os investigadores também identificaram registros de integrantes do clã dentro da sede da Denar e selfies ao lado de viaturas do Garras, com investigadores que, segundo a apuração, repassavam informações sigilosas à organização.

8. Quais facções criminosas tinham ligação com o grupo investigado.

Segundo a Polícia Federal, o Clã Haidar mantinha relações e negócios com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).

As drogas desviadas de apreensões policiais ou adquiridas em países vizinhos abasteciam redes de distribuição dessas facções no mercado brasileiro e em rotas internacionais.

9. Quais eram as rotas do tráfico internacional de drogas.

As drogas e as armas eram adquiridas na Bolívia, no Peru e no Paraguai e entravam no Brasil pela fronteira de Mato Grosso do Sul.

Além de abastecer estados como São Paulo, Paraná e Santa Catarina, a organização utilizava o território brasileiro como ponto de passagem para enviar carregamentos de cocaína à Europa, principalmente para Espanha e Portugal.

10. Quanto dinheiro a organização movimentou e quais bens foram bloqueados.

11. O que dizem as defesas dos policiais investigados.

A defesa do policial civil Douglas Tobias informou que acompanhou o cumprimento do mandado de busca e apreensão, mas ainda não teve acesso à decisão judicial nem ao conteúdo do inquérito.

Em nota, o advogado Luiz Renê afirmou que Douglas está à disposição para prestar esclarecimentos.

De todo modo, Douglas Tobias mais uma vez demonstrou se tratar de pessoa idônea, profissional exemplar e nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça", declarou.

Já a defesa do delegado Guilherme Scucuglia sustentou que ele foi enviado à região de fronteira para investigar os desvios cometidos por outros policiais.

O que diz a defesa do delegado na íntegra.

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