Existe um exercício recorrente na trajetória do rapper Zudizilla: reconhecer quando uma versão de si mesmo já não é suficiente para traduzir o artista que se tornou.
Foi assim quando deixou para trás o rapper que fazia trap no início da década passada, quando criou outros personagens para organizar diferentes momentos de sua obra e, mais recentemente, quando encerrou os quatro anos dedicados à trilogia Zulu.
É justamente desse processo de transformação que nasce Quintessência, quinto álbum de estúdio do rapper de Pelotas. Na alquimia, o termo representa a substância mais pura de um elemento, alcançada depois de sucessivos processos de destilação.
Zudizilla encontrou nessa ideia não apenas o conceito para organizar seu novo trabalho, mas uma maneira de compreender a própria trajetória: depois de experimentar diferentes possibilidades de escrita, produção, mercado e performance, o quinto disco surge como o ponto em que essas experiências finalmente convergem.
O Zudizilla que viveu na esquina, vendeu drogas e quase morreu ainda existe e eventualmente reaparece em músicas como “Barracuda”. A diferença é que o artista já não sente necessidade de vestir permanentemente essa armadura para atender às expectativas colocadas sobre um rapper.
Em Quintessência, seu ponto de partida é outro: “Eu parto muito do sorriso do meu filho para frente”. A paternidade já havia aparecido no encerramento da trilogia Zulu, inclusive na voz de Dayo, seu filho, abrindo o terceiro volume.
Agora, porém, essa mudança de perspectiva atravessa a própria maneira como Zudizilla escolhe falar sobre o mundo. Racismo, liberdade, identidade e questões sociais continuam presentes, mas sem ocupar necessariamente a superfície de cada composição.
Para ele, cada trabalho anterior permitiu aprofundar uma habilidade diferente. Mas a partir de Zulu Vol. 3: Quarta Parede, foi onde começou a se aproximar da organicidade que agora ocupa o centro de Quintessência.
O resultado dessa depuração não é um álbum minimalista. Pelo contrário. Ao longo de 16 faixas, Zudizilla aproxima rap, jazz, soul, samba e ritmos ligados ao Sul do Brasil, cercado por participações que incluem nomes como Kamau, Febem, Bruna Mendez, Luciana Mello, Catto, Cristal, Vitor Ramil e Renato Borghetti.
A ideia de pureza, portanto, não está na ausência de interferências, mas na capacidade de absorvê-las sem perder uma assinatura. Para alcançar esse resultado, Zudizilla tomou uma decisão aparentemente simples, mas inédita em sua discografia: colocou no estúdio a banda que já o acompanhava havia anos nos palcos.
A intimidade adquirida na estrada permitiu que samples e ideias criadas inicialmente no MPC fossem reinterpretados pelos músicos, preservando a proposta original enquanto ganhavam novas possibilidades harmônicas, rítmicas e de improvisação.
Um Sul que não cabe no imaginário brasileiro https://www.youtube.com/watch?v=u-YYpjMGxp8&list=RDu-YYpjMGxp8&start_radio=1&pp=ygUJenVkaXppbGxhoAcB0gcJCS0MAYcqIYzv A presença da banda também permitiu que Zudizilla aprofundasse outra pesquisa antiga: transformar sua origem geográfica em linguagem musical.
Nascido em Pelotas, o rapper questiona a imagem homogênea construída sobre o Rio Grande do Sul e, principalmente, qual versão do estado costuma ser reconhecida pelo restante do Brasil.
Catto, Cristal, Vitor Ramil e Renato Borghetti aparecem no álbum não simplesmente como participações oriundas do mesmo estado, mas como elementos de uma geografia musical que Zudizilla procura colocar em evidência.
O rapper também olha para a chamada rota afro-suliana e para as conexões culturais estabelecidas entre o extremo sul brasileiro e o Uruguai para disputar uma ideia de identidade gaúcha que, segundo ele, historicamente deixou experiências negras à margem.
Alquimia, Etiópia, Renascença Negra e a Nação dos 5% aparecem conectadas por um elemento que, durante a criação, começou a perseguir Zudizilla: o número cinco. É seu quinto álbum de estúdio.
A quintessência seria alcançada após cinco destilações. O número também carrega, dentro das pesquisas realizadas pelo artista, associações com mudança, liberdade e início de novos ciclos.
A partir dali, Zudizilla passou a encontrar novas correspondências e a utilizá-las como ferramenta para estruturar o universo conceitual da obra. “Foi muito louco porque, mais uma vez, a sorte e o presente do universo: o número cinco trouxe tudo.
O cinco amarrou tudo”, conta. A pesquisa levou o rapper ao Éter, à Etiópia e posteriormente à Nação dos 5%, movimento que exerceu influência importante sobre a formação cultural e intelectual de diferentes nomes do hip-hop norte-americano.
O interesse de Zudizilla, entretanto, não era transformar essas referências em uma aula dentro das músicas. Pelo contrário: buscava uma maneira de continuar discutindo racismo, consciência, autonomia e liberdade sem necessariamente anunciá-los como assunto principal.
A segurança de ser Zudizilla Por trás de toda a arquitetura conceitual de Quintessência, porém, talvez exista uma transformação mais simples. O quinto disco é também aquele em que Zudizilla parece finalmente confortável em reconhecer a amplitude do artista que se tornou.
Durante muito tempo, apesar de produzir a própria música, carregou insegurança em relação a essa função. Ele aponta a confiança recebida de Luedji Luna, para quem trabalhou como produtor, como fundamental para começar a enxergar essa habilidade de outra maneira.
Hoje, já não se percebe somente como o MC à frente de suas próprias músicas, mas como alguém capaz de controlar diferentes dimensões da obra que imagina. “Uma vez uma mina falou para mim: ‘Cara, tu não é só um MC.
Um dia tu vai descobrir isso, mas tu não é só um MC’. E acho que agora, sim, é um lugar de maturidade. É um lugar em que consigo entender os meus processos, os meus lugares, minhas potências, minhas possibilidades, meus desafios", relata.
Não é por acaso que, quando questionado sobre o que espera plantar a partir de Quintessência, Zudizilla não fala primeiro sobre números, alcance ou reconhecimento.
Sua resposta é interna: “É o momento em que eu cravo uma bandeira de segurança no lugar em que habito enquanto artista". Essa segurança não elimina as dúvidas sobre como um trabalho tão particular será recebido pelo mercado.
Zudizilla reconhece a preocupação, mas parece menos disposto do que antes a permitir que ela determine suas escolhas. Depois de cinco discos, diferentes personagens, uma trilogia e anos tentando aproximar aquilo que imaginava daquilo que conseguia registrar, ele finalmente sente que sua música começa a soar como a música que sempre existiu em sua cabeça.
Talvez seja essa a verdadeira quintessência que Zudizilla encontrou. Não uma versão definitiva ou perfeita de si mesmo, mas um lugar suficientemente seguro para que já não precise corresponder às versões que os outros esperam dele.
Se o número cinco representa o início de um novo ciclo, seu quinto álbum parece menos interessado em concluir aquilo que veio antes do que em estabelecer as condições para tudo que ele ainda acredita ser capaz de criar.
https://www.youtube.com/watch?v=BM7Qmzb7jmU&pp=ygUJenVkaXppbGxh.
Isso não significa negar os personagens anteriores. O Zudizilla que viveu na esquina, vendeu drogas e quase morreu ainda existe e eventualmente reaparece em músicas como “Barracuda”.
A diferença é que o artista já não sente necessidade de vestir permanentemente essa armadura para atender às expectativas colocadas sobre um rapper. Em Quintessência, seu ponto de partida é outro: “Eu parto muito do sorriso do meu filho para frente”.
A paternidade já havia aparecido no encerramento da trilogia Zulu, inclusive na voz de Dayo, seu filho, abrindo o terceiro volume. Agora, porém, essa mudança de perspectiva atravessa a própria maneira como Zudizilla escolhe falar sobre o mundo.
Racismo, liberdade, identidade e questões sociais continuam presentes, mas sem ocupar necessariamente a superfície de cada composição. “Eu queria trazer o eu do presente, sem precisar ser repetitivo, sem precisar ser panfletário para trazer todas essas questões sociais que eu enxergo no mundo.”.
A metáfora da destilação ganha um significado ainda mais concreto quando Zudizilla observa sua discografia. Para ele, cada trabalho anterior permitiu aprofundar uma habilidade diferente.
Mas a partir de Zulu Vol. 3: Quarta Parede, foi onde começou a se aproximar da organicidade que agora ocupa o centro de Quintessência. “Destilei bem a letra, destilei a produção, destilei a entrega para o mercado, sei o que o mercado vai querer de mim.
E no volume três faço quase que um teste, uma primeira tentativa para chegar nesse lugar puro”, explica.
O jazz trio formado por Júlio Lino, Gabriel Gaiardo e Maurilio “Pé Beat” Santiago deixou de ser responsável apenas por transportar as músicas para os shows e passou a participar de sua construção.
Um Sul que não cabe no imaginário brasileiro.
Para Zudizilla, essa particularidade territorial é também aquilo que impede sua música de se tornar apenas uma reprodução do que já é produzido nos grandes centros.
A territorialidade é apenas uma das camadas de um disco construído sobre uma extensa pesquisa. Alquimia, Etiópia, Renascença Negra e a Nação dos 5% aparecem conectadas por um elemento que, durante a criação, começou a perseguir Zudizilla: o número cinco.
Sua resposta é interna: “É o momento em que eu cravo uma bandeira de segurança no lugar em que habito enquanto artista”.
Essa segurança não elimina as dúvidas sobre como um trabalho tão particular será recebido pelo mercado. Zudizilla reconhece a preocupação, mas parece menos disposto do que antes a permitir que ela determine suas escolhas.
A coluna que mergulha nas histórias, letras e batidas que estão redefinindo o cenário musical do Rap. Acompanhe de perto os lançamentos e a força das rimas que ecoam pelas ruas.
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