O Brasil não precisa importar superastros: rapper superou Kendrick Lamar e igualou o público de Travis Scott no Nubank Parque.
- 19/09/2026 — São Paulo (SP) – Nubank Parque.
- 24/10/2026 — Porto Alegre (RS) – KTO Arena.
- 19/11/2026 — Salvador (BA) – Arena A TARDE.
- 28/11/2026 — Belo Horizonte (MG) – Arena Hall.
- 19/12/2026 — Curitiba (PR) – Igloo Super Hall.
- 16/01/2027 — Rio de Janeiro (RJ) -Estádio do Maracanã.
Por muito tempo, a ideia de um espetáculo de rap em larga escala para o público brasileiro esteve associada apenas a atrações internacionais. No último sábado, 19, BK’ mostrou que a potência necessária para tal feito sempre residiu aqui, no Brasil.
Diante de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, o carioca conduziu quase três horas de um verdadeiro recital à altura do legado de “Castelos & Ruínas” (2016).
É curioso e assertivo afirmar que Abebe Bikila — nome em homenagem ao lendário maratonista etíope — venceu a corrida para ser o primeiro rapper brasileiro a realizar um show solo em estádio, abrindo oficialmente a turnê comemorativa de seu álbum de estreia, lançado em 2016 pela Pirâmide Perdida Records.
Com justiça, as 13 faixas de “Castelos & Ruínas” foram contempladas num setlist que viajou desde os primórdios do “Bloco 7” até as recentes e já consolidadas eras de “Icarus” (2022) e “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer” (2025).
De fato, é uma árdua tarefa reunir numa única apresentação mais de 10 anos de uma discografia em constante renovação criativa. O repertório chegou a impressionantes 39 músicas e contou, em atos, uma história gradativa de Luz, Sombra e Coroação.
isso sem contar as inevitáveis love songs, um ato à parte.
Desde o lançamento do curta-metragem “Monumental”, dirigido por Willy Hajili e Poeta Visual, já era evidente a grandiosidade que a turnê viria a propor, e não foi diferente com a quantidade de participações especiais na noite de estreia.
O palco do Nubank Parque foi munido de participações enérgicas com Luccas Carlos, L7NNON, Akira Presidente, Sain, Marcelo D2, Evinha, Febem, FYE, 2ZDinizz, Ashira, Djonga e Marina Sena.
Essa última, por exemplo, entrou em “Se Eu Não Lembrar”, enquanto Evinha participou de “Só Quero Ver” e “Cacos de Vidro”. Destaque também para a entrada de Febem em “ESSE É MEU ESTILO”, que inflamou o público.
As diferentes conexões construídas por BK’ ao longo de uma década ganharam tom épico com direção de arte coesa, onde o frequente surgir dos artistas no topo da escadaria harmonizava com a proposta instrumental do espetáculo que, tecnicamente, tende apenas a evoluir conforme as apresentações.
Em termos estéticos, o look inicial da Quadro Creations moldou o brasileiro como um superastro internacional e a primeira cena de Monumental nos telões do estádio amarrou a essência proposta desde o início do show.
As canções de “Castelos & Ruínas”, cantados quase religiosamente, mereceram o protagonismo da noite.
De 2016 para cá, Abebe Bikila mudou. Junto dele, a cena, o público e o Brasil mudaram nem sempre em sintonia, mas com a chama do que é real sempre acesa em intensidades variáveis.
Momentos excêntricos denotaram tais mudanças de perspectiva, bem como na performance de “Visão Ampla”, onde o rapper deixou de concluir o verso “Sobre política: Não vote” e, ao invés disso, “fez o L” com a mão.
A “Coroação” do espetáculo ganhou um trono, onde BK’ levou a mão ao peito enquanto os arcos da Lapa apareciam no telão para cantar “Amanhecer”. Neste momento, as duas vozes mais potentes dessa geração do rap nacional se uniram numa transição para “O Mundo É Nosso”, onde Djonga surgiu com a notória presença de sempre.
Numa rara menção ao ocorrido, BK’ lembrou o apoio do amigo após a morte de sua mãe, em agosto de 2025: “Esse é sujeito homem de verdade”.
Em momento intimista e significativo, Djonga respondeu contando o impacto que “Castelos & Ruínas” teve em sua própria trajetória: “Se esse cara que parece comigo conseguiu, eu consigo também.” O rapper mineiro exaltou o feito coletivo da noite e brincou – mais de uma vez – sobre o fato de o show de Kendrick Lamar, referência para ambos, ter contado com público inferior ao de BK’ no Nubank Parque.
No final, um dos momentos mais marcantes da noite não teve trilha sonora, e sim dois amigos “trocando ideia” para 50 mil pessoas assistirem, desmentindo quaisquer alegações de rivalidade histórica e fortalecendo a união do rap e, sobretudo, da música brasileira como um todo.
Notavelmente, a autoconsciência de que “sim, é possível fazer isso” esteve presente nos rostos tanto dos fãs quanto dos artistas. E esse talvez seja o principal significado da noite.
Não se trata de dizer que artistas estrangeiros deixaram de ter importância ou que o público brasileiro não queira vê-los. Nós ainda figuramos entre os principais ouvintes de músicos do mundo inteiro, o “Come to Brasil” sempre funciona, e não há problema nenhum nisso.
O ponto é outro: o tamanho alcançado por BK’ evidencia que existe, no próprio país, uma cena capaz de produzir eventos de escala monumental, com identidade própria, repertório reconhecido e uma história que pertence ao público brasileiro independentemente do estigma de regionalização que, por muito tempo, foi uma cisma do rap nacional.
Das ruínas ao castelo, Abebe Bikila conquistou o Brasil e, citando Marcelo D2 durante o show: “Dona Ana tá muito orgulhosa lá do céu”.
Em números
- Diante de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, o carioca
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…