Ir para o conteúdo
Mundo Revisado por ULTRA AI

Por dentro da caçada ao 'Aranha', o chefe de espionagem do ex-ditador sírio Bashar al-Assad

Como encontramos um dos mais temidos homens da Síria durante o regime de Bashar al-Assad.

14 min de leitura
Mundo — imagem padrão

BBC News, Vá para o conteúdoNotícias.

Espalhadas pelo chão da sala de estar, sob um brilhante candelabro de cristal, havia dezenas de fotos do mesmo homem magro em diferentes ambientes: sentado à sua mesa e até brincando na neve.

Havia também diversas cópias da mesma imagem, mostrando aquele homem sorrindo calorosamente ao cumprimentar o ditador deposto Bashar al-Assad.

O homem não era imediatamente reconhecível. Mas medalhas de ouro e certificados dourados empilhados traziam o nome Hussam Luka.

Conhecido como "Aranha", Luka foi um dos principais auxiliares de Assad. Ele foi acusado de orquestrar atrocidades e torturas sistemáticas e é objeto de sanções do Reino Unido, EUA e da União Europeia.

Luka era chefe da mais poderosa agência de inteligência civil da Síria. Por isso, ele era um dos homens mais temidos do país, mas grande parte do seu trabalho era realizado nas sombras.

Como outras pessoas do regime, Luka aparentemente sumiu da noite para o dia em dezembro de 2024, quando Assad foi deposto. Ele deixou um rastro de questões sem respostas e pedidos de justiça que muitos receiam que nunca serão atendidos.

No seu apartamento, dias após a queda de Assad, a BBC observou os rebeldes procurando por indicações sobre o possível paradeiro de Hussam Luka.

Os gêmeos que se casaram com irmãs gêmeas em celebração feita por padres gêmeos e com coroinhas gêmeos.

Quem ganhou o primeiro debate presidencial.

Quando será o próximo debate presidencial da eleição 2026.

Como um magnata excêntrico que tinha leão como animal de estimação se tornou o homem mais rico do mundo.

No canto da sala de estar, sobre uma mesa, estava um caderno aparentemente comum.

Dentro, rabiscados à mão com tinta azul, havia dezenas de nomes. Eles incluíam lojistas, médicos, autoridades militares e pessoas com o sobrenome Luka.

Será que estes contatos poderiam nos ajudar a saber mais sobre o Aranha e seus crimes — ou até a encontrar seu paradeiro.

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Fim do Promoção Agregador de pesquisas.

Houve uma época que era difícil deixar de encontrar o número de telefone de Luka.

No início da guerra civil da Síria (2011-2024), seu número foi pichado com spray em paredes da cidade central de Homs.

O conflito começou após a brutal repressão conduzida por Assad a um levante pró-democracia em 2011. Centenas de milhares de pessoas seriam mortas ao longo da guerra.

Luka era o diretor local da Diretoria Geral de Segurança (DGS), uma das principais agências de inteligência de Bashar al-Assad. Ele recebeu a tarefa de livrar a cidade dos rebeldes.

Na época, as áreas mantidas pelos rebeldes em Homs estavam sitiadas pelo governo. Os moradores enfrentavam dificuldade de acesso a alimentos e remédios.

Diversas pessoas relataram à BBC que chegaram a precisar se alimentar de ratos na ocasião. Uma delas foi o ex-combatente rebelde Motaz al-Zaydi.

Ele relembra que o nome e o número de telefone de Luka apareceram em uma parede no seu bairro. Segundo ele, começou a se espalhar a informação de que as pessoas que quisessem fugir do conflito poderiam telefonar para aquele número, pedindo um salvo conduto.

Acredita-se que Luka tenha fornecido autorização de trânsito para fora da cidade para algumas pessoas. Mas outras que ligaram para aquele número nunca mais foram vistas, segundo al-Zaydi e diversas outras pessoas com quem conversamos.

Muitos declararam à BBC que se referiam a Luka como "Aranha" devido à sua vasta teia de aliados e informantes, alguns deles infiltrados nos grupos rebeldes.

Ele estava em toda parte", contam moradores de Homs. Al-Zaydi descreve Luka como "gênio do mal" e "raposa humana.

Mas muitos defendem que sua ação mais notória na cidade foi o suposto envolvimento no chamado Massacre do Eid, também conhecido como Massacre das Crianças. Este foi um dos motivos que levaram os Estados Unidos a decretar sanções contra Luka.

Era o feriado muçulmano do Eid al-Adha, em setembro de 2015. O filho de Mohammed Towakatli, Wael, de sete anos, praticava jardinagem no parque infantil que o pai havia construído no bairro de al-Waer.

Mohammed relembra que o ataque começou às 17h10, pouco depois do início do racionamento de energia.

Andando pelo parque no início deste ano (agora com fileiras de mudas plantadas), Mohammed relembrou os nomes das crianças mortas e suas brincadeiras da época.

Ele apontou para os locais onde foram encontrados os corpos, incluindo o de Wael.

Eram crianças pequenas", conta ele, com lágrimas nos olhos. "O chão, aqui, estava vermelho de sangue.

Vinte e oito pessoas foram mortas no ataque, incluindo 17 crianças e quatro mulheres, segundo a Rede Síria de Direitos Humanos.

Um grupo ativista sírio e um jornal pró-oposição declararam na época que, naquele dia, Luka foi responsável pela escolha dos alvos do regime na região.

Suas ações em Homs valeram a ele uma promoção à direção do serviço de inteligência na DGS.

Os serviços de segurança do governo podiam atingir qualquer um, desde combatentes da oposição, jornalistas, médicos ou defensores dos direitos humanos, até qualquer pessoa considerada de oposição ao governo de Assad.

Os detidos ficavam em prisões políticas na Síria, incluindo a conhecida prisão Saydnaya em Damasco, conhecida como "abatedouro humano". Muitos prisioneiros nunca mais eram vistos.

Como chefe da DGS, Luka detinha controle estratégico sobre as polícias da Síria. Seu pessoal monitorava todas as comunicações que entravam ou saíam de Saydnaya.

Nas redes sociais, existem apelos generalizados de toda a sociedade síria para que as antigas autoridades de alto escalão do país sejam levadas à Justiça. Alguns também acusam o novo governo sírio de não fazer o suficiente para atingir este objetivo.

O procurador-geral da Síria, Hassan al-Turba, declarou à BBC que o governo apresentou uma ação judicial contra Luka, que é acusado de "assassinatos premeditados, tortura e morte resultante de tortura.

Uma ordem de prisão está circulando no país e estamos trabalhando para que ela também circule no exterior", afirma ele.

Turba destacou que o governo sírio estava buscando o paradeiro e a extradição de Luka e outras autoridades desaparecidas do regime anterior.

Towakatli ainda lamenta a morte do seu filho. Ele conta à BBC que gostaria que Luka e outras autoridades do regime de Assad retornassem à Síria e fossem executados.

Eles parecem seres humanos, mas não têm nenhuma humanidade", afirma ele.

A BBC fotografou todas as páginas do caderno encontrado no apartamento de Luka.

De volta a Londres, começamos a ligar para cada um dos seus 155 números de telefone, mesmo sabendo que muitas pessoas próximas do regime teriam fugido do país ou passado para a clandestinidade.

Mas 51 números pareciam estar em operação.

Ligamos novamente para eles, em ordem de importância aparente para Luka, começando pelos seus comandantes militares e parentes. Nenhuma das ligações teve sucesso.

As pessoas que atenderam simplesmente desligaram quando explicamos quem éramos e o que desejávamos. Ou negavam conhecer Luka, sua família ou mesmo serem as pessoas relacionadas no caderno.

Por isso, um repórter da BBC visitou a Síria para tentar fazer contato pessoalmente.

Seu nome já esteve em uma lista de procurados da DGS, na época em que Luka era o seu diretor.

Muitas das pessoas relacionadas na agenda telefônica eram médicos. Nosso repórter começou, então, a marcar consultas com alguns deles, como forma de encontrá-los.

Um médico em Aleppo relutou, mas reconheceu ter tratado de Luka. Ele ordenou a nosso jornalista que saísse, devolvendo o valor da consulta.

O repórter da BBC marcou consulta com outro médico constante da agenda telefônica, desta vez em Damasco.

Este médico revelou ter, certa vez, acompanhado a mãe de Luka em uma viagem médica para a Rússia. Ele relutou em oferecer mais informações, mas nos encaminhou vagamente a uma farmácia pertencente a uma das filhas de Luka.

Os moradores locais afirmam que ela também não é vista desde dezembro de 2024, quando Assad fugiu do país.

Crédito, ALEXEY DRUZHININ/ UTNIK/AFP via Getty Images.

Nossa caçada a Luka passou meses sem resultados, até que tivemos nossos primeiros avanços.

Tentamos ligar novamente para uma das pessoas relacionadas na agenda, que finalmente atendeu o telefone.

Ele contou que havia sido segurança do prédio onde Luka morou e acabou concordando em fornecer o número de uma pessoa que ele sabia ter sido seu guarda-costas pessoal.

Iremos chamá-lo pelo nome fictício de Mahmoud.

A BBC levou semanas para conseguir uma entrevista com Mahmoud.

Foram programados encontros, mas ele não compareceu, ou pedia uma reunião em um local privado, como um carro ou apartamento. Nosso repórter considerou esta situação muito arriscada.

O encontro acabou ocorrendo uma noite em um hotel, pouco antes da meia-noite. De ombros largos e fisicamente intimidador, Mahmoud pareceu calcular cuidadosamente cada resposta antes de falar.

Ele contou estar furioso com Luka por tê-lo deixado para trás quando o regime caiu.

Mahmoud conta que, em dezembro de 2024, quando surgiu a notícia de que o regime de Assad estava à beira do colapso, com os rebeldes avançando em direção à capital, Luka disse que ficaria e defenderia Damasco.

Mas, nas primeiras horas da manhã seguinte, ele havia desaparecido, levando consigo uma grande soma em dinheiro do cofre do escritório, segundo Mahmoud.

Nosso entrevistado se recusou a fornecer qualquer detalhe de contato de Luka ou sua família, mas ofereceu o telefone do motorista de Luka. Ele acredita que este motorista tenha levado o ex-chefe de espionagem para fora da capital naquela noite.

Encontrar este homem foi ainda mais difícil do que Mahmoud. Quando atendeu o telefone, sua voz estava nervosa e instável.

Ele insistiu diversas vezes que era apenas um motorista e não sabia nada sobre as atividades de Luka. Marcamos diversas reuniões que nunca se realizaram, até que ele deixou de responder nossas mensagens.

Em vista disso, voltamos nossa atenção para as possíveis rotas de fuga de Luka, incluindo o vizinho Líbano, onde o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã, mantinha ligações próximas com o regime de Assad.

Uma fonte importante do governo libanês contou à BBC que Luka teria passado pelo Líbano com um "passaporte russo válido, mas com outro nome", antes de tomar um voo para a Rússia.

Conseguimos encontrar um homem relacionado na agenda de contatos de Luka, em um número que não funcionava mais. Agora, ele mora no Líbano e é um dos muitos procurados pelo novo governo da Síria, devido à sua associação próxima com o regime de Assad.

A BBC não pode identificar este homem, mas ele afirmou ter um número de telefone de Luka. Nós vimos o número e percebemos que o código do país era da Rússia.

O governo russo foi um importante apoiador do regime de Bashar al-Assad. Nos dias que se seguiram à sua queda, ele publicou uma declaração confirmando que havia fugido para o país.

E acredita-se que muitos do seu círculo próximo o tenham seguido.

No apartamento de Luka em Damasco, encontramos indicações de que ele também mantinha fortes laços com Moscou. Havia prêmios concedidos pelo serviço de espionagem internacional da Rússia e até um cartão de Ano Novo enviado a ele por uma importante autoridade russa.

Agora, seu número de telefone finalmente indicava a comprovação de que ele estava na Rússia, como era previsto.

A reportagem queria verificar se aquele número realmente era de Luka.

Por isso, alguns dias depois, na nossa presença, o homem concordou em colocar no viva-voz a pessoa que ele disse ser Hussam Luka e apresentar questões que, segundo acreditávamos, somente Luka saberia a resposta, com base em informações coletadas durante a nossa investigação.

A voz do outro lado do telefone parecia confusa, mas respondeu às questões de forma correta e imediata.

Ele se recusou a falar conosco diretamente. Mas nosso contato concordou em ligar novamente e permitiu que tentássemos entrevistá-lo.

A mesma voz respondeu e nos apresentamos, explicando que tínhamos perguntas sobre acusações sérias relativas a massacres e tortura cometidos pela autoridade do antigo regime.

Não posso me arriscar a falar no telefone na posição em que me encontro", respondeu Luka, com tom de voz ansioso.

Questionado se a Rússia o estaria proibindo de falar, Luka respondeu: "Não posso falar. Não posso explicar. Você precisa entender.

Perguntamos se ele nos encontraria fora da Rússia. Ele respondeu "é difícil" e desligou o telefone.

A BBC obteve posteriormente um segundo número que, segundo fomos informados, também pertencia a Luka. Este era registrado na Síria e estava relacionado a aplicativos de mensagens e redes sociais que, aparentemente, ele ainda estava usando.

Em um dia, a BBC conseguiu localizá-lo em duas áreas suburbanas nas proximidades da capital russa, Moscou. Os locais pareciam muito diferentes do estilo de vida luxuoso que Assad estaria desfrutando no exílio na Rússia e da vida que o próprio Luka, um dia, teve na Síria.

Nós sabíamos que não poderíamos nos encontrar com ele pessoalmente na Rússia, onde os auxiliares de Assad são protegidos contra policiais e jornalistas estrangeiros.

Por isso, decidimos novamente tentar apresentar as acusações a ele por telefone.

Nós ligamos e a mesma voz de antes atendeu, em meio a ruídos na linha. Ele perguntou quem estava ligando e respondemos que era a BBC. Ele desligou imediatamente.

A confirmação de que Luka está em Moscou é uma má notícia para os sírios que buscam justiça. É altamente improvável que a Rússia extradite autoridades do regime que apoiou por tanto tempo.

O governo russo não respondeu aos pedidos de comentários da BBC sobre a presença de Luka no país ou se poderia vir a ser considerado um eventual pedido de extradição.

De volta a Homs, Mohammed Towakatli afirma que nunca perderá a esperança de que Luka e outras autoridades do regime de Assad enfrentem a justiça algum dia.

Estou furioso com todos os que estavam no regime e seu aparato de segurança... Todos eles eram contra nós", lamenta ele.

Wael era uma criança de apenas sete anos... Tudo o que ele queria era brincar e se divertir.

Com colaboração de Riam Dalati, Ghaith Solh e Abigail Akerman.

Por que o ex-ditador sírio Bashar al-Assad foi condenado à morte — e o que acontece agora11 agosto 2026.

Novo líder da Síria à BBC: 'Não somos ameaça ao mundo e concordamos com direito à educação para mulheres'19 dezembro 2024.

5 perguntas para entender o que aconteceu na Síria8 dezembro 2024.

Análise: 'A prisão de torturas de Assad é a pior que já vi'16 dezembro 2024.

As imagens da invasão e saque da mansão de Bashar Al Assad na Síria8 dezembro 2024.

Quem é Bashar al Assad, o médico que não esperava ser presidente e governou a Síria com mão de ferro8 dezembro 2024.

Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump, aponta estudoHá 2 horas.

Como o Talebã governa o Afeganistão e impede até divórcio de mulher que acusa marido de agressãoHá 45 minutos.

O apelo do influenciador Lito Sousa por tratamento experimental após revelar doença raraHá 8 horas.

Lula diz que Lulinha deve ser investigado e punido se tiver cometido erros24 agosto 2026.

Flávio Bolsonaro critica Lula e diz qual seria um de seus 'primeiros atos' caso vença as eleições24 agosto 2026.

O que o Canadá arrisca ao retaliar as tarifas de Trump? 23 agosto 2026.

Quem ganha e quem perde com a entrada de Pablo Marçal na disputa presidencial23 agosto 2026.

Zelensky precisa ser questionado sobre corrupção no seu governo, diz ministro demitido na Ucrânia23 agosto 2026.

Eleição 2026: quais são as propostas dos candidatos? 20 agosto 2026.

5Quem é Augusto Cury, o escritor que disputa as eleições de 2026.

8 Como foi o debate da Band: Caiado, Renan e Cury disparam ataques contra Lula e Flávio; veja repercussão.

9Os documentos que mostram como Juscelino Kubitschek esteve na mira dos EUA durante a ditadura.

Fontes

Informação baseada em material público de BBC Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • BBC Brasillink

Leia também

Mais em Mundo
Mundo — imagem padrão
Mundo

Lula e Edorgan combinam criação de conselho entre Brasil e Turquia

Os presidentes Lula e Erdogan também discutiram os conflitos bélicos ao redor do mundo, lamentando a persistências das guerras em curso, “e enfatizaram a importância de intensificar o diálogo para encontrar caminhos para

Em Mundo