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O que 'A Odisseia' tem a dizer sobre a era dos trapaceiros como Trump e Musk

Nova direita glorifica força, tributo e crueldade

3 min de leitura
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Admito que estou um pouco atrasado para dar minha opinião sobre "A Odisseia". Culpa de ter filhos pequenos. Não vou muito ao cinema. Mas que proeza realizou seu diretor, Christopher Nolan. Elon Musk não entendeu o que era esse filme. Mas esse filme entende o que Musk é. Entende quem estamos nos tornando e quem nos tornamos —e aponta uma saída.

Os ardis são centrais em "A Odisseia". No mito, Odisseu é um trapaceiro. Ele é descrito, já no primeiro verso da história, como o homem de muitos caminhos, de muitos ardis ou de muitas voltas. É, dependendo do tradutor, um homem engenhoso, astuto, complexo. É um homem de apetites e contradições, alguém que não deseja nada além de voltar para casa, mas continua escolhendo permanecer longe; um homem que anseia pela esposa, mas não consegue parar de se deitar com deusas. Odisseu nunca é uma coisa só; é sempre muitas.

Mas Nolan não estava procurando um trapaceiro. Seu Odisseu é outra coisa. Esse, pode-se dizer, foi o primeiro ardil de Nolan.

Quero fazer uma pausa aqui para falar um pouco sobre os trapaceiros, porque passei os últimos anos discretamente obcecado por esse arquétipo. O trapaceiro é Loki na mitologia nórdica, Eshu nas histórias iorubás, Coiote ou Corvo nos contos indígenas americanos, Maui na Polinésia e Hermes e Odisseu entre os gregos antigos.

A função do trapaceiro, escreve Lewis Hyde em seu maravilhoso livro "Trickster Makes This World", é "revelar e desestabilizar justamente aquilo de que uma cultura depende". O trapaceiro dança por entre costumes e tabus, diz o que não pode ser dito, faz o que não deve ser feito. Injeta desordem na ordem, torna visível o que normalmente permanece oculto. Provoca o dano que torna possível o crescimento. Mas um final feliz jamais está garantido. O trapaceiro pode ser regenerador ou ruinoso. Coiote traz o fogo; Corvo traz o sol; Loki traz o Ragnarok.

O argumento de Hyde é que os trapaceiros são necessários e perigosos ao mesmo tempo. Eles representam uma tensão com a qual toda sociedade precisa lidar. Uma cultura incapaz de reagir à ruptura com criatividade não consegue sobreviver à mudança. Uma cultura incapaz de proteger seus valores fundamentais será consumida pela corrupção. Ordem demais leva à paralisia; caos demais convida ao colapso.

Fontes

Informação baseada em material público de Folha Mundo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

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